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Quinta, 5 de julho de 2007, 08h06

E viva a Desinteligência Nacional!!

Marcelo Carneiro da Cunha

Acho que está na hora de criarmos mais um feriado. Um dia todinho ele dedicado a uma das áreas em que nosso país se mostra um campeão, ao lado do futebol, vôlei e desigualdade social. Pois aqui e agora essa coluna propõe a criação do Dia da Desinteligência Nacional. A data fica por ser definida, mas pode ser qualquer dia, não faz diferença.

Não que nos falte inteligência, nada disso. A temos, e olhem a Embrapa, o Paulinho da Viola ou uma escola de samba das boas em evolução pra ver do que a gente é capaz. O problema está no outro lado da coisa, na impressionante dose de desinteligência que somos capazes de produzir e consumir. Coisa de Primeiro Mundo, ao contrário.

No futuro Dia da Desinteligência Nacional a gente pode começar cantando o nosso hino e passar imediatamente a uma interpretação do que afinal aquela letra quer dizer. Fora partes como o lindo início do "Ouviram do Ipiranga" e trechos como "terra adorada entre outras mil és tu Brasil, dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil" que é de arrepiar com a música ao fundo, o miolo é mole. Um discurso que pode ter soado normal no século 19 simplesmente não diz o que a gente sente ou é nos nossos tempos e vivemos aqui e agora. Se um hino é uma declaração de intenções, que elas sejam claras e para todos. Assim, uma vez realizada a reforma da letra do Hino, ai do jogador da Seleção que dê vexame lá fora. Uma das demonstrações da nossa Desinteligência, do que fazemos com as crianças de nossas classes despossuídas, é a remoção que percebemos nos rostos deles em close, a cada partida internacional. Hino pra todos, e com sentido ainda por cima. Daí até chegarmos a um país pra todos deve ser moleza, bastando seguir em frente nessa mesma linha de raciocínio.

Nossa Desinteligência tem se esbaldado mesmo é no tal de espaço aéreo. No instante em que nada anda, e ninguém sabe onde a gente religa o andador, é sinal de que a coisa realmente ficou preta, pós-preta, na verdade, e olhar para o rosto dos responsáveis pela Anac, Infraero, Defesa, quem mais é mais ou menos como olhar para o rosto dos jogadores da canarinho durante o hino, e assusta.

Já no bravo Congresso Nacional, papagaios fora, um presidente da Casa insiste em não abandonar o ambiente doméstico em que se instalou, mesmo quando tudo e todos já disseram em diferentes tons o que pensam sobre ele e sua figura. Não sei se este é um caso de Desinteligência, simples falta de noção da hora, ou hábitos que dominam desde sempre a política nas Alagoas. Na dúvida, Renan para Orador nessa data festiva. O que quer que ele tenha para nos dizer, vai ser uma contribuição e tanto. Nosso feriado agradece.

Distribuiremos medalhas para o Roriz, para Clodovil Hernandez; para a gloriosa Força Nacional, que entra no tal de complexo do Alemão numa matança de escala carandiruesca; para o Ministro dos Transportes, se houver um. Do jeito que estão as estradas, talvez a gente tenha que entregar a medalha in memorian.

Na verdade, um só dia pode ser pouco para tantas homenagens que devemos a tantos. Eu olho para Porto Alegre, a cidade onde eu vivo na maior parte do mês (a outra é São Paulo), e fico pensando no nosso prefeito como homenageado hors concours. Parece que deixaram terminar o contrato de recolhimento de lixo sem haver outra empresa pra colocar no lugar e assim 25% da cidade que se vire como der. O asfalto das ruas deve ser pensando pra estimular a levitação e não há placas com nomes das ruas nas esquinas, o que sugere que vivemos uma guerra e os inimigos não podem saber onde estão. Não existe sinalização capaz de levar as pessoas de um lado para outra sem um adivinho a bordo e um projeto de combate às inundações é um buraco sem fundo. Vivemos bem.

Sorte que nos outros 364 dias do ano podemos celebrar o resto. Os nossos eventuais acertos, as coisinhas que por algum motivo resolvem funcionar, e o fato de que nosso barco é tão grande e poderoso que, sabe-se como, avança. Se avança assim, imaginem como navegaria se houvesse alguém realmente pensando na melhor rota. Quantos oceanos já teríamos atravessado, quantos pântanos teríamos drenado, quanta gente teríamos ajudado, você e eu inclusive, a viver tão, tão melhor.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que será publicado em setembro pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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Agência Senado/Divulgação
Renan Calheiros, (ainda) presidente do Senado, será o Orador do Dia da Desinteligência Nacional

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