Deolinda Vilhena
Tônia Carrero está em cena. Como a biografia dessa deusa registra alguns dos mais importantes momentos do teatro brasileiro, o que convém sempre lembrar, já que a memória não é uma das qualidades do nosso povo e muito menos dos seus governantes, isso é motivo suficiente para ir ao teatro.Às vésperas de completar 85 anos, Tônia, tendo Mauro Mendonça como companheiro, está em cartaz no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro com a peça Um barco para o sonho, do russso Alexei Arbuzov que a definia como "uma comédia sentimental à moda antiga", com tradução de Cecil Thiré, e direção de Carlos Artur Thiré.
Para melhor contar aos leitores de Terra Magazine sobre a estréia, resolvi correr o risco de ligar na hora errada e telefonei para Tônia na manhã seguinte à pré-estréia do espetáculo. Sábado, onze da manhã, a voz de Tônia é luminosa. Ela está feliz. Felicíssima...
Conta-me da emoção de encontrar todos os amigos no coquetel após o espetáculo, mesmo Bárbara Heliodora - crítica de O Globo - ficou..., diz ela empolgada. O foyer Tônia Carrero, singela e merecida homenagem do Maison de France à uma atriz que ali fez grandes sucessos, foi pequeno para acolher Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Irene Ravache, Arlete Salles, Betty Faria, Eva Todor, entre tantos outros.
Fala do prazer em trabalhar ao lado de Mauro Mendonça. "Além de um grande ator, ele é gentil, delicado, nos entendemos maravilhosamente"... Não posso deixar de perguntar como foi ter sido dirigida por Carlinhos, o neto que eu conheço desde menino. A resposta demonstra respeito e corujice: "Você não imagina o quanto ele é exigente, detalhista, um danado!".
Depois me conta da alegria de ver todos da família envolvidos com teatro. Cecil, o filho, dispensa apresentação. Os netos Luiza, Carlos e Miguel - filhos de Cecil com Norma Thiré, produtora respeitada e que nos anos 70, ao lado da minha amada Elda Priami, lançou moda com uma empresa de divulgação para espetáculos teatrais - constróem suas carreiras com bases sólidas, nada de deslumbramentos mas sim muito, muito trabalho. Verdadeiros operários da arte. O neto mais novo, João, optou pela música e escolheu a bateria... ele que aos três anos e meio me chamava de Violinda em nossa lendária turnê de As atrizes...
Em janeiro desse ano, quando da inauguração da Sala Tônia Carrero, no Teatro do Leblon, a homenagem maior veio dos bisnetos, Victor (13 anos) e Juliana (10 anos), filhos de Luiza Thiré, que interpretaram uma cena de Um Deus dormiu lá em casa. Tudo indica que eles já fizeram uma opção pelos palcos...
Em setembro, junto com a primavera, chegará Antônio, terceiro filho de Luiza e quinto bisneto de Tônia, que juntar-se-à aos primos gêmeos Bernardo e Francisco, filhos de Carlinhos, únicos que ainda não se manifestaram. Pudera, acabam de completar dois anos! Mas sabem quem é a mãe dos meninos? Isabella Garcia, a Dinorá de Paraíso tropical... Alguma dúvida do destino da dupla?
Depois de falar com Tônia, ligo para Carlinhos. Desculpem-me, mas para mim ele será sempre Carlinhos...a ele e Luizinha dediquei meu primeiro livro de poesias, em 1980, generosamente prefaciado pelo Cecil...
Pergunto como foi dirigir a avó, que ele chama de Mariínha e ele conta que foi apaixonante, que é impossível não se deixar contaminar pela determinação e pela luta de Tônia, que não se deixa vencer, que não desanima. Diz que nem quando morou na casa dela, se sentiu tão próximo quanto nos momentos de ensaio e de trabalho. Que sua admiração por ela aumentou. Contou-me que há um mês ele pensou que a peça pudesse não estrear. Tônia teve uma arritmia cardíaca, mas teimosa não quis interromper os ensaios, o teatro antes de tudo, impossível viver sem ele.
Por outro lado, diz Carlinhos, foi comovente a maneira como ela e o Mauro se entregaram ao trabalho. "gGratificante ver o quanto acreditaram em mim e aceitaram minhas propostas". É só elogios para Mauro Mendonça: "Ele é de um companheirismo e de uma gentileza a toda prova."
Lembro dos tempos que Carlinhos fazia faculdade de Biologia na Rural do Rio de Janeiro. Nada indicava que faria teatro. E ele me diz: "Deolinda, eu saí da Rural sabendo muito mais de teatro do que quando lá entrei... Fiz teatro de grupo, escrevi peças... descobri o teatro de dentro para fora! Foi como se tivesse precisado me isolar, me ver livres das pressões e cobranças externas para me encontrar com o teatro."
Planos após a estréia de Um barco para o sonho? Primeiro ele espera que a carreira da peça seja longa... No mais, vai para Portugal em setembro, desde 2001 estabeleceu uma carreira de diretor em terras lusas, onde já dirigiu dez espetáculos. Na volta, quem sabe retoma a peça Festa surpresa, ao lado de Isabella, ao final das gravações de Paraíso tropical. Sem contar os textos novos. "Ser escritor significa ter sempre uma idéia a caminho...".
Após conversar com Tônia e Carlinhos, sentei para escrever a coluna. Penso no nosso último encontro, em fevereiro desse ano. Noite de entrega do Oscar, com Irène e Kiko, na casa dela... anos e anos fora do Brasil e ao voltar ela foi uma das primeiras pessoas a quem procurei e quis ver imediatamente. Viajo no tempo e vejo o quanto minha paixão por Tônia é antiga. Ela faz parte do meu panteão particular, tem lugar cativo no meu coração há mais de três décadas.
Paixão de pré-adolescência nascida durante a exibição da novela Pigmalião 70. A beleza de Tônia impressionava a adolescente que eu era, mas isso não era privilégio meu, Paulo Mendes Campos dizia que "quando Mariínha irrompia na sala, na rua, na praia, ninguém podia olhar para outro lado, como acontece na penumbra quando se liga a televisão".
Tônia beirava os cinqüenta e vivia o esplendor de sua beleza, linda, deslumbrante, verdadeira deusa e fora da tela vivia um outro personagem, o de avó de Luiza, cujo nascimento em 19 de novembro de 1970 fez Carlos Drummond de Andrade escrever em crônica do Jornal do Brasil que sua aspiração seria fazer de Tônia "a porta-estandarte oficial, orgulho e símbolo de nova espécie de avós..."
Em meados de 74, Toquinho e Vinícus lançam um disco em que cantam com diversos amigos, entre eles Cyro Monteiro. Antes de cantar Que martírio, de Milton de Oliveira e Haroldo Lobo, Vinícius conta para Cyro que houve uma época no Rio de Janeiro onde uma única pessoa conhecia a letra completa da música: Tônia Carrero... Nunca mais esqueci a resposta de Cyro: "Tônia Carrero de teatro dando quinau em você" e Vinícius completa, com o charme que lhe era tão particular: "D.Tônia sabe de tudo"... Acho que foi a partir daí que passei a chamá-la de D.Tônia. E mais, o comentário de Vinícius, por quem era apaixonada - vesti luto quando da sua morte porque sonhava casar com ele um dia - me fez compreender para sempre o quão especial era D. Tônia.
Logo depois fui vê-la no teatro Copacabana, fazendo Constantina, e aí deu-se o choque. Nunca mais a beleza de outra mulher me causaria o mesmo efeito. Tônia é, ainda hoje, a mais bela mulher que conheci na vida. Tivesse nascido na França e seria o rosto da Marianne, símbolo da república francesa; tivesse feito carreira em Hollywood e Greta Garbo teria sido apenas mais uma. Mas Tônia optou pela pátria amada ainda que tantas vezes mal agradecida e preferiu ficar no Rio, tornou-se uma grande atriz, contrariando as previsões de um de seus professores franceses que teria dito: "Você vai ser uma ótima senhora da sociedade, mas não tem nada a ver com teatro."
Frase forte o suficiente para levar ao desânimo simples mortais, mas não Tônia. Ela perseverou no caminho escolhido e, ainda em Paris, foi aluna de Roger Blin, Jean-Louis Barrault que a chamava carinhosamente de "ma beauté" e de Marie-Hélène Dasté, filha de ninguém menos que Jacques Copeau.
Sua estréia profissional aconteceria em 1949, aos 27 anos, com a peça de Guilherme Figueiredo, Um Deus Dormiu lá em Casa, ao lado de Paulo Autran. Entre 1950 e 1954, fez parte da Vera Cruz, fazendo Apassionata, Mãos Sangrentas, Tico no Fubá e É Proibido Beijar entre outros filmes. Depois disso Tônia já interpretou Ibsen, Tchekov, Shakespeare, Pirandello, Tenesse Williams, Sartre, Edward Albee, Beckett, Plínio Marcos e Nelson Rodrigues. Sem falar da importância da companhia Tônia-Celli-Autran.
O que diria seu professor se visse hoje tudo o que a Tônia fez? E tudo isso sem deixar de ser bela. Bela, classuda e elegante. Coisas que, em tempos de vulgaridade assumida pelas mulheres, cada vez menos andam juntas. Lembro-me sempre de Bibi Ferreira contando que sua mãe, Aída Izquierdo, ao ver uma foto de Tônia dizia "mira, mira la Tônia!", como exemplo de elegância a seguir.
O fato de ser bela fez com que Tônia, assim como aconteceu com Maria Della Costa, tivesse que matar não um, mas dois leões por dia para que todos vissem o que sua beleza encobria - seu talento. Pois se ser bela não a impediu de fazer Navalha na Carne, de Plínio Marcos, nem de aceitar o convite de Gerald Thomas para fazer Quartett, de Heiner Müller, com certeza foi o seu talento que lhe proporcionou a possibilidade de, por esses espetáculos, receber o Prêmio Molière de Melhor Atriz, então o mais importante do teatro brasileiro e cuja extinção após a edição de 1995 deixou um vazio ainda não preenchido.
Aliás, sugiro a Tônia que, usando de sua autoridade de Chevalier de l'Ordre des Arts et Lettres, comenda recebida das mãos de Jack Lang, e aproveitando a temporada no Maison de France, inicie uma campanha pela volta do Prêmio Molière. Afinal o teatro fica no subsolo do prédio do Consulado da França no Rio de Janeiro, onde se encontra o escritório de Dimitry Ovtchinnikoff, adido da Cooperação e da Ação cultural, pessoa indicada para levar o pedido ao Embaixador Antoine Pouillieute. Melhor momento impossível, afinal foi dada a largada para os preparativos do Ano da França no Brasil.
Durante anos quis trabalhar com Tônia... nossos caminhos se cruzaram muitas vezes, em 1979 nossos laços se estreitaram graças ao meu contato com Cecil, Norma e as crianças... eram os tempos de O Fado e a Sina de Mateus e Catirina, de Benjamin Santos e A Resistência, de Maria Adelaide Amaral. Tempos passados no Teatro Gláucio Gill, transformado em quintal da minha casa em Copacabana. Tempos em que, um mês após o retumbante sucesso da estréia de A Resistência, Flávio Bruno abria as portas de sua casa para comemorar o pagamento da produção da peça... nunca mais vi isso! E nem existia patrocínio!
Anos depois fiz Gatão de estimação, com o Cecil e a Cláudia Raia, na temporada paulista e Tônia era a figurinista... Foi preciso esperar os anos 90 para trabalhar com ela, As atrizes... e a melhor turnê da minha vida de teatro. Costumo dizer que a amizade que resiste a uma turnê resiste a tudo.
D.Tônia tem o espírito do mambembe. Precisa acordar cedo para encontrar prefeito, governador, gravar comercial de permuta, pegar avião de madrugada, encarar hotel três estrelas para estar perto da companhia, ela topa tudo... tremenda companheira. Na alegria e na tristeza.
Na farra formamos uma dupla imbatível, e a noite acabava sempre em cantoria... dona de voz delicada e de uma afinação impressionante Tônia enveredava pelo repertório de Vinícius e era aplaudidíssima a cada vez que dizia o Soneto de separação... De repente do riso fez-se o pranto... e vai por aí...
Mas nunca vi D.Tônia fugir na hora dos problemas. Quando de nossa passagem por Fortaleza, uma nova lei determinava que as companhias de teatro não podiam receber diariamente a renda da bilheteria. O dinheiro entrava nos cofres do estado e dias depois era depositado na conta da produção. Caos total. Tônia, à frente do elenco e equipe, participa de um encontro com o então governador Ciro Gomes que, em audiência às 8h30 da manhã, resolveu o problema.
Em Salvador o mundo ameaça cair sobre nossas cabeças... A VASP atravessa um momento difícil e cancela o patrocínio das companhias de teatro... Marcamos uma audiência com Antônio Carlos Magalhães, e dentro de uma Kombi partimos todos, inclusive João, neto de Tônia, à época com três anos, para o Palácio de Ondina... Até hoje Pedro Rovai, produtor da peça, não me disse se conseguiu ou não as passagens, mas o fato é que fizemos a turnê completa. Guardei uma vaga lembrança dessa ida ao Palácio de Ondina, uma foto de Antônio Carlos Magalhães ladeado por dois generais, não sei mais se Castello Branco e Médici, Costa e Silva e Médici ou Geisel e Médici, o medo fez com que eu esquecesse...
Mas mesmo depois de As atrizes tinha uma mágoa, Tônia nunca tinha me convidado pessoalmente para trabalhar com ela até que em 1996, decidida a buscar outros rumos e a abandonar o teatro, me instalei na casa de minha mãe, em Santos. Um belo dia toca o telefone e do outro lado uma voz conhecida me pergunta: "Se o teatro brasileiro precisar de você, você volta?" Respondi calmamente: "Não"... Nova pergunta: "E se eu precisar de você, você volta?"... Respondi "Tente"... Ela tentou e, como resistir à D. Tônia é impossível, no dia seguinte eu chegava ao Rio de Janeiro para fazer a assessoria de imprensa e o lançamento de seu espetáculo Amigos para sempre, dirigido por Luiz Arthur Nunes.
Passei um mês no Rio, hospedada num hotel maravilhoso, o Marina, vista para o mar do Leblon, carro e motorista de Tônia à disposição para que eu fizesse a divulgação do espetáculo... toda a mordomia do mundo.
Dias depois da estréia, na véspera de voltar para Santos, ela organiza um jantar de despedida, ao qual também comparecem seus amigos Norma e Glauco Rodrigues. No final da noite ela me deixa no hotel com a promessa de voltar na manhã seguinte para me acompanhar até o aeroporto...
Acordo com um telefonema da Nina, há anos anjo da guarda de Tônia, dizendo que o motorista passará para me pegar porque D. Tônia não poderá me acompanhar... O motorista é portador de um envelope, que deixo para abrir no avião, dentro dele um bilhete carinhoso e um cheque. Achei estranho. Oscar José, amigo querido e produtor do espetáculo, havia acertado tudo comigo.
Ao ligar para saber o por quê do cheque, descubro que é presente. Primeira, e única!, vez na vida que um "patrão" me pagou 50% a mais que o combinado simplesmente por achar que o resultado do meu trabalho valia mais. "Além disso", disse-me ela na época, "recebi o patrocínio que esperava para a peça, tenho mais é que pagar bem aos que trabalham comigo." Quantos fazem isso? Mas é a generosidade, e não a beleza, a marca número um de Tônia Carrero.
Rubem Braga estava certíssimo quando escreveu que "fala-se muito no segredo da mocidade de Tônia. Prestem atenção: essa natureza generosa, o carinho que espalha por todos que a cercam, até ao mais humilde, é uma grande parte do seu segredo. Ser bom faz bem à alma, e à face, e nada envelhece mais que o estigma da mesquinharia gravado na cara; nada embeleza tanto quanto a doçura interior. Tônia é toda bela."
Por essas e tantas outras lembranças é que ir ao Rio de Janeiro assistir Um barco para o sonho mais que um desejo é uma obrigação... Vocês que moram no Rio, ou vocês que por lá estarão em férias, a dica está dada, corram para vê-la e aproveitem para visitar a exposição de alguns dos figurinos usados por Tônia em seus quase 60 anos de teatro...
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Arquivo Pessoal/Tônia Carrero/Reprodução
Tônia Carrero no filme Quando a noite acaba de 1949
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