
Luiz Gonzaga Belluzzo
Nos Estados Unidos, as Agências de Classificação de Risco, mais exatamente de risco de crédito, já não conseguem mais esconder do público investidor as mazelas dos mercados de hipotecas. O economista Nouriel Roubini, conhecido agourento, anuncia em seu blog: a Standard and Poor's promete desclassificar US$ 12 bilhões de títulos de crédito amparados em empréstimos hipotecários de maior risco (subprime).No dia 10 de julho, notícia publicada no site da Bloomberg informa os investidores de todo o gênero que os ratings de 612 categorias de títulos amparados em créditos hipotecários destinados a financiar imóveis residenciais foram colocados "sob observação" com implicações negativas. Os títulos representam 2,1% dos US$ 565 bilhões de papéis de qualidade similar avaliados pela Standard and Poor's em 2006.
Agora a renomada Agência cuida de safar a onça: "O mercado de imóveis residenciais nos Estados Unidos continuará a declinar antes de iniciar a recuperação e os preços das residências continuarão sob pressão. A fragilidade destes mercados vai exacerbar ainda mais as perdas, com escassa probabilidade de melhoria no curto prazo". Aviso um tanto tardio.
O articulista da Bloomberg registra a insatisfação dos investidores com a incúria, para dizer pouco, das agências de classificação de risco. Os preços de alguns títulos "lastreados" em créditos hipotecários de segunda categoria caíram mais de 50 cents por dólar nos últimos meses, sem que seus ratings tivessem sido rebaixados. Não é a primeira vez que as celebradas agências deixam de registrar perdas que o mercado já sancionou. É claro que mudanças nas avaliações de risco de crédito - ou nos critérios que presidem as classificações - devem ser efetuadas com a maior cautela, sobretudo em mercados financeiros muito "alavancados" e naturalmente sujeitos a súbitas alterações de humor dos investidores, ora eufóricos e logo depois pessimistas. Os delírios da liquidez "abundante", ou seja, do estreitamento dos "prêmios de risco" entre os ativos de várias classes têm o mau hábito de se transformar rapidamente num pesadelo: derrocada de preços, fuga para a qualidade e abertura brutal dos spreads.
Nas esquinas de Wall Street, a despeito das celebrações das bolsas de valores, correm rumores de crise sistêmica. Não é fácil definir com precisão o que é uma crise sistêmica, mas é possível reconhecer o fenômeno quando está ocorrendo. Numa pesquisa exaustiva, os economistas De Bandt e Hartmann afirmam que uma crise sistêmica ocorre quando "um número considerável de instituições financeiras ou mercados afetam o bom funcionamento do sistema de crédito, ou seja, afetam negativamente a eficiência da transformação da poupança em investimento produtivo". A tradução é livre, mas os dois economistas (à parte as besteiras sobre poupança e investimento) estão falando de uma contração do crédito, um credit crunch, que pode se esparramar por toda a economia e disparar uma crise no setor dito "real" sobretudo no consumo das famílias, no investimento produtivo e no emprego.
Desde os anos 90, sobretudo nos últimos quatro anos e na contramão dos ciclos anteriores, o crescimento do consumo está cada vez mais desconectado da evolução da renda, dos salários e do emprego, e mais dependente do efeito-riqueza, nos últimos anos concentrado da valorização dos imóveis residenciais. O longo ciclo de prosperidade americana iniciado nos anos 90, apenas interrompido por uma suave recessão entre 2001 e 2003, favoreceu a expansão do consumo escorada no forte endividamento das famílias. Esse componente da demanda efetiva pode ser qualificado de consumo capitalista, mas não inclui apenas o "consumo dos capitalistas". Sua denominação decorre da forma de financiamento do gasto dos consumidores que usam seu estoque de riqueza como colateral de empréstimos, à semelhança do investimento e do consumo dos capitalistas, sempre amparados no sistema de crédito.
A alavancagem baseada em créditos bancários explica o enorme potencial de realimentação dos processos altistas (formação de bolhas), assim como a ampliação das oportunidades de ganhos patrimoniais de empresas e famílias. Em sua exuberância, esses mercados apresentam grande sensibilidade diante dos riscos associados à flutuação de preços dos ativos e à contração da liquidez. Mas os episódios de euforia e alavancagem excessiva terminariam em crashs espetaculares não fossem as intervenções de última instância dos bancos centrais mais poderosos.
É ainda prematuro prognosticar se a crise nos mercados de imóveis dos Estados Unidos vai assumir a configuração de uma crise sistêmica. Isso só ocorrerá, como já advertiu o economista Charles Kindleberger, se o sistema de crédito sofrer perdas suficientes para induzir uma contração do crédito capaz de impor uma forte recessão à economia.
Na dúvida, o Secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos, Alphonso Jackson, arrumou as malas e correu para a China pedir o penico. A missão: arrancar do Banco Central "daquele país comunista" (assim diriam, outrora, os editorias da grande imprensa brasileira) a compra de mais títulos emitidos pela agência governamental Ginnie Mae, uma espécie de banco de segunda linha do mercado hipotecário americano. Os bonds da agência federal hoje garantem US$ 417 bilhões de empréstimos hipotecários negociados com taxas fixas. Até junho de 2006, os chineses já haviam adquirido US$ 107 bilhões em títulos das três agências americanas. O senhor Alphonso está de olho nas reservas chinesas de US$ 1,3 trilhões. Acena com uma remuneração mais vantajosa do que a oferecida pelos títulos de dívida do Tesouro americano, com o mesmo risco de crédito.
Sempre curti inveja de especialistas como o senhor Alphonso. Quando o tempo permite, ouço e leio extasiado e respeitoso seus saberes e sabedorias. Mas, diz a parêmia popular, ninguém é de ferro. Depois de navegar hora e meia pelos sítios e blogs que tratam de economia, decidi dar uma trégua ao espírito. Sinceramente condoído das humilhações sofridas pelo senhor Alphonso, escolhi peregrinar, em pesquisa livre, nas desfalcadas estantes de minha biblioteca. Ignorante inquieto, tropecei no livro de provérbios napolitanos. O prefácio, assinado por Antonio Rotondo, escrito em impecável italiano, revela que, a despeito das tentativas dos senhores de se apropriar da linguagem do povo, o dialeto popular resistiu à contaminação aristocrática. Especialista em coisa alguma e muito menos entusiasta de provébios populares, arrisquei a inspeção de alguns exemplares da sabedoria brasileira. Aquele saber que serpenteia e se esgueira por nossa matas, campos e cidades. "Nada como um dia depois do outro"; "Não há mal que sempre dure ou bem que nunca se acabe"; "Deixa estar, jacaré, a lagoa há de secar" ou "Quem dá aos pobres empresta a Deus" etc.
O último refrão, "Quem dá aos pobres empresta a Deus", foi uma facada às costas da alma já machucada pela agruras do senhor Alphonso alma compungida. Veja o leitor: um alto funcionário do país mais rico e poderoso do mundo rasteja aos pés dos ignóbeis burocratas chineses (commies, como registram os documentos oficiais do Departamento de Estado), sofrendo as penas e dores até há pouco reservadas aos pedintes da periferia. Atitudes como a do senhor Alphonso, infelizmente, ajudam a engrossar o coro dos anti-americanistas que, diga-se, manifestaram seu cripto-comunismo, vaiando a simpática delegação dos EUA na abertura dos Jogos Panamericanos. Ginnie Mae, diz o funcionário americano, em tom de súplica, "está numa posição melhor do que as outras agências"' para vender o produto. Diferentemente da Fannie Mae da Freddie Mac, "as outras", Ginnie oferece a garantia plena do governo americano. O senhor Alphonso encontrou-se na semana passada, em Pequim, com o presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochan, e com o ministro da construção, Wang Guangtao. "Me dá um dinheiro aí", já entoava a marchinha de carnaval de um ex-devedor contumaz dos trópicos.
Ah, sim, os provérbios napolitanos. "Chi sàuta troppe pale, se n'mpizza quaccuno 'ncullo". Em tradução livre para o português: "Quem pula muito a cerca, se arrisca a rasgar os fundilhos".
Terra Magazine
» Consumidores aloprados ou contribuintes lesados?