Terra Magazine

 

Segunda, 16 de julho de 2007, 08h24

A bela do Mediterrâneo

Fernando Eichenberg

O verão de céu azul e temperaturas elevadas aterrissou tardiamente, no final da semana passada, na capital francesa. O sol e o calor inspiram férias à beira-mar, sopradas por brisas frescas. Por que não uma dica para aqueles que desejarem conhecer um lugar que tem tudo para, ao final da viagem, se tornar inesquecível?

Napoleão Bonaparte dizia que era capaz de reconhecer a Córsega de olhos fechados, guiado apenas pelos evocativos odores da ilha na qual nasceu. Mas nada se assemelha a descobrir todos os contornos e relevos dessa pérola francesa do mediterrâneo de olhos bem abertos.

Viajar pela Córsega é se surpreender a cada curva, cada declive, cada nova perspectiva. Seus 8.681 km² acolhem 1.047 km de costa, dotada de mais de 300 praias paradisíacas de águas cristalinas, numa paisagem exuberante de encostas, enseadas, montanhas, cascatas, córregos, tudo emoldurado por uma abundante e variada flora de mais de 2.800 diferentes espécies.

A Córsega apela a todos os sentidos. Quem já colocou os pés nessa terra encantada saberá que a descrição não é desmesurada. Para aqueles que ainda não tiveram esse privilégio, vale a pena incluí-la no roteiro de uma próxima escapada. A Île de Beauté (Ilha de Beleza), como é chamada, justifica plenamente o ambicioso apelido.

A Córsega - ou Kallistè (a Bela), assim alcunhada por um povo especialista em ilhas, os gregos - receberá de bom grado o turista em qualquer época do ano. Os períodos mais convidativos, no entanto, são no final da primavera e do verão europeus. No inverno, a média da temperatura da água é de 15°C, contra 25°C nos meses estivais. Chove, em média, apenas 50 dias por ano. Em altas altitudes, nos picos das montanhas, a neve pode persistir até a metade de junho. Há várias maneiras de se desvendar seus segredos e sua generosa natureza. Circundar a ilha num veleiro, num roteiro pontuado por escalas em terra, pode ser uma boa pedida. Mas, na falta de um barco, alugar um carro e se deixar levar sem pressa por suas belas, estreitas e sinuosas estradas, cada uma delas reveladoras de impressionantes aquarelas, é igualmente uma excelente opção.

Como ponto de partida, pode-se desembarcar na capital Ajaccio - berço, aliás, de Napoleão Bonaparte, o filho mais ilustre da terra. Antes de se entregar aos prazeres naturais da ilha, vale uma visita à casa onde nasceu o destemido imperador, em 15 de agosto de 1769, hoje transformada em museu. Mais pela curiosidade histórica do que pelo que oferece seu modesto acervo. No segundo andar, está o chamado "quarto da alcova", onde Napoleão teria se instalado durante sua breve escala no retorno da vitoriosa campanha do Egito, em outubro de 1799. Pode-se notar mesmo o alçapão por onde teria escapado na noite de 5 de outubro para, de volta à fragata La Muiron, rumar ao continente na direção de Paris. Foi a última vez que o imperador viu sua adorada ilha até o dia de sua morte, por ironia da história, ocorrida em uma outra ilha, durante seu derradeiro exílio em Santa Helena. Para o turista interessado no emblemático personagem, há ainda as telas expostas na pinacoteca Fesch e a catedral da cidade, na qual Napoleão foi batizado em 21 de julho de 1771.

Feito o passeio histórico napoleônico, direção para o norte, pelo litoral - saia do próprio aeroporto já com o carro alugado e prepare-se para o descortinar dos mais impressionantes panoramas. Os caminhos costeiros da Córsega são tão fascinantes que a vontade é parar em cada pequenina praia avistada ao longe do alto da estrada. Freqüentemente, cada amostra de Éden revela um solitário restaurante encravado nas pedras, quase dentro do mar. O cardápio costuma oferecer um saboroso peixe fresco, pescado das águas pela manhã e preparado segundo as mais diversas receitas. Umas das mais apetitosas é o peixe cozido com uma espessa crosta de sal, retirada com as escamas na hora de servir.

A gastronomia da ilha é um capítulo à parte. O paladar é amplamente satisfeito, seja nos botecos familiares ou em mesas mais sofisticadas. As sopas de legumes ou peixe (a famosa bouillabaisse, ou aziminu na língua corsa), ou ainda de alho ou cebola, são tradicionais. Sendo uma ilha, os produtos do mar também são reputados pela variedade de peixes, lulas, mexilhões e, mais recentemente, ostras. Na região montanhosa,pode-se também degustar deliciosas trutas. Os frios são uma especialidade do interior, como o presunto cru ( prisuttu), o salame defumado (salamu) e o mais famoso de todos, o figatellu, um suculenta salsicha feita à base de fígado e miúdos, servida geralmente grelhada. E para quem aprecia carne de caça, os animais selvagens são abundantes nas matas da ilha, chamadas maquis. Saudáveis javalis compõem um dos pratos típicos, como se vê no álbum de quadrinhos Astérix na Córsega, da combativa e bem-humorada dupla de gauleses Astérix e Obélix, criada por Goscinny e Uderzo. O brocciu, queijo local, é presença constante à mesa. Por fim, no quesito bebidas, a robusta cerveja corsa Pietra, produzida com farinha de castanha, desce redonda nos dias quentes de verão. Na carta de vinhos, os rótulos locais, sejam tintos, brancos ou rosés, não desmerecem as appellation contrôlées, principalmente as cepas das regiões de Patrimonio, Sartène, Porto-Vecchio e Calvi.

Satisfeitas as curiosidades da mesa e antes de seguir viagem, um alerta ao condutor desavisado: convém ser prudente ao trafegar pelas diminutas estradas, principalmente com tão belas e sedutoras paisagens a desviar a atenção do embevecido motorista. Na estrada até l'Ile-Rousses, pode-se apreciar o litoral dos golfos de Sagone, Porto e Girolata. Piana é uma das paradas obrigatórias. Aninhada numa enseada formada por rochas vermelhas, a aldeia oferece um dos mais belos espetáculos naturais do Mediterrâneo. As calanches de Piana, falésias de 300 metros de altura de granito vermelho, são catalogadas como uma das sete maravilhas da Córsega. Ao contemplá-las, em 1880, o escritor Guy de Maupassant descreveu-as como "uma verdadeira floresta de granito púrpura", desenhada por rochas nas formas mais extravagantes, "modeladas pelo tempo, o vento forte e a bruma do mar". Anos antes, o colega Gustave Flaubert também passou por lá e deixou seu testemunho poético: comparou os rochedos iluminados pelo sol a coroas de diamantes cintilantes como as estrelas, e definiu o perfume do mar como mais suave do que o das rosas.

Na hora do aperitivo, observar do terraço do hotel Les Roches Rouges o sol desaparecer na baía é uma experiência visual inesquecível. A luminosidade do crepúsculo realça a cor vermelha do granito, numa pintura de textura única. Para uma boa noite de sono, o hotel, construído em 1912, simples e de agradável décor, não deixará a desejar. O local é também recomendável para o jantar: uma reputada cozinha de frutos do mar numa sala tombada como patrimônio da Unesco por seus afrescos e com amplas janelas oferecendo uma paisagem de abrir ainda mais o apetite.

Mais ao norte está uma das mais regiões mais belas e selvagens da ilha. O chamado Cap Corse, na forma de um longo dedo apontado para o mar, é uma espichada cadeia de montanhas de 40 km de comprimento, de 12 a 15 km de largura, com picos de até 1.307 m de altura, e 110 km de costa cercada por um mar de diferentes matizes. Os corsos batizaram esse indicador mágico de l¿isula di l¿isula, a ilha da ilha. Trata-se, realmente, de um mundo à parte, e só ele já valeria a viagem.

No lado esquerdo do ¿dedo¿, as falésias se encontram com o mar como grande muralhas. Faça uma pausa para um aperitivo em qualquer terraço da simpática Nonza, para apreciar a paisagem, e prossiga lentamente, parando quando o cenário mais aprouver. O pequenino porto de Centuri, quase na ponta do dedo, é um bom ponto de escala na descoberta da preciosa geografia e de suas enseadas secretas, ótimas para se banhar sentindo-se um Robinson Crusoé. Para experimentar as especialidades locais, o Restaurant du Pécheur oferece um bom menu. Os pescadores da região mantiveram uma forte tradição na prática da pesca artesanal, por meio da utilização de uma rede que permite capturar espécies pequenas de peixes. Mas a menina-dos-olhos das panelas é a lagosta vermelha da região, cuja reputação culinária faz muitos viajantes gourmets se deslocarem até o Cap Corse exclusivamente para degustá-la. Pino, Rogliano, Morsiglia, Macinaggio, muitos nomes de charmosas cidades permanecerão na memória após a visita. A maioria das aldeias no caminho possui uma torre genovesa, que no século 17 servia para avistar piratas e prevenir invasões. Sua arquitetura singular mescla o estilo toscano da Itália com arcadas e colunas espanholas.

Na descida pela costa leste, vale a pena desviar para o centro e ser ¿deglutido¿ pelas mais impressionantes montanhas da ilha. A cidade de Corté é visita indispensável e ponto de partida para conhecer a região. Entre 1755 e 1769, Corté foi a capital da Córsega independente e também a sede da elaboração de uma Constituição e da fundação de uma universidade. Até hoje, a cidade representa o núcleo de resistência dos militantes nacionalistas pela independência da ilha. Nela, a beleza é traduzida pelos numerosos desfiladeiros selvagens, lagos e cascatas dos mais diferentes tamanhos, jorrando água límpida. Por aqui também o percurso oferece constantes surpresas, e longas caminhadas são recomendáveis na descoberta de recantos de mais difícil acesso. Um deles é o desfiladeiro de La Restonica, outra das sete maravilhas da ilha. As Gorges de la Restonica começam a 1.711 m de altitude, no lago Melo, e ziguezagueiam por uma quinzena de quilômetros até o pé da floresta, formando uma enorme quantidade de piscinas naturais, verdadeiros oásis para se banhar no calor do verão.

Para os amantes de trekking e escaladas, a região é rica em opções, oferecendo colinas escarpadas e paisagens de perder a respiração. Nessa etapa, o comentário poético do célebre autor americano Walt Whitmann (1819-1892) vale como regra prática para o turista aventureiro: "Embrenhei-me deliberadamente na floresta da vida. Busquei o perigo e o desafio, como os loucos buscam a noite, para ter certeza de que o sangue em minhas veias continua imune ao tédio, ao medo que costuma contagiar os demasiadamente sensatos e comedidos. Encontrei dois caminhos que se bifurcam e escolhi o menos trilhado.Foi aí que começou a diferença".

No caminho para o sul, após Zonza, a charmosa e tranqüila Aullène, a 850 metros de altitude, proporcionará uma pausa e um sono recuperador no modesto e acolhedor Hôtel de La Poste. Na continuação, siga por um dos mais encantadores trajetos da ilha, na direção da costa leste, rumo a Solenzara. Do pico de Bavella, outra parada obrigatória, é possível avistar as agulhas rochosas de mesmo nome, um complexo mineral de formatos únicos e de cores mutantes na aurora e no crepúsculo. Para definir o raro espetáculo, recorre-se mesmo a fórmulas como "jardim de agulhas celeste" ou "ópera da natureza".

A parte meridional da Córsega é mais turística, mais construída e habitada e menos selvagem, mas seus paraísos naturais permanecem preservados e intactos. De Solenzara chega-se até Porto-Vecchio, com sua bela baía homônima e o charme da parte antiga da cidade. Até se alcançar Bonifácio, mais ao sul, pode-se aproveitar as belas praias de Palombaggia, Cala Rossa e outras tantas do golfo de Rondinara.

Suspensa nas altas falésias brancas de calcário, a cidade de Bonifácio e seus arredores é um dos mais conhecidos cartões-postais da Córsega. A região é magnífica, e não foi por acaso que o turismo de se desenvolveu ali. Uma das principais atrações é um passeio no mar pela costa das falésias e pelas grotas marinhas. Pode-se tanto admirar os fundos marinhos através do azul-turquesa das águas quanto as esculturas naturais dos rochedos. Um deles, aliás, foi cenário para o célebre filme de guerra Os Canhões de Navarone (1961), estrelado por Gregory Peck, David Niven e Anthony Quinn.

No retorno a Ajaccio, o caminho revela ainda um mapa de belas paisagens, com escalas em Sartène, Propriano e Porticcio, e uma excursão às ilhas Sanguinaires para um pôr-do-sol como suvenir de despedida - uma das fascinações do pintor Henri Matisse (1869-1854). Para fechar o périplo em acomodações de luxo, uma opção é o hotel quatro-estrelas Le Maquis, na baía de Porticcio, com quartos quase dentro do mar e a reputada cozinha de frutos do mar do restaurante L¿Arbousier. E como sugestão de trilha sonora, a música de cantos polifônicos típica da Córsega, representada, hoje, de forma mais exemplar pelo grupo de sucesso I Muvrini.

Em 12 dias de viagem é viável abordar algumas das incontáveis belezas da formosa ilha, das mais expostas a outras mais reclusas. Se for possível dedicar mais tempo, tanto melhor: a Córsega saberá retribuir com extrema generosidade. De retorno de uma de suas missões, na primavera de 1944, Antoine de Saint-Exupèry escreveu: "A Córsega, vista do alto, é o pico da beleza. Eu grudava meu olhar em suas maravilhosas baías em arabescos de ágata, suas praias, suas enseadas secretas, seus montes agulhados de neve, suas florestas, suas matas misteriosas, suas correntes d'água, suas cascatas e suas milhares de trilhas". Experimentar esse universo terrestre na superfície, misturado a seus odores e cores, sua cultura e sua terra, é algo que merece ser vivido.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

 

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