
Maria Falcão
Educação e Comunicação em Saúde deveriam ser matérias obrigatórias na grade dos cursos de medicina, porque, antes de ser um exímio "diagnosticador" e um excelente "resolutor de problemas", o médico precisa ter poder de convencimento e conhecer minimamente as artimanhas da comunicação, para saber explicar ao doente o seu problema e convencê-lo da importância e necessidade do tratamento.Na minha opinião, a mais óbvia evidência para o que digo é a falta de aderência dos pacientes ao uso das medicações contra a hipertensão. Por mais que se fale a respeito desse problema e que se saiba tudo ou quase tudo sobre o tema, não há um dia sequer em que eu deixe o ambulatório de clínica médica sem ter visto algum paciente fazendo mau uso dos remédios ou simplesmente não usando.
Os motivos são diversos e de uma criatividade invejável! Vão desde "ah, doutora, tomei um chazinho de chuchu ontem no lugar do remédio" a "aquele pequenininho, da caixinha amarelinha, me deu tosse e moleza". Seja lá qual for o motivo, chá verde, de camomila, de quebra côco, chuchu, etc., N-Ã-O se deve parar ou interromper o uso da medicação anti-hipertensiva, em nenhuma circunstância. Se o paciente não estiver se sentindo bem com a medicação, deve voltar ao médico para que ele reavalie a dose ou troque o remédio. Parar, repito, nunca!
Mas qual será o motivo para esse uso inadequado dos remédios para a pressão, por mais que se diga tanto que essa é uma atitude perigosa para quem tem a doença? Será que nós médicos falamos grego? Ou será que é teimosia dos pacientes?
Para ter resposta a essas perguntas, Terra Magazine procurou o médico Renato Accioly*, cardiologista e especialista em promoção de saúde e qualidade de vida.
Terra Magazine - Por que existe tanta resistência ao uso regular e correto da medicação anti-hipertensiva?
Renato Accioly - Essa é de fato uma questão constante na medicina. Pra se ter uma idéia, somente 50%, ou até menos, dos pacientes fazem uso da medicação corretamente. Primeiro porque a hipertensão é uma doença assintomática (se instala sem dar sinais de sua presença e pode permanecer nesse estado por anos). Assim, é preciso que o indivíduo seja muito consciente e educado em relação ao seu corpo e a sua saúde, para em um primeiro momento estar atento para a possibilidade de ter esse problema e, se o tiver, fazer o acompanhamento e aderir a um tratamento devidamente.
A segunda questão para o mau uso dos anti-hipertensivos está relacionada ao custo dessa medicação. Mesmo que o sujeito seja rico, ele às vezes pensa que pode estar gastando dinheiro inutilmente, já que não tem a certeza de que tem a doença. É muito comum ver uma pessoa tomar o remédio enquanto se sente mal e depois, por estar se sentindo bem, deixar de tomar. Nesses momentos ele questiona se realmente tem hipertensão e interrompe o tratamento. Acontece que esse indivíduo só está se sentindo bem por causa do remédio. Deixando de tomar, vai novamente se sentir mal ou ter um problema mais grave. No caso dos mais pobres, ao invés de questionar o custo, ele questiona se vale a pena ir no posto, pegar fila para ser atendido e ter a requisição, ou ter que correr mais de um posto de distribuição atrás daquela medicação.
Outro problema é o mito da impotência sexual. Hoje em dia, esse não é mais um efeito colateral real. Nos remédios antigos era real, mas, com as medicações novas, são pouquíssimos os casos em que observamos esse tipo de efeito adverso. O pior é que, na maioria das bulas de anti-hipertensivos, ainda consta a impotência como um possível efeito colateral. Com isso, o sujeito acaba manifestando o problema, não por causa da medicação, mas pelo medo. O medo faz muito mais disfunção do que a droga.
Tudo isso tem a ver com a falta de educação, com a falta de convencimento do paciente pelo médico de que ele deve estar tomando o remédio sempre, de que ele deve preservar a sua saúde a médio e longo prazo.
Você atribui essa falha ao médico ou ao paciente?
Aos dois. O médico muitas vezes atende muitos pacientes e não pode dar a devida assistência ao hipertenso. Uma consulta para tratamento de hipertensão deveria durar no mínimo meia hora, mas, com essa política de atendimento em massa de certa forma imposta pelos convênios, o médico não tem tempo. Aí acontece o que chamamos de "Health Gap": os médicos sabem tudo de hipertensão, os pacientes também, mas há falta de convencimento do médico para o paciente, falta de tempo na consulta e também inabilidade de comunicação.
Outra coisa importante é o médico saber diferenciar, já na primeira consulta, quem É hipertenso real de quem ESTÁ hipertenso. Para isso, a consulta tem que ser feita com calma e cuidado. Aquele indivíduo que está hipertenso tem geralmente hábitos de vida inadequados como uma dieta rica em sal, sedentarismo, obesidade e ingestão excessiva de bebida alcoólica. No caso desse tipo de paciente, o que deve ser feito é uma orientação criteriosa para que ele reveja seus hábitos e adote um estilo de vida mais saudável. Muitas vezes, nesses casos, o uso de medicação talvez nem seja necessário, se controlado o estilo de vida. Já o indivíduo hipertenso real, ainda que tenha hábitos e estilo de vida adequados, a pressão é alta e deve ser controlada com medicamentos. É para esse paciente que a necessidade do uso correto do remédio tem que ser enfatizada.
Quais os riscos da interrupção da medicação?
Além dos riscos de efeito rebote, que ocorrem quando o paciente interrompe de maneira súbita o uso o remédio, existem também os riscos de médio e longo prazos. Exemplos do efeito rebote clássicos são a crise hipertensiva (que se manifesta por sintomas como tontura, dor de cabeça, dor na nuca, náuseas e vômitos, zumbido no ouvido, formigamento) ou até mesmo o derrame cerebral (AVC). A médio e longo prazo, complicações freqüentes são o crescimento do coração levando a uma insuficiência cardíaca, AVC, acometimento renal e outros acidentes cardiovasculares, complexos ou não, que em geral requerem tratamentos muito mais complexos e demandantes do que a hipertensão.
*Renato Accioly é médico cardiologista, especializado em promoção de saúde e qualidade de vida pelo The Cooper Institute (Texas/ EUA).
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