
Raphael Prado
Para James Rojas Waterhouse, professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo, faltou 'boa vontade' para terminarem as obras na pista principal do Aeroporto de Congonhas. Ele diz que a falta de ranhuras no solo é um fator contribuinte para acidentes como o que ocorreu ontem, vitimando quase 200 pessoas.- A pista principal fica fechada de madrugada. Por que já não estavam ranhurando desde que começaram? O Metrô trabalha de madrugada... é expediente, é boa vontade. Vai trabalhando!
Outro problema - e que não é de hoje, aliás - é a superlotação de Congonhas. Reformado recentemente, o terminal de passageiros foi ampliado e modernizado. Mas o professor James Waterhouse diz que, aos poucos, Congonhas foi se tornando um 'hub', um ponto de conexão em São Paulo.
- Dele partem aviões para o Brasil inteiro. Tanto a Gol quanto a TAM fazem dele um ponto central. (...) Se eu quero sair de Ribeirão Preto e ir para o Rio de Janeiro, eu não tenho vôo direto. E não vou passar em Viracopos, vou passar em Congonhas.
Waterhouse acredita que esse é um outro fator determinante na potencialização do risco que Congonhas passa a oferecer. O porte das aeronaves aumenta - o acidente de ontem ocorreu com um Airbus -, o número de passageiros cresce, e o tempo de aterissagem, decolagem e permanência em solo é cada vez menor.
Além disso, ele fala de uma pressão psicológica que sofrem os pilotos para não arremeter (abortar a aterrissagem e voltar a subir). Como o intervalo de tempo entre cada pouso é cada vez menor em Congonhas, os pilotos sabem que, se arremeterem, vão bagunçar toda a programação.
- Todo mundo está apertado, querendo chegar, e está um atrás do outro. Se você arremete, bagunça tudo. O controle não gosta, ninguém gosta. Ninguém vai falar isso, claro. Mas o piloto se sente pressionado a acertar da primeira vez.
Terra Magazine - Numa análise preliminar, o que o senhor acha que pode ter acontecido para ocasionar esse acidente ontem?
James Rojas Waterhouse - A pista é o que a gente chama de um fator contribuinte para um acidente. A pista lisa, sem as ranhuras, não é um fator decisivo. Afinal, Congonhas existe há muitos anos e isso nunca aconteceu. Que o piloto arremeteu é verdade. E por que se arremete um avião? Quando você vê um obstáculo na pista, às vezes até um animal, alguma coisa que cruzou a pista... o que é pouco provável, porque a torre teria visto. Mas o que eu acredito que realmente tenha acontecido é que ele chegou rápido ou alto demais para pousar e a associação desses fatores faz com que o avião fique difícil de parar. Ou os reversos ou os freios podem ter falhado e ele pensou 'não vou conseguir parar o avião; vou arremeter'. Só que ele tomou essa decisão tardiamente. Ou então, ao arremeter, um dos motores pode ter falhado. Quer dizer, tudo isso pode ter acontecido.
A hipótese de ele não ter conseguido frear a tempo, falando como um leigo, não está ligada ao tamanho da pista de Congonhas?
Logicamente está ligada. Se você tem 3 km de pista é muito mais fácil parar o avião, não tenha dúvida. Mas todo mundo diz que Congonhas é pequeno. Não é. Nós temos um monte de pistas, no interior, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, que operam aviões desse porte sem nenhum incidente há muito tempo. E são menores ainda. Congonhas está tão sujeito a esse tipo de incidência primeiro porque a pista é nova, pouco rugosa, relativamente lisa. Segundo que é algo que já deveria ter sido alertado há muito tempo: a pressão psicológica que os pilotos sofrem para não arremeter. Eles se sentem pressionados pelo sistema.
Seria por uma questão logística? 'Não posso arremeter porque tem uma fila atrás de mim pra pousar'?
Exatamente. Congonhas tem uma pressão muito forte da parte logística, do controle de tráfego aéreo. O piloto pensa que, se arremeter, com os problemas de controle, teria que reposicionar... em Congonhas você tem slots para pousar. O que é isso? É um determinado intervalo de tempo para chegar ao aeroporto. Todo mundo está apertado, querendo chegar, e está um atrás do outro. Se você arremete, bagunça tudo. O controle não gosta, ninguém gosta. Ninguém vai falar isso, claro. Mas o piloto se sente pressionado a acertar da primeira vez. Então os pilotos hesitam em arremeter em Congonhas. E isso pode gerar esse tipo de problema. Uma arremetida tardia gera esse tipo de problema. A pista está acabando, você não tem mais tempo para parar, você já está quase voando, e a pista está acabando... você tira o avião do chão de qualquer jeito. E ele não tem velocidade para levantar vôo, cai. Como aconteceu.
É possível garantir à população, à sociedade, que descer ou sair de Congonhas é seguro?
É bastante seguro, mas medidas para aumentar ainda mais esse nível de segurança já deveriam ter sido tomadas há bastante tempo. As ranhuras são uma delas. A pista principal fica fechada de madrugada. Por que já não estavam ranhurando desde que começaram? O Metrô trabalha de madrugada... é expediente, é boa vontade. Vai trabalhando! Segunda coisa: por que os pilotos que operam em Congonhas não têm um treinamento específico? Quem opera no Santos Dumont (RJ) tem alguns procedimentos específicos. Porque é uma pista muito curta, só que você não vê acontecendo acidentes lá. Porque os pilotos têm um treinamento especial para aquela pista.
E além de curta, é uma pista muito próxima do mar...
Começa e acaba no mar. E os pilotos têm um treinamento específico para o Santos Dumont. Por que esse procedimento já não foi adotado pela Anac em Congonhas? Agora provavelmente vai adotar alguma coisa, mas já deveria ter sido. Por que a arremetida não é, não digo estimulada, mas não se tira a sanção, inclusive psicológica, da arremetida? Por que não se ensina aos pilotos que, se precisar, arremeta sem problemas. Por que não se diz: 'não tenha vergonha, não tenha medo de arremeter no caso de uma aproximação errada de Congonhas'? Ninguém vai punir, ninguém vai deixar vocês no ar mais tempo... O modelo de aviação brasileira se baseia em aviões novos. Nós nos orgulhamos de ter a frota mais nova, mas isso gera a conseqüência de ser superutilizados. O avião fica no chão e mal dá tempo de limpar. Você está saindo do avião, já chega a mocinha da limpeza, 'sai, sai, que eu preciso limpar'. Daqui a pouco vão colocar um saquinho de lixo para o passageiro, para que ele próprio limpe o avião. Então você imagina a cabeça de um piloto que sabe que o avião vai ficar no chão por pouco tempo e que, se ele arremeter, vai atrasar tudo isso. Essa é a pressão psicológica que sofre o piloto.
A relação entre o porte das aeronaves e o tamanho da pista de Congonhas o senhor acha que é uma discussão impertinente?
Não, é uma discussão procedente. Tudo tem margem de segurança. Na aviação, você nunca opera sem margem. Não é que se o piloto errar ele vai bater... não, não, não. Ele tem que errar muito para acontecer um acidente. É sempre uma associação de erros. Dificilmente é um erro só, raríssimas vezes. Então um avião grande tem uma margem de segurança menor, admite menos erros que um avião de peso menor. Uma outra coisa que a Anac deixou acontecer e toda a sociedade está deixando acontecer é que Congonhas é um hub (ponto de conexão) em São Paulo. Dele partem aviões para o Brasil inteiro. Tanto a Gol quanto a TAM fazem dele um ponto central. São Paulo, superlotado, virou um ponto de referência no Brasil. Se eu quero sair de Ribeirão Preto e ir para o Rio de Janeiro, eu não tenho vôo direto. E não vou passar em Viracopos, vou passar em Congonhas. Se eu estou saindo de São José do Rio Preto, a mesma coisa. Para qualquer lugar que eu vou e venha do Brasil, provavelmente eu vou passar em Congonhas como ponto de conexão. Por que escolheram um aeroporto desse como ponto de conexão? Por que a Anac deixou devagarinho isso acontecer? Por que não estimulou como ponto de conexão um aeroporto maior e menos utilizado, como Viracopos? Por que não estimula uma parceria público-privada de um trem bala para Campinas, que não beneficia só o aeroporto, mas toda a região? Por que esse tipo de medida não foi adotada há muito tempo? Onde está o governo federal que não enxerga esse tipo de problema? Isso revela a falta de planejamento da estrutura. Fatalidades vão ocorrer, sempre. Mas a função da sociedade é maximizar a segurança.
Aumenta a indignação saber que só depois do acidente da Gol vieram à tona as condições de trabalho dos controladores e que só depois desse acidente de ontem é que vai se falar sobre esses problemas de Congonhas... Enfim, sempre teremos de esperar uma tragédia para que se toque no assunto?
Uma das definições de inteligência é fazer sem errar. Errar para depois aprender não é inteligente. E existe gente, capacidade humana no Brasil, para realizar esse tipo de coisa. Mas parece que o governo federal está desprovido dessa capacidade. Não existe planejamento nem de longo prazo, nem de curto prazo. Não se discute isso. A Anac acabou virando um órgão político de baixíssima eficiência. Ela não representa mais nada. Ela deveria ser a agência que responde por tudo, mas todo mundo fala por ela. A Infraero, o comandante da FAB. Fala todo mundo, menos a coitada da Anac. Ela não tem condições nem de falar, quanto mais de gerir o sistema aéreo do Brasil. Isso é gravíssimo do ponto de vista federal. Criar uma agência com esse nível de autonomia e deixar que todos esses problemas aconteçam primeiro e depois aflorem dessa forma. O acidente da Gol aflorou uma parte e esse de ontem vai aflorar outra.
Terra Magazine
|
Renata Galvão/Terra
Mais um - No Brasil, providências só são pensadas depois de uma tragédia, diz professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da USP
|
» Protógenes: "Vou ser demitido da PF. E o bandido está solto"