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Sexta, 20 de julho de 2007, 08h07

Ariane Mnouchkine, um Leão de Ouro para uma leoa

Deolinda Vilhena

A notícia chega via Internet: "Em sua 39ª edição a Bienal de Veneza decidiu atribuir um Leão de Ouro especial à Ariane Mnouchkine pelo conjunto de sua obra."

Em comunicado oficial, a Bienal informava que a idéia de premiar Mnouchkine partiu de Maurizio Scaparro, diretor do Festival de Teatro da Bienal de Veneza, e foi aprovada pelo Conselho de Administração, presidido por Davide Croff. A cerimônia de entrega do Leão de Ouro acontecerá no sábado, 28 de julho, às 21h30 no mesmo Campo de San Trovaso que acolheu em 1975 as apresentações de L'âge d'or, um dos maiores sucessos do Théâtre du Soleil.

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Segundo Maurizio Scaparro, o prêmio "vem recompensar um percurso completamente excepcional na história do teatro europeu. O percurso de uma mulher apaixonada, engajada, sensível às injustiças e dores do seu tempo, persuadida que a arte é permeável ao mundo e mestra em inventar incessantemente novas relações com o público criando um verdadeiro curto-circuito entre o palco e a realidade sempre presente em seus espetáculos e na vida do Théâtre du Soleil".

O prêmio italiano não é uma surpresa. A Itália, por meio de Giorgio Strehler e de Paolo Rossi, foi um dos primeiros países a reconhecer a genialidade de Mnouchkine. Foi o Piccolo Teatro de Milão que promoveu a estréia mundial de 1789 - La révolution doit s¿arrêter à la perfection du bonheur, em novembro de 1970. Porque se hoje a França, por meio da sua ministra da Cultura, Christine Albanel, emite um comunicado dizendo que "o Leão de ouro 2007 vem prestar homenagem a uma aventura artística da qual a França tem a honra de ser o lar", em 1969 o país foi incapaz de dar condições ao Théâtre du Soleil de estrear em solo francês o espetáculo que revolucionaria a cena mundial a ponto de poder se dividir o teatro na segunda metade do século XX em antes e depois de 1789.

Anos depois, durante as filmagens de Molière, quando se viu sem dinheiro para finalizar o filme apesar da ajuda de Claude Lelouch e de Alexandre Mnouchkine, seu pai e grande produtor de cinema, foi novamente Paolo Rossi, dessa vez à frente da RAI, televisão italiana, quem completou o orçamento.

De lá para cá os laços se estreitaram. O Théâtre du Soleil foi convidado especial para as comemorações do centenário da Villa Borghese e a Universidade de Roma, no dia 16 de fevereiro de 2005, conferiu a Mnouchkine o título de Doutor honoris causa, com direito a Aula Magna na Faculdade de Letras e Filosofia, passando a perna na Sorbonne, universidade na qual Ariane estudou e criou, em 1959, o grupo de teatro que deu origem ao Théâtre du Soleil.

Lenda viva do teatro francês, Ariane Mnouchkine chega ao Brasil no dia 19 de setembro para sete apresentações, de 26 a 30 de setembro no festival Porto Alegre em cena, da sua mais recente criação Les éphémères, no momento o maior sucesso da 61ª. Edição do Festival de Avignon.

Mas quem é Ariane Mnouchkine? Num país onde a cada vez que falo em Théâtre du Soleil as pessoas pensam no Cirque du Soleil, decidi que era o momento certo de contar um pouco mais sobre essa mulher que por muitos é conhecida como "La Reine Soleil" (a Rainha Sol) numa alusão ao nome do seu teatro e a sua força, e logicamente, não fosse Ariane francesa, ao Rei Sol, Luis XIV.

Respeitada por uns, amada por muitos, odiada por alguns, a imprensa francesa costuma anunciar assim Mnouchkine: "Esta Dama de ferro será a França em Los Angeles", "Ariane Mnouchkine, Senhora embaixadora da França no exterior", "o foguete Ariane (numa alusão ao programa espacial francês) - leva as nossas cores com rigor e coragem", "a consagração de Ariane Mnouchkine nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, não foi procurada nem desejada, mas foi, de fato, a consagração do teatro francês".

Por vezes chamada de "ama de falanstério, rainha, leoa, ogra, pasionaria, patroa, sacerdotisa tenaz, feiticeira, dama de ferro, matrona ou dragoa". Alcunhas normalmente atribuídas por uma imprensa cujo objetivo primeiro é alimentar a sua necessidade incomensurável de celebridades e de individualidades expostas como fundos de comércio, necessidade à qual o coletivismo do Théâtre du Soleil não corresponde, mas nada disso leva o público a acreditar que o carisma ou a mão de ferro de Mnouchkine ultrapasse e asfixie sua obra criadora.

A verdade é que poucos artistas no mundo podem exibir um projeto artístico tão coerente quanto o desenvolvido por Ariane Mnouchkine, cuja trajetória foi construída a serviço de um projeto global, de uma ambição ao mesmo tempo artística e política: contar a história do nosso tempo. Partindo das teorias teatrais de Jean Vilar, de Bertolt Brecht, e também de Antonin Artaud - pela importância atribuída aos atores e pelas referências ao teatro oriental - Mnouchkine soube se impor graças a espetáculos cujos valores poéticos e culturais são indiscutíveis.

Criadora de um teatro "estilisticamente eclético e formalmente criativo" como disse Maria Delgado na apresentação de Mnouchkine no livro Diálogos no palco, Ariane tornou-se bastante conhecida pelo uso das técnicas e das tradições orientais, ela acredita que o ocidente inventou a dramaturgia mas o oriente descobriu a arte de representar, e diz que "quando você consegue unir a dimensão ocidental com a oriental, então você consegue o teatro que sempre almejou".

Nesse livro, Maria Delgado diz a Ariane: "Você é considerada a mais respeitada metteur en scène (diretora) do mundo". A esse comentário Ariane retruca com um simples "é mesmo?" E diz que na verdade ela é uma parteira. "Eu ajudo a dar à luz. A parteira não cria o bebê. Não cria a mulher e não é o marido. Mas se ela não estiver ali, o bebê corre sério perigo e pode não nascer. Acho que um bom diretor é isso. Vamos dizer que sou boa diretora quando não falho em sê-lo." Lembra ainda que odeia o realismo e o naturalismo, e que mesmo sem saber dizer o por quê, ela sabe que "isso não é teatro".

E de teatro Mnouchkine entende. No Théâtre du Soleil seus princípios fazem a lei. Ariane se recusa a montar um espetáculo que contrarie sua concepção de teatro e se declara "radical", o que ela define como uma fidelidade aos seus princípios, que determinam a inseparabilidade da estética e da ética. A este respeito, diz Mnouchkine, "alguém disse que 'a ética é a estética do interior' eu acho isso muito bonito. O meu caminho é procurar, precisamente, a estética de uma ética".

Muitas histórias existem, verdadeiras ou não, alimentadas pela lenda que se criou em torno da companhia. Numa entrevista concedida a Georges Banu na revista Alternatives théâtrales, Banu conta a Mnouchkine a história de uma pianista suiça que precisou se esforçar muito para ser aceita para trabalhar com o grande pianista Michel Angelo Benedetti. Ao ser recebida por ele na porta de sua casa, tudo em volta coberto de neve, ela se surpreendeu ao receber uma vassoura e o pedido de que limpasse o pátio da casa. E mais, isso aconteceu por três dias seguidos. Banu dizia reconhecer ali uma pedagogia um tanto quanto "oriental". Algo como: ser obrigado a se submeter à prova do concreto antes de aceder à arte concebida como exercício desprovido de qualquer compromisso no cotidiano.

Banu dizia já ter ouvido muitos atores do Théâtre du Soleil reclamarem da exigência de Mnouchkine na divisão de tarefas, e dizia que a grande pedagogia da trupe, sua pedagogia interna, parecia conter a marca desta passagem do concreto, do cotidiano, para o ato artístico.

Ariane não discorda. Mas lembra que no caso da história do pianista Michel Angelo Benedetti, o pátio que ele pedia para ser limpo era o seu próprio pátio, enquanto no Soleil, quando os atores ou as atrizes preparam o local, não é apenas o local deles, mas o do público. E se o público do Soleil vê Mnouchkine como uma rainha, isso é apenas a resposta dada por aqueles a quem ela elegeu como deus único.


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

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