
Deolinda Vilhena
Mnouchkine se diferencia de outros diretores nos detalhes do cuidado que ela tem para com o seu público. Coisa compreensível, pois só público legitima o trabalho de um artista. Ao contrário das teorias de alguns pretensiosos, teatro sem público não existe. Isso explica, em parte, porque o Théâtre du Soleil ultrapassa a marca da 150 apresentações na Cartoucherie de Vincennes, num país onde o excesso de ajuda governamental provoca criação demais e difusão de menos.Como bem lembrou em recente entrevista Christine Albanel, "os espectáculos das nossas instituições teatrais não são difundidos suficientemente: três representações em média para uma cena nacional, sete para um centro dramático nacional, 27 para um teatro nacional". Vale lembrar que, nestas condições, é impossível encontrar o seu público.
O sucesso de Mnouchkine vem do seu talento e da sua genialidade, obviamente. Mas seu toque de gênio se deu quando compreendeu que, para fazer o teatro que queria, precisava conquistar três coisas: encontrar parceiros que acreditassem na trupe como instrumento de trabalho, um espaço - e ela não se cansa de dizer que sem a Cartoucherie provavelmente o Soleil há muito teria desaparecido - e, por fim, o público.
Há 43 anos é ela que abre as portas de seu teatro, fazendo questão de lembrar aos membros da companhia que há pessoas atrás desta porta, que pagaram, e que esperam para entrar, que esperam para ver teatro. Se não há dentro deste teatro, atrás desta porta, muito amor, muita devoção, muito engajamento, muita doação de si mesmo para provocar um momento extraordinário de gozo coletivo - gozo para o público, gozo para os atores -, se não há nada disso, então entra-se num teatro como se entra num prédio do INSS, ou de qualquer outra repartição pública.
Em Avignon, onde se encontra neste momento, ela disse em entrevista ao jornal La Croix que "para ela o que conta é o encontro com o público do Festival, um público que vem aqui para participar do banquete do teatro, que tem fome de cultura, espiritualidade, de beleza. Certos espectadores passam a metade de suas férias em Avignon por esta única razão. É para eles que estamos lá".
Para lhes oferecer este "teatro popular" que ele reivindica de forma absoluta recordando que Barthes o "definia como o que confia no homem" sem esquecer de citar a célebre fórmula de Antoine Vitez: "Um teatro elitista para todos". Para ela só assim é válido, e para que assim seja, ela busca eternamente a perfeição, a pesquisa constante, a excelência, até na acolhida do público.
Respeito que se reflete na bilheteria. Ela mesmo diz: "O público vem porque ele sabe que eu o amo". Apenas dois ou três espetáculos de Mnouchkine - dos 26 criados por ela - não se transformaram em fenômeno de público, mas, desde o começo dos anos 80, ela se viu obrigada pela companhia de telefone francesa a instalar uma secretária eletrônica no serviço de locação. Contra a sua vontade. Mas o Théâtre du Soleil recebia cerca de 75 mil ligações por mês mais do que muitas emissoras de rádio e de televisão, e congestionavam os circuitos.
Respeito presente no dia a dia da companhia. Numa entrevista a Fabienne Pascaud no livro L¿art du présent, Mnouchkine relembra o caso de uma senhora que chegou para uma matinê de domingo, acompanhada da filha, perguntou se ainda havia lugares e qual o preço dos ingressos. Na bilheteria observaram logo que eram pessoas de poucos recursos - Ariane costuma dizer que todo bom bilheteiro deve ter um quê de psicólogo - e oferecem o ingresso mais barato. Mesmo assim, ao conferir no seu porta-moedas, o dinheiro não era suficiente. A senhora olha então para a filha e pergunta: "então, gastamos o dinheiro da cantina?" (na França as crianças comem na escola e paga-se entre 0,15 e 2,50 euros por refeição, de acordo com a renda familiar). Evidentemente, ela teve os ingresso de graça.
Mas Ariane diz que, a cada vez que pensa nessa frase, tem vontade de chorar por causa da solidão e da fragilidade desta mulher e de sua pequena filha. Pensa que a frase dita é "quase uma frase século XIX". E pergunta: "Será que existem ainda muitas pessoas capazes de gastar o dinheiro da cantina para ir ao teatro? E porque, no século XX, há ainda cidadãos franceses obrigados escolher entre a cantina e o teatro?". A um jornalista que perguntou porque o teatro era importante numa sociedade como a nossa, Ariane respondeu: "É importante porque é um lugar de palavra, de pensamento, a alma da história... O teatro permanece um lugar onde se aprende, onde se tenta compreender, onde se é tocado, onde se encontra o outro - onde se é o outro".
Essas poucas palavras resumem a fé de Ariane na função que deve ter o teatro hoje. Como Vilar antes de ela, como Jouvet, como Dullin, como Vitez também, Mnouchkine integra o seleto clube de figuras, extremamente raras na paisagem teatral, cuja prática do teatro é vinculada não somente a uma estética forte, mas mais ainda a um profundo compromisso social.
Foi assim que ao longo dos anos interveio publicamente em certas ações, não hesitando em denunciar e reclamar ações rápidas dos governos, fosse pela liberação dos artistas vítimas das ditaduras na América Latina ou das vítimas dos regimes comunistas nos países do Leste, abrigando 340 sem documentos por dois meses ou fazendo greve de fome pelo fim da limpeza étnica na Bósnia Herzegovina.
Em 2002, fiel à tradição, Mnouchkine acolheu as crianças da companhia de dança Daymokh para apresentações no Théâtre du Soleil. Vinte e oito meninos e meninas, com idades de seis a quinze anos, quatro músicos, um coreógrafo, interprétes das danças chechenas. Durante três semanas eles foram hóspedes da Cartoucherie.
Mnouchkine e todos os membros da trupe não mediram esforços para cobri-los de roupas, de sapatos, de presentes, como é natural nessa terra de generosidade que eles criaram na Cartoucherie. Acompanhadas de algumas mães, essas crianças viveram por alguns dias uma vida normal com direito a passeios pelo Sena, visitas a Torre Eiffel, museus e encontros com estrelas engajadas na luta pela liberdade da Chechênia, como Jane Birkin. Nem as doenças de criança, tipo catapora, e pequenos machucados e tombos de bicicleta estragaram a alegria. Foram dias de sonho em Paris graças a esses "malucos de carteirinha" que integram essa trupe, e posso dizer a vocês que as mais belas mesas de comida e os melhores doces servidos no Soleil eu vi oferecidos a essas crianças. Além, é claro, da receita integral da bilheteria mais as doações recebidas, que foram integralmente repassadas às crianças.
Em 2005, após o tsunami, uma noite foi organizada para arrecadar fundos para comprar barcos para os pescadores do Sri Lanka. Com a renda da noite foi possível comprar ¿ e entregar ¿ dez barcos. Nesse mesmo ano ela aceitou o convite para dar um estágio de teatro em Cabul, no Afeganistão. Lá nasceu o Teatro Aftab, ou o pequeno Soleil da Ásia menor... Não contente com o fato de ter ido, prometeu aos jovens que os levaria para uma temporada na Cartoucherie. Sem dinheiro suficiente em caixa para trazê-los mas querendo honrar a promessa feita, recorreu ao seu público fiel e conseguiu reunir o dinheiro necessário para o estágio prometido.
Quis o destino que esses jovens nascidos em meio as infinitas guerras afegãs chegassem ao Soleil em meio a uma sessão, a penúltima, de Le dernier caravansérail. Eles entraram na sala de espetáculos discretamente, no momento exato em que, em cena, bombas explodiam em Cabul, afinal o espetáculo nada mais era do que um relato da situação dos refugiados do mundo. Foi de arrepiar. Apenas mais um dos incontáveis momentos marcantes que vivi ao lado do Théâtre du Soleil.
Mnouchkine é especial com todos os que passam por lá. E, vale lembrar que muitos dos grandes desse mundo passam pela Cartoucherie. Por lá passaram reis, como Norodom Sihanouk do Camboja, presidentes como François Mitterand, ex-presos políticos como Vaclav Havel e Wei Jingsheng, o mais conhecido dissidente chinês, que após vinte anos passados nas prisões chinesas, de passagem por Paris pediu para visitar Mnouchkine e agradecer o apoio dela recebido e, o mais importante, o público que ultrapassa três milhões de pessoas e que ao longo dos anos nunca deixou de aplaudi-la ou reverenciá-la.
Por essas e outras, confesso que estou em contagem regressiva. Sonho com a noite do dia 26 de setembro, quando 600 brasileiros vão poder descobrir o por quê dessa companhia ser tão próxima do seu público e tão diferente de outras, vão sentir a capacidade siderante de gerar emoção, e espero que não seja preciso fazer apelo a um médico ou a um enfermeiro presente, coisa que acontece com bastante freqüência, para socorrer aqueles que desmaiam consumidos pela beleza e/ou pela emoção. Por vezes, como vi em Quimper, na Bretanha, em 2004, é preciso recorrer à própria Ariane Mnouchkine para vir consolar uma jovem mulher em lágrimas.
Quando o Théâtre du Soleil chegar para instalar seu bar, sua cozinha, sua livraria, seu teatro, o hangar aparentemente sem alma da periferia de Porto Alegre será reconstituido e impregnado da atmosfera calorosa da Cartoucherie de Vincennes.
Torço para que os brasileiros sejam capazes de perceber o trabalho árduo que existe atrás dessas muitas horas de espetáculo. Mnouchkine, mesmo reconhecendo o quão pesado e quanto de suor exige esse trabalho, sabe que ele é indispensável, afinal, o público, desde a sua entrada, precisa ter a sensação de entrar no reino do teatro, no tal "palácio das maravilhas" que evocava Meyerhold. Como ninguém, ela sabe que o público que vai ver os espetáculos do Théâtre du Soleil traz com ele uma expectativa, uma esperança e para ela nada no mundo poderia ser pior do que decepcioná-lo.
Digo sempre que pode-se gostar ou não do trabalho de Ariane Mnouchkine, mas só ignorantes e/ou pretensiosos podem ignorá-la. Acreditem, ela é sim a maior diretora em atividade no mundo. E dentro de exatamente dois meses, ainda que com quatro décadas de atraso, o Brasil receberá um espetáculo assinado por ela. Os italianos, talvez por serem vizinhos, ou mais espertos, viram antes e viram muitas vezes. Aliás, esse Leão de Ouro concedido a Ariane acabou de vez com a minha implicância com os italianos...
Terra Magazine