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Sábado, 21 de julho de 2007, 07h42

Resenha: A Dama Morcega

Roberto de Sousa Causo

A Dama-Morcega: Narrativas de Terror Fantástico, Giulia Moon. São Paulo: Landy Editora, 2006, 158 páginas. Capa de Camila Mesquita.

As escritoras Martha Argel e Giulia Moon foram escolhidas as Personalidades do Ano de 2006, no campo da FC, fantasia e horror no Brasil. O livro de Argel lançado em 2006, O Livro dos Contos Enfeitiçados (Landy), foi resenhado aqui em 4 de novembro de 2006 (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1228856-EI6622,00.html). Agora é a vez desta coletânea com onze histórias de Giulia Moon, que teve a honra adicional de ser prefaceada por R. F. Lucchetti, roteirista dos conhecidos José Mojica "Zé do Caixão" Marins e Ivan Cardoso.

Lucchetti é o decano dos escritores pulp brasileiros, e na introdução ele lamenta a "falta de interesse dos nossos homens de letras por um gênero que em outras terras servira de tema para inúmeros escritores de talento", e elogia o livro de Giulia Moon como sua variedade temática: "Uma coleção de histórias das mais variadas nuances que o gênero oferece: desde o terror explícito à fantasia e ao humor negro."

O livro abre com uma história de lobisomem de abordagem incomum. Quem narra é uma fêmea da "espécie", que assume forma humana (mais vulnerável?) "durante alguns dias do mês, como a menstruação feminina". É o contrário do mito - aqui o lobo vira humano na lua cheia.

Num desses episódios, ela se apaixona por um homem, que mais tarde é forçada a abandonar para reencontrar anos depois. O lobisomem aqui é meio vampiro - não envelhece nem na proporção rápida do lobo, nem na mais lenta do homem, parecendo ser imortal. A ambientação é rural (onde a lenda do homem-lobo deve ter mais vigência do que num contexto urbano), mas não se sabe se no passado ou em outro país. O que torna o conto notável é a atmosfera e a delicadeza de uma subjetividade feminina que se manifesta pelo reflexo daquilo que nos atinge como horror. (Basta dizer que está dentro do lado lobo da psicologia da protagonista, e que, paradoxalmente, surpreende e comove apesar do tabu que evoca.)

O conto seguinte, "Júnior e o seu Gnuko", é história de humor negro e uma das muitas no livro que observam a infância de meninos levados. Júnior tem um amigo imaginário que, logo se estabelece, é um demônio fedorento. O que encanta num primeiro momento e a dinâmica entre os dois, com Júnior controlando o monstro por meio de uma fala firme de pseudomaturidade. Mas quando ele o leva à escola, causando polvorosa, o conto assume um tom farsesco que diminui o interesse.

"O Vampiro e a Donzela" entra num dos veios principais da autora, o horror sobre vampiros. Tem nível semelhante ao de "Luna Errante", a história de lobisomem, pela atmosfera cuidadosamente construída e a expressão de um traço distorcido de feminilidade. A heroína foi transformada em vampiro antes de perder a virgindade. Passa a viver numa espécie de limbo emocional - como se fosse violentada, conhece a perversão mas não o amor. Madura, envolve-se com um mortal casado, cujo relacionamento ela parece idealizar na mesma proporção que ela mesma (e o leitor) rejeita o seu lado monstruoso. Claro, há ilusões - apropriadamente adolescentes - a serem destruídas, sob essa idealização, mas a solução de esperança final vem com surpresa, a partir de um ângulo inesperado. Uma outra faceta de sua feminilidade surge para redimi-la, e que se a solução não for inédita dentro da mitologia do vampiro, ela certamente subverte o mito consagrado, e sublinha, de modo tocante, a discussão do feminino que o conto comporta.

Outra olhadela na infância masculina está em "Perdido!", uma história de fantasmas com final surpresa. O ímpeto da autora para chegar a ele prejudica um pouco o ritmo da leitura.

Adoro gatos, e o conto "O Paraíso" veio de encomenda. Quem narra é um bichano que adora a sua cozinha e que intervém quando sua dona é atacada por um estuprador. A história é plenamente satisfatória exceto por dois pontos - se há um ser que entende a fera dentro dele, esse ser é o gato, e dificilmente ele iria se referir à violência do homem, da mulher e dele mesmo em termos de um "monstro interior"; segundo, Giulia Moon perdeu aqui uma ótima oportunidade de dar à narrativa uma dicção diferente da predominante na maioria das histórias. Há ainda um elemento sobrenatural que não cabe mencionar.

Na entrevista com as Personalidades do Ano no Anuário 2006, a autora diz que não gosta tanto de H. P. Lovecraft quanto de outros autores de horror, mas isso não a impediu de incluir uma homenagem ao autor de weird fiction dos anos 1930, em "O Ser Obscuro", um conto que talvez precisasse ser mais longo para alcançar uma efetividade maior.

"O Herói e o Diabrete" é uma fantasia heróica subversiva, quer dizer, ela desconstrói as relações costumeiras desse subgênero da fantasia, a começar pelo humor e pela relação do Herói (que narra a história) e com o seu sidekick, um capetinha. Apelando à sua espada mágica (encarnação de uma bela mulher) para destruir o dragão em que se transforma a maligna Fada Sinéria (episódio que lembra o desenho animado A Espada Era a Lei, baseado no romance de T. H. White), Herói cumpre a missão mas paga um preço. Assim como se recusa a lhe dar individualidade, nomeando-o, a autora não dá qualquer superioridade moral ao exercício de masculinidade presente na luta contra o dragão feminino. Ao contrário, herói e vilã terminam juntos numa outra dimensão, embora ironicamente ele ainda se apegue ao estereótipo de uma princípio masculino que se afirma pela luta e pela conquista.

"Perigosa Ilusão" tem como protagonista a vampira Maya, uma brasileira em Nova York, heroína de outras histórias da autora. Num conto com boa ambientação, trata de como ela ataca uma vítima em particular, para realizar uma fantasia com um homem que lhe é inacessível. Achei a história de final obscuro, enigmático demais apesar da prosa ser clara e objetiva. Talvez ela se realize melhor junto a leitores familiarizados com outras aventuras da personagem.

Monstros que têm maldade ou o grotesco como estilo de vida - tipo as séries Família Adams e Os Monstros - aparecem em "A Tia Madrinha", que tenta firmar imagens chocantes contra um fundo de humor leve. Mais um garoto aparece nesse conto.

A melhor história do livro deve seja aquela que lhe dá título, uma noveleta ambientada na São Paulo de 1904 - premissa superinteressante que implora por mais cor local, que pinta apenas ocasionalmente. Moon, aliás, constrói bem atmosferas, mas explora pouco as ambientações. Mais atenção a esse aspecto poderia melhorar o efeito geral dos seus contos.

Num circo de aberrações encontra-se Agnes, "A Dama-Morcega", vampira capturada pelo violento dono do circo, o imigrante italiano Schiavo. O sádico Schiavo faz uma apresentação especial ao médico Olavo. O médico se torna obcecado pelo mistério científico representado pela vampira. Mais tarde, fica com Agnes, com a qual realiza vários experimentos, chegando a ponto de caçar seres humanos para alimentá-la.

A certa altura entra em cena um amigo pessoal do médico, um tal José Bento Monteiro Lobato, que vai conduzir a narrativa a partir de um certo ponto. Moon captura a fala sem cerimônia de Lobato, a quem a noveleta é dedicada - ao lado de Júlia Pastrana, "a primeira e a mais famosa mulher-gorila. Por ter seu corpo coberto de pêlos, foi exibida em apresentações circenses pela Europa e América, até mesmo após a sua morte, em meados do século 19."

Sem fugir totalmente da mitologia cinematográfica do vampiro (a estaca e a água benta estão lá), Moon consegue um tratamento original, ao descrever os resultados dos experimentos do Dr. Olavo sobre o corpo de Agnes - que emerge da narrativa com uma dimensão inquietante, mais anjo da morte do que aberração monstruosa, como se representasse uma feminilidade que escapa à atenção pervertida que é dirigida a ela pelos homens mesquinhos que a rodeiam.

Gosto do subtexto feminista de Giulia Moon, nos contos de A Dama-Morcega, como gosto do peso dos sentidos na textura da narrativa (o olfato é o mais proeminente) e também da sua espirituosidade, da coisa meio moleque que exsuda de seus contos.

Esse espírito marca presença no último conto, o curto "Pé-de-Moleque em Dezembro", que também traz à tona uma outra preocupação da autora que me agrada - a vontade de retrabalhar e subverter mitologias e práticas literárias, dando-lhes novas formas e trazendo pela traquinagem de um Saci-Pererê algo mais da cultura brasileira ao foco de suas atenções.

Não é pouca coisa, e me parece que em Giulia Moon há alguns pontos focais interessantes sobre a condição feminina e as convenções da literatura de gênero em sua interação com a cultura brasileira. Espero que ela encontre projetos mais ambiciosos no futuro, de mais fôlego e complexidade, que continuem a dar forma e profundidade a essas explorações.

O site da autora está em http://www.giuliamoon.com.br/


Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte. "A coluna de Roberto de Sousa Causo no Terra Magazine é a melhor referência que o gênero tem atualmente no país." - Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br
 
Reprodução
A Dama Morcega, edição da Landy

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