
Maria Falcão
Desde a implantação do SAMU/192 - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, em 2003, ver as ambulâncias vermelhas e brancas nas ruas das maiores cidades do país virou rotina. Foi um ganho, sem dúvida alguma, para a assistência à saúde da população, ainda que haja muitas críticas, tanto de pacientes quanto de médicos, em relação à organização e ao serviço prestado pelas unidades. Mas dentre as queixas mais freqüentes, esta feita pelos profissionais de saúde, está a de que a população solicita o atendimento do SAMU indevidamente, para casos que deveriam ser tratados diretamente nos postos de saúde e hospitais, como diarréia, por exemplo. Essa queixa implica na demora para atender a algumas demandas, que por sua vez é uma reclamação constante dos pacientes, já que o número de unidades e ambulâncias disponíveis não consegue dar conta de todos os chamados.Para esclarecer algumas dessas dúvidas, Terra Magazine conversou com a médica Milena Ramos, que é intervencionista do SAMU em Salvador.
Terra Magazine - O que é o SAMU/192?
Milena Ramos - É um serviço de saúde responsável pela regulação e atendimento móvel dos atendimentos de urgência, e pelas transferências de pacientes graves na região onde atua.
Quando se deve acionar o SAMU e quando acionar o Corpo de Bombeiros, diante de um acidente, por exemplo?
O Corpo de Bombeiros é um serviço de resgate, onde não há atendimento voltado diretamente para a área de saúde. Na verdade, esses serviços (SAMU e Corpo de Bombeiros) se complementam. Por exemplo, quando acontece um acidente de carro, com vítimas presas em ferragens, os bombeiros são acionados para fazer o desencarceramento das vítimas, com equipamentos apropriados, e a equipe do SAMU faz o atendimento médico. Os bombeiros também são muito importantes para identificar as áreas de risco, durante um resgate.
Uma queixa bastante comum entre os profissionais de saúde que atuam nas unidades do SAMU é o alto número de chamadas indevidas. O que podemos caracterizar como chamada indevida?
Chamadas indevidas são aquelas feitas quando não há risco de morte para o paciente. Por exemplo: dor de dente, dor de garganta, resfriado, diarréia e efeitos do álcool. Mas, claro, cada caso é um caso e deve ser cuidadosamente avaliado pelo médico regulador (o médico regulador é aquele que faz o atendimento pelo telefone e avalia a necessidade ou não do envio da unidade móvel para o local).
As situações onde o auxílio do SAMU é geralmente indispensável, e que constam na página do Ministério da Saúde, são:
- Na ocorrência de problemas cardio-respiratórios
- Em casos de Intoxicação exógena
- Em caso de queimaduras graves
- Na ocorrência de maus tratos
- Em trabalhos de parto onde haja risco de morte da mãe ou do feto
- Em casos de tentativas de suicídio
- Em crises hipertensivas
- Quando houver acidentes/trauma com vítimas
- Em casos de afogamentos
- Em casos de choque elétrico
- Em acidentes com produtos perigosos
- Na transferência inter-hospitalar de doentes com risco de morte
Que tipo de problemas são geralmente enfrentados durante os atendimentos realizados pelo SAMU?
São vários. A questão social é um deles. Às vezes somos acionados para resolver problemas sociais, como por exemplo, remover moradores de rua. Outros problemas freqüentes são a falta de informação da população sobre o serviço e a falta de segurança da equipe em atendimentos relacionados à violência (lesão por arma de fogo ou por arma branca), em que muitas vezes o agressor persiste no local. A "comoção social" das pessoas nos locais de atendimento também merece ser citado já que, por vezes, prejudica o atendimento ao paciente.
O que mudou no atendimento de emergência desde a implantação desse serviço?
Hoje há uma facilidade maior, principalmente para a população mais carente, no que diz respeito ao acesso às unidades de emergência. Muitos pacientes faleciam em suas residências, devido à dificuldade de deslocamento até o hospital. Agora, esses pacientes recebem o primeiro atendimento no local onde estiverem, são estabilizados e depois removidos para uma unidade hospitalar. Outro benefício importante foi para os casos de traumas e acidentes, onde precisamos correr contra o tempo para salvar a vida do paciente. O atendimento iniciado no local, muitas vezes, é determinante para a vida.
Na sua opinião, quais os atributos indispensáveis a um médico que trabalha com as emergências médicas atendidas pelo SAMU?
Um treinamento voltado para emergência é fundamental. Existem cursos para isso, como o de Suporte Avançado de Vida no Trauma (ATLS) e em Cardiologia (ACLS). É importante também a experiência em resgate e atendimento pré-hospitalar (APH), pois é preciso, além da parte técnica, um grande equilíbrio emocional por parte de toda a equipe, para saber lidar com as adversidades desse tipo de atendimento.
Terra Magazine
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Valter Campanato/Agência Brasil
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