Terra Magazine

 

Sábado, 28 de julho de 2007, 11h39 Atualizada às 08h18

'MST, não!', diz Alencar Burti

Raphael Prado

O presidente da Associação Comercial de São Paulo, Alencar Burti, repete o discurso do empresário João Doria Jr., do presidente da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, Luiz Flávio Borges D'Urso, e do diretor do Comitê de Jovens Empreendedores da Fiesp, Ronaldo Koloszuk, sobre o protesto "Cansei". É "apolítico".

Lançado por alguns setores da sociedade, o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros quer "parar" o Brasil com 1 minuto de silêncio. Será no dia 17 de agosto, em frente ao prédio da TAM Express, onde aconteceu o acidente aéreo que matou cerca de 200 pessoas. Eles vão contar com espaço gratuito em TVs (leia aqui).

Leia também:
» João Dória Jr. nega motivação política no 'Cansei'
» Empresários lançam movimento 'Cansei' contra crise
» Protesto não visa governo, diz diretor da Abril
» Veja galeria com fotos da campanha

A idéia, segundo Burti, que é um dos organizadores e participantes, é mobilizar a sociedade civil para lutar por seus direitos. Cada cidadão, segundo ele, pode e deve participar. Ele clama:

- ...pelo amor de Deus, participem.

Se é um movimento apolítico, que defende o direito de todos os cidadãos de se indignarem, independente da vertente ou ideologia, os movimentos sociais foram convidados a participar? Questionado se o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, por exemplo, poderia se juntar à Associação Comercial e à OAB para protestar, Burti titubeia:

- Não... é... o... não é... quer dizer... esse movimento não tem nada que ver com a Associação Comercial. Apenas a Associação Comercial dispõe de um contingente que pode... (enfático)MST não! (volta ao tom normal) Porque o MST é... o MST nasceu em razão de alguma coisa.

O presidente da Associação Comercial também desvincula a entidade que preside do "Cansei". Diz que está participando ele, Alencar Burti, como cidadão. Uma visita ao site da Associação, no entanto, mostra que ela está muito mais ligada ao movimento do que o presidente afirma (foto abaixo).

Leia a íntegra da entrevista de Alencar Burti a Terra Magazine:

Terra Magazine - Como se deu a articulação desse movimento? Como a Associação Comercial ficou sabendo e começou a participar?
Alencar Burti - A idéia partiu de um membro do Lide, o Grupo de Lideranças Empresariais que o Doria tem. E alguém deu uma sugestão pra ele pra fazer esse movimento. Aí ele abraçou, e convidou o D'Urso (presidente da OAB-SP) e convidou a mim. E quando nós vimos o propósito... embora tenha gente vinculando à política, não tem nada. Se tiver política, eu to fora. Eu não sou político, não sou filiado a nenhum partido, respeito muito, acho que não há país que possa viver sem política. Mas isso é que nem religião, quem tem vocação faz. Quem não tem não pode se meter, senão faz errado. Então não tem nenhuma conotação política, ideológica ou religiosa, de nenhuma espécie. Não é contra ninguém, é apenas um movimento que desperta a sociedade. No fim, todo mundo tem uma tristeza que pode se definir por indignação, cansaço... mas essa sociedade está desorganizada, desorientada. O meu objetivo pessoal é que cada cidadão entenda que ele tem uma parcela de culpa nesse processo. Se ele ficar omisso ou não se organizar, se demonstrar às autoridades que nós colocamos lá... é como seu filho amanhã fazer qualquer coisa e você querer culpá-lo. Você tem que assumir que teve uma parcela de culpa no que aconteceu. Cada um precisa sentir que ele é parte da coisa. E se ele não está satisfeito, se ele errou em colocar alguém ou a sua atitude não condiz com o que está ocorrendo, que ele tome um posicionamento, reaja e demonstre. Agora, não adianta ficar falando mal. O objetivo fulcral desse movimento é a conscientização do que é ser cidadão. Não implica só críticas, mas responsabilidades.

É um movimento cívico, como o próprio João Doria Jr. tem dito?
Exatamente. Eu falei um tempão e você resumiu em uma frase. É um movimento cívico. E ingressar no civismo é assumir responsabilidades também. A vida é um ato de responsabilidade. Seu pai e sua mãe te deram a vida de presente e você é responsável por ela. Não adianta transferir para o seu pai ou a sua mãe nada.

Entendi. Mas se é um movimento cívico, que todos os cidadãos têm o direito de participar, foram convidados também movimentos sociais?
Está aberto. Se você entrar no site, quem quiser participar, pelo amor de Deus, participe. Faça críticas também. O que ele pode sugerir, como ele pode contribuir.

Então se o MST (Movimento dos Sem-Terra) quiser se associar à OAB e à Associação Comercial para dizer "Cansei", ele está convidado?
Não... é... o... não é... quer dizer... esse movimento não tem nada que ver com a Associação Comercial. Apenas a Associação Comercial dispõe de um contingente que pode... (enfático) MST não! Porque o MST é... o MST nasceu em razão de alguma coisa. E não é de hoje. Por isso que eu estou dizendo... não tem nada que ver com o atual governo. O MST não nasceu em razão do PT. Ele é anterior.

Sim, mas se o movimento é apolítico, o MST não pode dizer "Cansei da morosidade da reforma agrária" e aderir ao movimento?
Mas... o... eu... você... você... você convive com agricultores? Você entrevista agricultores? Eles estão felizes? Você está feliz se entrar na sua casa um sem teto...? MST cabe sem-terra e sem-teto. Se entrarem na tua casa e invadirem sob o escopo de que eles não têm, você... está certo? Está certo isso? Vocês querem levar... eu não quero discutir isso. Não sou político, não quero que envolvam política. Se o MST quiser participar individualmente, como eu estou fazendo... eu não estou levando a minha entidade, é o Alencar Burti que está lá, não é a Associação Comercial. Está no cerne dela defender a cidadania, defender direitos. Eu estou apenas reivindicando que os nossos direitos de cidadão não sejam esquecidos e nem violados. Se você não sente assim, eu não posso fazer nada...

Não, é só uma dúvida minha.
Hoje nós estamos num estado de coisas que a política em tudo quer se envolver. Então o cidadão não existe, querido. Isso é que eu quero que vocês entendam, e está difícil. Se continuar essa conotação... por isso que até o dia 17, se não houver essa consciência individual, eu tô fora.

Uma última pergunta pra fugir dessa ligação que está sendo feita do movimento com a política...
É claro. Porque sempre vai ter. Por isso que eu estou dizendo... eu não gosto de política mas eu não posso viver sem. Você pode viver sem uma organização, na cidade, uma estrutura burocrática. Eu sou contra a burocracia, mas ela precisa ser razoável. É preciso dar aos cidadãos o retorno do que você paga. É esse o questionamento. Dizem que é a maior carga tributária do mundo, parece que agora é a segunda, mas você não tem nada. Você não tem segurança, não tem isso, não tem aquilo. Entra numa fila do SUS para você ver o que é. Por que que não tá saindo? Agora não adianta eu acusar os outros. Eu tenho uma parcela de responsabilidade. Eu sou um crítico permanente? Não. Então é isso que você, eu, seu irmão, seu filho, têm que participar para, numa tentativa, tentar alterar.

Esse minuto de silêncio que vai ser feito no dia 17 não vai ficar sem muito sentido se a investigação comprovar que foi uma falha mecânica que provocou o acidente com o avião?
Você viu os cartazes. O movimento é mais abrangente. Porque pode ter sido um acidente. O que não dá para entender é que de outro fato que houve 10 meses atrás, de todos os processos que estão havendo, nós, sociedade, não temos solução pra nada. Então, se nós não nos organizarmos. Você que tem informação de todos os lugares e segmentos: por que o crime está prevalecendo hoje e comanda em seus vários aspectos? Por que a China está se valendo da falha dos outros regimes e usando contrabando, pirataria e tal para ter esse crescimento que tem? É porque as outras sociedades não estão organizadas. Então nós temos que buscar um tipo de organização que represente uma auditoria sobre aqueles que nós escolhemos. E isso não tem nada a ver com o PT, o PSDB... é o que virá. Só que eu não sei quem virá amanhã. Pode ser o PT, o PSDB... e a herança que nós temos hoje não é culpa dos políticos atuais. É culpa de uma não-participação de uma forma organizada da sociedade. E os políticos não dão satisfação. Você elege um cara e ele muda de partido. A pessoa diz que vai fazer uma coisa e, quando vira, faz outra. E você não tem elementos, como cidadão... só uma sociedade que pode se organizar... Então, eu quero buscar que nos tragam algum meio de nós nos organizarmos. Que nós sejamos, como cidadãos, respeitados. Não queremos ter comando, queremos respeito apenas. Como nós devemos respeitar as nossas celebridades.

 
Reprodução
O presidente da Associação Comercial de São Paulo diz que está participando do 'Cansei' como cidadão, não como entidade

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol