
Luiz Gonzaga Belluzzo
Em 2002, as eleições presidenciais foram realizadas sob um clima de terror especulativo. Os mercados e seus porta-vozes projetaram cenários apavorantes para os quatro anos de governo Lula. O risco Brasil foi a 2.400 pontos base, descolou da pontuação dos outros emergentes. A transição, para surpresa de muitos e decepção de outros, foi feita sem maiores sobressaltos.Já em 2003, no início do mandato presidencial, a economia mundial apresentava forte aceleração, puxada pelos Estados Unidos e pela China. A partir de então, a abundante liquidez financeira e o crescimento vigoroso do comércio mundial promoveriam uma formidável mudança no balanço de pagamentos brasileiro. Todos os indicadores de vulnerabilidade externa melhoraram sensivelmente nos últimos quatro anos: a relação dívida exportações caiu de 3 para pouco mais de 1, as reservas alcançaram mais de 150 bilhões de dólares, o suficiente para financiar mais um ano de importação. As exportações brasileiras cresceram de forma impressionante: caminharam dos US$ 55 bilhões de 2000 para alcançar dos US$ 140 bilhões 2006. O saldo comercial alcançou mais de 44 bilhões de dólares em 2006 e a conta corrente é superavitária.
Isto foi proporcionado por uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável. Ainda assim, o Brasil continuou a perder posições na disputa global pela geração de empregos e de valor adicionado na indústria manufatureira. Ficou para trás na corrida pelo crescimento do PIB entre os países em desenvolvimento.
Desde a década dos 80, depois da crise da dívida externa, o Brasil não reencontrou a rota do crescimento. Os equívocos de política econômica, cometidos nos anos 90 - depois da queda da inflação - não ajudaram a estancar a inclinação ao baixo desempenho. Os otimistas argumentam que o país preservou uma fração importante do aparato industrial e, sobretudo, valeu-se do dinamismo do agronegócio que respondeu muito rapidamente às transformações ocorridas na divisão internacional do trabalho. A ascensão econômica da China e dos asiáticos em geral, com dotações de recursos naturais diferentes da nossa, mudou a configuração do comércio internacional. Os termos de troca entre produtos primários e bens manufaturados movem-se a favor dos países com disponibilidade e diversidade de recursos naturais. Etanol, eta nóis!
Nesse ambiente benfazejo, o governo Lula repetiu os enganos dos anos 90, mantendo a taxa de juros e o câmbio fora do lugar. Até agora, vivemos as benesses de uma situação em que o câmbio valorizado é compensado por preços generosos formados num mercado mundial superaquecido e especulado. Não há dúvida de que a taxa de câmbio real valorizada e a inflação baixa daí decorrente melhoram o "bem estar" da população, tanto dos pobres empregados ou beneficiados por políticas sociais eficientes, quanto os ricos de todo o gênero, para não falar dos remediados, que passam a fruir os benefícios materiais e, espero, culturais, de viagens e cursos baratos no estrangeiro. Tal sensação os brasileiros já experimentaram na era do professor Cardoso. In illo tempore, no entanto, os déficits em transações correntes foram às alturas, com as benções dos sábios da Casa das Garças.
A sensação de bem-estar é ainda mais intensa agora: a valorização é acompanhada por uma situação benigna das contas externas e por um crescimento mais rápido da demanda doméstica e do emprego, graças à expansão do crédito movida pela ampliação dos prazos. Há confiança. Os investidores aumentam as posições vendidas na moeda americana e tratam de "comprar" reais. A política monetária e seus efeitos cambiais foram a píece de resistence da gestão econômica do governo Lula. Nas condições descritas acima, a moeda brasileira e seu juro básico formam um par atraente para os promotores da sarabanda global. São os queridinhos do mercado. Assim me confidenciou, outro dia, um investidor internacional de alta patente.
Em entrevista à Folha de S.Paulo de domingo 29 - na contramão dos indulgentes comentários dos analistas do mercado financeiro - o economista Charles Calomiris adverte para os riscos envolvidos no "ajustamento" de preços dos ativos ora em curso nos Estados Unidos. Com certeira crueldade intelectual, Paul Krugman escreveu no New York Times que os especialistas das finanças, daqui e de outras partes, cultivam o vício da negação. Assim se comportaram nos anos 90 diante da febre das ações de tecnologia. Repetem o desempenho alguns anos depois, quando os preços os ativos baseados em créditos hipotecários foram "precificados" de forma imprudente, com a colaboração das chamadas agências de classificação de crédito. Negaram e falsificaram até o momento em que os mercados cuidaram de sinalizar que é hora de corrigir os excessos.
Por isso, como afirma Calomiris, um choque provocado pelo aumento da "aversão ao risco" não vai poupar o Brasil. O nível de reservas, o saldo comercial e o superávit em conta corrente podem atenuar os efeitos de uma brusca mudança de opinião dos mercados. Mas não é prudente ignorar o crescimento da participação de ativos líquidos de propriedade estrangeira - bolsa e renda fixa - no total de ativos financeiros sensíveis a uma perspectiva de desvalorização da moeda brasileira. Tampouco é recomendável ignorar o crescimento do total de ativos líquidos, em boa medida provocado pela esterilização, a custos elevados, da ampliação das reservas em moeda forte. A despeito do "amortecedor" representado pelas reservas elevadas, uma mudança na aversão ao risco pode impor uma desvalorização do real maior do que a antecipada e provocar uma rápida fuga para uma moeda forte em processo de valorização, como é o caso do euro ou da libra.
Vamos à inflação. A valorização cambial estimulou o aumento das importações de insumos, peças e componentes no interior da matriz industrial, alem de incentivar os setores mais afetados pela concorrência chinesa e asiática a importar bens finais e vender no mercado interno como se fora produção doméstica. Um industrial de Campinas, com tradição em seu ramo de negócios, me dizia alguns meses atrás que lamentava reduzir a capacidade de sua empresa para salvar a conta de resultados do balanço. Os efeitos inflacionários da desvalorização podem ser maiores do que as antecipadas pelos modelos econométricos em uso.
Terra Magazine
» Consumidores aloprados ou contribuintes lesados?