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Quinta, 2 de agosto de 2007, 08h03

Presidente da CUT fala sobre o "Cansamos"

Felipe Corazza Barreto

O caldeirão de movimentos que surgiram depois do acidente com o vôo 3054 da TAM em Congonhas tem mais um ingrediente: o "Cansamos". A articulação dessa vez é da Central Única dos Trabalhadores (CUT), historicamente ligada ao PT.

O presidente nacional da Central, Artur Henrique da Silva, nega, no entanto, qualquer motivação pró-governo no "Cansamos". Quando ao nome, Artur diz que não é para confrontar o "Cansei" - lançado pela OAB-SP, pelo empresário João Dória Jr. e por publicitários. Mas admite enxergar problemas no "Cansei":

- Nós fizemos a partir da própria campanha da OAB. Pra gente ela está, senão desfocada, está faltando coisa.

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Artur cobra a inclusão do que chama de "agenda dos trabalhadores" na onda de reivindicações que surgiu no país e critica, como exemplo, a Philips. O presidente da multinacional, Paulo Zottolo, anunciou apoio ao "Cansei".

- Não dá pra você ter, por exemplo, uma Philips, que está propondo fechar cinco seções de fábricas no Brasil, aparecer na mídia como se não tivesse nada a ver com o que acontece no Brasil.

Procurada por Terra Magazine, a Philips negou haver qualquer previsão de fechamento de fábricas ou demissões na empresa.

Leia a entrevista com o presidente da CUT:

Terra Magazine - O que é o movimento "Cansamos"?
Artur Henrique da Silva - Logo após a o anúncio pela mídia do movimento da OAB e da Fiesp, nós resolvemos discutir com a entidades sindicais ligadas à CUT um movimento para dizer que também cansamos. Cansamos do trabalho escravo, cansamos de trabalho infantil, cansamos das taxas bancárias, cansamos dos acidentes de trabalho.

Por que lançar o movimento?
Pra colocar um contraponto, não uma posição contrária, mas um contraponto à campanha da OAB que inclua na pauta a agenda dos trabalhadores.

E como isso foi articulado?
Nós entramos em contato com algumas centrais sindicais, a CGTB, a UGT, e começamos a debater uma forma de botar a campanha nas ruas. Nós estávamos discutindo ainda, mas, aí, provavelmente alguém vazou pra Folha de S.Paulo, então, a campanha acabou indo pra rua antes da hora. Mas a idéia ainda é fazer algumas reuniões com as centrais sindicais para definir a pauta e a forma de encaminhamento dessa agenda dos trabalhadores.

Depois disso, a campanha vai pra rua?
E aí fazer mobilizações, atos de rua...

Houve algum contato com o governo?
Não, na verdade, não. Nós fizemos a partir da própria campanha da OAB. Pra gente ela está, senão desfocada, está faltando coisa. Nós não enxergamos a pauta dos trabalhadores, a agenda dos trabalhadores. A discussão está quase apenas sobre a tragédia. É lógico que todo mundo é contra a corrupção, é lógico que todo mundo é contra a impunidade, agora, nós precisamos também falar sobre as coisas que acontecem no dia-a-dia dos trabalhadores e que afetam o conjunto da classe trabalhadora.

A impressão, então, é de que há o "Cansei" dos patrões e o "Cansamos" dos empregados...
Não sei... Por exemplo: nós tivemos a informação de que o "Cansei" é só da OAB de São Paulo, que a OAB do Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma postura diferente, está querendo fazer uma coisa mais ampla. A nossa intenção não foi fazer uma contraposição ou um embate. Mas não dá pra você ter, por exemplo, uma Philips, que está propondo fechar cinco seções de fábricas no Brasil, aparecer na mídia como se não tivesse nada a ver com o que acontece no Brasil.

Quantas demissões vão acontecer se fecharem as seções?
São 1.300, mais ou menos. É contraditório, porque aí a empresa participa de um protesto parecendo que não tem nada a ver com a sociedade, as coisas do dia-a-dia.

Diferença entre discurso e prática?
Diferença entre discurso e prática.Quer dizer, só vale fazer campanha em relação à crise aérea, não vale fazer campanha em relação ao fechamento de cinco fábricas?

Então a intenção do "Cansamos" é ampliar a pauta do "Cansei"?
Exatamente. Quer dizer, é colocar a nossa pauta. Não dá pra ficar numa pauta que aproveita, na minha opinião, esse debate do acidente não fazendo relação com o que acontece no dia-a-dia do trabalhador.

As primeiras reações foram de dizer que o movimento da CUT é pró-governo, que a CUT é petista. É?
Não... Desde o início do primeiro mandato do governo Lula nós recebemos essas críticas de que a gente está sendo pró-governo. Nós não somos pró-governo. Inclusive, algumas das nossas reivindicações são claramente contra o governo federal. A questão de uma menor taxa de juros, menor superávit primários... Quem mais fez greve durante o governo Lula foi a CUT e seus sindicatos filiados. A CUT não está pró-governo, é só olhar a nossa pauta.

 
Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Arthur Henrique da Silva, presidente da CUT

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