Terra Magazine

 

Quarta, 8 de agosto de 2007, 08h59

Presidente da IGLFA: "Sinto muito por esse juiz"

Felipe Corazza Barreto

A sentença proferida pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira que, entre outras afirmações, diz que um jogador homossexual deve "abandonar os gramados" é preconceituosa e errada, na avaliação do presidente da Associação Internacional de Futebol de Gays e Lésbicas (IGLFA, na sigla em inglês), Thomas Gómez.

Em entrevista a Terra Magazine, Gómez comentou trechos da sentença na qual o juiz rejeitou uma queixa-crime de Richarlyson, atleta do São Paulo, contra o dirigente José Cyrillo Jr., do Palmeiras. O cartola alviverde teria insinuado, em um programa de televisão, que o atleta são-paulino é homossexual.

Veja também:
» Íntegra da sentença do juiz Junqueira
» Opine aqui sobre a decisão do juiz

A decisão do magistrado tem trechos que Gómez chama de inacreditáveis. Maximiano escreveu, por exemplo, que seria melhor que um atleta homossexual abandonasse os gramados. Diz também a sentença que o futebol é um jogo "viril, varonil, não homossexual".

Maximiano já foi afastado do caso e deve prestar explicações sobre a sentença ao Conselho Nacional de Justiça. Grupos contra o preconceito, como o GGB (Grupo Gay da Bahia), já pensam em processar o juiz por discriminação.

Leia a entrevista com Thomas Gómez:

Terra Magazine - Um juiz brasileiro publicou uma sentença dizendo que o futebol "é um jogo viril, varonil, não homossexual". Qual a sua avaliação disso?
Thomas Gómez - Em primeiro lugar, sinto muito por esse juiz. Ele não sabe nada sobre esportes ou sobre identidade sexual. Ele precisa urgentemente de um treinamento sobre diversidade sexual. A identidade sexual não tem absolutamente nada a ver com a prática esportiva.

O magistrado afirma também que se um jogador é homossexual, é melhor que deixe o futebol...
Não sei se o Brasil tem alguma lei contra o preconceito por sexualidade, mas essa declaração é altamente preconceituosa. Futebol não tem a ver com homem ou mulher, ser um homossexual não significa ser incapaz.

Em mais um trecho da sentença, o juiz afirma que se um homossexual quer jogar futebol, deve montar seu próprio time e fundar a própria liga. Se um homossexual não quiser jogar em uma liga como a IGLFA, o sr. vê isso como problema?
Bem, nesse caso, o juiz deve se aposentar, pois não está apto para o trabalho. Na IGLFA nós temos jogadores homossexuais e heterossexuais. Não discriminamos. Por ser homossexual, um jogador não precisa jogar em um time ou uma liga de homossexuais. É uma declaração errada.

Ainda no caso da sentença, o magistrado diz que um jogador homossexual poderia prejudicar "a uniformidade de pensamento do time, o entrosamento, o equilíbrio". Qual a sua avaliação?
Talvez essa declaração demonstre um desequilíbrio do próprio juiz. É a única hipótese que vejo para interpretar essa afirmação. É inacreditável que no século XXI, um juiz, que representa o Poder Judiciário do Brasil, diga algo desse tipo e continue a trabalhar.

Grupos pelos direitos dos homossexuais do Brasil querem processá-lo...
É óbvio. Eles têm que impedir a ignorância antes que ela se espalhe por todo o país.

Em geral, o sr. acha que jogadores homossexuais devem deixar tornar público que o são?
A sexualidade é algo pessoal. Ninguém é obrigado a sair por aí pregando. Deve-se, sim, promover o esporte, a habilidade, os valores e princípios. A vida sexual é privada, ninguém tem o direito de falar sobre ela. Mas, se um jogador decide tornar pública sua vida privada, tem que ser escolha própria, não uma imposição de terceiros.

 
Reprodução
Cartaz da Copa do Mundo promovida pela IGLFA

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