Terra Magazine

 

Segunda, 13 de agosto de 2007, 08h07

Sei o que Web 2.0 não é, mas não sei o que ela é

Julián Gallo
Buenos Aires, Argentina

Costumo me esconder por trás de uma frase de Santo Agostinho a cada vez que alguém me pergunta o que é Web 2.0. O santo me ajuda com a sua famosa máxima dedicada ao tempo: "O que é o tempo? Se não me perguntam, eu sei. Se me perguntam, já não sei".

Algo parecido me acontece com a Web 2.0. Se não perguntam o que é, eu sei claramente; mas se me perguntam eu quase não consigo explicar.

Ultimamente, em muitas das reuniões a que tenho comparecido, há alguém que fala de Web 2.0, ou tem um projeto 2.0, ou diz frases que utilizam esses números como adjetivos: "Isso é muito 2.0".

Confesso que eu mesmo me pego às vezes dizendo coisas assim. Uso a categoria 2.0 mentalmente como um adjetivo positivo, que descreve algo bom, aberto, generoso, inteligente, despojado, fácil... 2.0 é melhor, 2.0 é sempre algo inovador, é simples, é divertido. Mas o que é Web 2.0?

Palavras Textuais
Fernando Barbella, da agência de publicidade Ogilvy Interactive Argentina, tem um blog desopilante chamado Palavras Textuais, onde reúne frases ditas em circunstâncias de trabalho - a ele ou a outros colegas -, coisas completamente sem sentido mas muito freqüentes no ambiente de marketing e publicidade. Por exemplo, a frase número 458 de Palavras Textuais afirma: "Eu quero em um tom de azul, mas um azul mais outonal" (coordenador de área de um anunciante, a um diretor de arte). Ou a contraditória solicitação que aparece na frase 447, segundo a qual "quero que seja fajuto, cafona, ordinário e feio... Mas bem feito" (anunciante, pedindo um panfleto a um designer).

Algo parecido acontece com a Web 2.0: são ditas tantas coisas estranhas sobre ela, existem interpretações tão loucas, que provavelmente merecem um blog que as compile. Eu tenho minha própria coleção não escrita de palavras textuais desse tipo. Eu as ouço em empresas, universidades, de estudantes, entusiastas, empreendedores, loucos, comentaristas, blogueiros e até do técnico do computador. Há pouco, em uma empresa, alguém que trabalha na área de recursos humanos me disse que "nós temos uma política de recrutamento muito 2.0". A verdade é que não sei o que ele queria dizer, ainda que tenha respondido, laconicamente: "Claro..."

A Web 2.0 segundo a Web 2.0
No prólogo da edição do livro do I Ching, Carl Jung faz algo genial: consulta o livro sobre o próprio livro, e é assim que o I Ching termina, de alguma maneira, se auto-explicando. Entre os inumeráveis exemplos de Web 2.0 que existem, a Wikipédia se destaca por sua vitalidade, profundidade e impacto sobre toda a cultura. Ocorreu-me, então, repetir o modelo de Jung e consultar a Wikipédia sobre a Web 2.0. Diz a Wikipédia:

"O termo Web 2.0 foi cunhado pela O'Reilly Media, em 2004, para designar uma segunda geração da Web baseada em comunidades de usuários e uma gama especial de serviços, tais como as redes sociais, os blogs, os wikis ou as folksonomias, que fomentam a colaboração e o intercâmbio ágil de informação entre os usuários".

Bastante claro, mas não muito... Mais adiante, no mesmo artigo, surge uma explicação de como o texto foi cunhado, para uso em uma conferência, e a informação de que em lugar de ter surgido sob uma definição estrita, ele nasceu por oposição de exemplos. Diz a Wikipédia:

"DoubleClick era Web 1.0; Google AdSense é Web 2.0. Ofoto é Web 1.0; Flickr é Web 2.0".

Portanto, a Web 2.0 não é algo que se possa definir com exatidão; ela representa uma evolução da Web 1.0. Talvez esteja aí a chave para entender por que tanta gente encontra dificuldades para compreender o que é a Web 2.0, já que é possível definir quase qualquer coisa como 1.0 e 2.0, atribuindo ao que é fechado, antiquado, velho e hierárquico a classificação 1.0 e ao que é aberto, novo, vital e descentralizado o rótulo 2.0.

Somos todos 2.0
Somos todos usuários da Web 2.0, ainda que muita gente não saiba disso. Todo mundo que assiste a um vídeo no YouTube (serviço completamente 2.0) contribui com suas visitas para fazê-lo subir no ranking dos vídeos online, o que representa uma atividade 2.0. Caso essas pessoas tenham uma conta no YouTube e façam upload de vídeos para o site, são ainda mais 2.0. Os usuários do Fotolog são usuários 2.0, se bem que muitos deles jamais tenham ouvido o termo. As pessoas que procuram notas interessantes no Meneame, as que mantêm blogs e as que usam a lastfm estão na mesma categoria.

Se alguém deseja explorar os serviços e aplicativos Web 2.0 (e não existe maneira melhor do que vê-los em funcionamento para entender do que se trata), um dos melhores caminhos é o del.icio.us, um dos sites emblemáticos da Web 2.0. Visitas regulares permitem descobrir coisas maravilhosas, geniais e absurdas.

Caso existisse um Oscar para a Web 2.0 e eu fosse parte do júri, meu voto sem dúvida seria dado ao Geni, um serviço simples, viral, de criação de árvores genealógicas, que oferece resultados espantosos. Quando me perguntam o que é a Web 2.0 e o truque de Santo Agostinho não resolve, aprendi também que a melhor maneira de explicá-la é usando exemplos. Por isso, digo que "Web 2.0 são sites como o www.geni.com ". Com o tempo, essa pessoa a quem convidei a usar o Geni se converterá também ao novo paradigma.

Explicar o que são redes sociais pode ser um pouco mais difícil, mas na Commoncraft existe um vídeo (muito 2.0!) que, embora em inglês, expõe a situação claramente.

Como uma cultura
A Web 2.0, com sua peculiar estética minimalista, seus grandes botões e suas áreas de assinatura perfeitamente estudadas (e com a amabilidade que se pode descobrir nelas quando são utilizadas), com suas aplicações abertas e seu altruísmo, a inteligência assombrosa e concentrada que se pode aferir em suas interfaces (a da Geni é apenas um exemplo), é uma expressão de uma cultura melhor do que aquela que a precedeu. Sem dúvida. Se o mundo físico fosse um pouco 2.0, tenho certeza de que seria um mundo melhor, mais inteligente, mais generoso e mais barato.

 

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