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Quarta, 15 de agosto de 2007, 08h04

Um filme com Milton Santos

Thais Bilenky
especial para Terra Magazine

No dia 17 de agosto, Silvio Tendler, cineasta e também colunista de Terra Magazine, estréia o documentário "Encontro com Milton Santos ou: o mundo global visto do lado de cá".

Tudo começou em 2001, com uma entrevista que iria fazer parte de outro filme. Mas, na hora de direcionar as velas, o entrevistado revelou-se forte o bastante para mudar o rumo da navegação. O encontro tornou-se o "Encontro", e então foi feita uma verdadeira reconstrução do pensamento sobre globalização deste geógrafo, jornalista, advogado e filósofo. O resultado é o filme com Milton Santos.

Silvio Tendler, em 2006, ganhou o prêmio do júri popular no Festival de Brasília pelo longa. Agora, às vésperas do lançamento nacional, fala a Terra Magazine sobre sua experiência ao lado do geógrafo:

- Ele era uma pessoa que tinha uma forte intuição, sabia para onde o vento soprava, e ao mesmo tempo, muito estudo, muita pesquisa. Então ele me balizou em 2001 para coisas que foram acontecer depois.

A entrevista abaixo foi feita durante uma sessão prévia do longa, exibida a convidados. Afirma o diretor:

- Quem tá assistindo o filme nesse momento é Milton Gonçalves, Lectícia Spiller e Beth Goulart. Eu tô cercado de mulheres bonitas!

Terra Magazine - E como é estar cercado de mulheres bonitas às vésperas da estréia de seu filme?
É maravilhoso. É uma das grandes motivações que a gente tem pra viver. Eu e Oscar Niemeyer, ele com seus 100 anos e eu com meus 57.

É uma inspiração pra arte.
É, é uma grande inspiração pra arte, uma Stiff Johnson. Mas vamos à entrevista.

Bom, o que Milton Santos ajuda para se entender a globalização do lado de cá? Qual é a contribuição dele?
É total. Ele cria um pensamento com nexo, ele dá uma noção de conjunto do processo de globalização que a gente recebe cotidianamente fragmentada pela imprensa. Não que a grande mídia não dê as informações, mas as informaçãoes, a gente vive hoje um excesso de informação e essa informação chega muito fragmentada. Então um filme sobre o Milton Santos, com ele, permite que você tenha nexo sobre essa globalização. Eu acho que a importância do filme é essa. E a importância do Milton enquanto pensador é que eu acho que ele foi o cara do hemisfério sul que mais pensou esta questão. Tanto é que ele é reconhecido internacionalmente e é o único geógrafo do hemisfério sul que ganhou o prêmio de Vautrin Lud de Geografia.

E com "lado de cá" você quer dizer o hemisfério sul e também as periferias?
Exatamente. O Milton Santos diz que quem vai mudar o mundo são os países pobres do hemisfério sul e são os pobres dos países pobres e também os pobres dos países ricos. Ele diz que quem vai mudar o mundo são os de baixo, que não têm compromissos com esse sistema que já tá aí.

Quando você fez a entrevista, já estava pensando no filme?
Quando eu fiz a entrevista, eu estava fazendo um filme chamado "Utopia e Barbárie", e pensei que ele seria uma das pessoas que fariam o "Utopia e Barbárie". Mas o Milton Santos me ganhou de tal maneira que eu vi que daria um filme específico com ele. Na verdade, esse filme não é sobre ele, é com ele. Por isso que se chama "Encontro com Milton Santos".

E ele chegou a saber que a entrevista iria virar um filme depois?
Eu acho que ele fez isso, né? Ele plantou essa semente. Ele deu um depoimento tão maravilhoso, tão livre, tão liberto. Ele sabia que queria deixar o testemunho dele. Sabia de tudo que tava acontecendo com ele (Milton Santos estava com câncer e morreu 5 meses depois). E graças a Deus ele escolheu dar esse depoimento para mim. Porque é um depoimento precioso, que mudou minha vida, meu olhar sobre o mundo a partir deste contato com ele.

Como você usou a linguagem do cinema, os recursos audiovisuais, para passar todo o depoimento?
Eu fui reconstruindo, quer dizer, eu fui montando a entrevista dele, que não é uma entrevista fácil porque ele tem um pensamento muito circunloquial. Ele vai, volta, avança, volta no que você perguntou 10 minutos atrás, dá 3 passos adiante, te engana, fala outra coisa e volta pro que você perguntou. Ele constrói o pensamento de uma forma maravilhosa, mas muito difícil de montar pro cinema. Então eu na verdade fui entrecruzando o pensamento e o raciocínio dele com exemplos do que ele falava. E aí eu busquei imagens mundo afora para ilustrar esse pensamento. Eu consegui desde televisões, agências internacioanis de notícias até e sobretudo muita coisa de mídia independente. Como o próprio Milton Santos diz, com poucos recursos técnicos, você pode fazer coisas fundamentais. Então eu peguei essas coisas fundamentais, fui juntando os caquinhos e fiz esse grande painel que é, na verdade, uma colagem de imagens e sons, ancorado, balizado pelo pensamento de Milton Santos.

Você chegou a fazer alguma viagem para fazer imagens?
Eu na verdade nunca faço um filme só. Então eu vou juntando cacos e vou montando filmes. Eu aproveito as pessoas que vêm pro Brasil e filmo. Ou vou lá fora e filmo. Então eu posso usar isso de formas diferenciadas e em momentos diferentes. Por exemplo, fui cubrir o Fórum (Social Mundial) de Porto Alegre e aí peguei o discurso de Saramago que fala sobre democracia. O Eduardo Galeano veio ao Rio de Janeiro e fala sobre o desevolvimento visto do ponto de vista dos países do Sul. O Ailton Krenak, a gente foi lá em Conceição do Mato Dentro filmar ele. Então na verdade meu cinema é feito com muitos cacos montados que dão uma bela colagem.

De 2001 prá cá, quando foi feita a entrevista, muita coisa mudou na "confecção" da globalização...
Mas o Milton Santos é tão brilhante, tão clarividente, que eu abro o filme com uma entrevista que ele deu em 1995 sobre Josué de Castro, definindo a clarividência, em que eu percebi que ele tava falando dele mesmo. A clarividência é uma soma de intuição com conhecimento, com estudo. E ele é isso. Ele é uma pessoa que tinha uma forte intuição, sabia para onde o vento soprava, e, ao mesmo tempo, muito estudo, muita pesquisa. Então ele me balizou em 2001 para coisas que foram acontecer depois. O próprio desenvolvimento tecnológico que ele prevê, quando ele fala que as pessoas de periferia podem produzir coisas fundamentais com poucos recursos, eu vou filmar em Jaqueri, os meninos que fazem cinema com uma câmera de fotografia. Vou a Brasília e filmo um cineasta que mora numa cidade-satélite e que pega como exemplo dele, pra fazer cinema, os colegas que fazem hip hop na Tailândia. Então eu vou trabalhando com exemplos que vão acontecer muito depois, mas que o Milton Santos pouco antes de morrer, intuiu. Eu mostro os índios se comunicando em rede através da internet. Dizendo agora que, graças à internet, eles não precisam mais pedir licença da prefeitura para ligar pra outro lugar, a gente da aldeia mesmo acessa. Então, ele na verdade intui tudo o que tá acontecendo.

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Divulgação
Milton Santos, durante entrevista feita em janeiro de 2001, meses antes de sua morte

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