
José Pedro Goulart
Sim, há uma grande diferença entre um par de olhos doces e uma verruga. Porque sabemos, as coisas são diferentes. Numa escala de feiúra, as verrugas estão em oposição a pares de olhos doces. Outra coisa bonita quando doce é o pão, por exemplo, que pode até não ser belo na aparência - ou pode ser, não é esse o caso -, mas belo no sabor. Cada coisa com a sua formosura, portanto, mesmo que a palavra formosura venha de forma e o que interesse seja a essência; a essenciasura.A beleza se traduz ou pode ser vista em lugares distintos. Entretanto o mundo vem optando pela verruga. A vitória da verruga, esteticamente falando, se faz notar entre diversos setores da atividade humana, só para usar uma expressão verruguenta (diversos setores da atividade humana). Veja o futebol atual: técnicos verrugas fazem esquemas verrugas que enfeiam aquilo que deveria ser um espetáculo. Parte da torcida gosta porque gosta da vitória, só se interessa pela vitória, pelo resultado; outra parte preferiria a beleza, o drible, o incentivo ao ataque: é a parte que sempre lembra com saudades da seleção de 82 apesar da derrota, porque até mesmo certas derrotas são belas.
A feiúra também não está só plano geral das grandes e superlotadas cidades contemporâneas. Está nos detalhes. Antes, um litro de leite vinha numa garrafa de vidro. A Pepsi ou a Coca-cola também. E agora tudo vem embalado em plástico. Coisa horrível que é o plástico. Repare também nos rótulos antigos dos produtos, desde a bolacha Maria até o creme de barbear e compare com os atuais. Faça o mesmo com a propaganda das revistas, os penteados, cortes de cabelos. Olhe as fotos antigas dos nossos pais ou avós; no futuro, quando nossos filhos fizerem o mesmo estarão vendo fotos digitais com moldura de photoshop. Essas coisas, aparentemente insignificantes, vão nos cercando; nos tirando o gosto visual, do toque, do cheiro, embrutecendo os sentidos. Você pode me acusar de saudosismo se quiser, embora esse não seja o meu ponto aqui. A minha reflexão parte da idéia de que a beleza, o senso estético apurado, tem utilidade "prática" na nossa vida.
E é claro que beleza tem conceito amplo. Veja o movimento político/estético do final dos anos sessenta pelo mundo. Era necessário se enfear ou enfear as coisas: pichar, riscar, borrar. Havia uma ordem patriarcal - no estado ou na família - que precisava ser combatida. A desordem ou a má educação eram condutas cabíveis diante disso, mesmo a sujeira não era incompatível com a beleza.
Mas agora não, agora é preciso por ordem no inferno. Ainda mais no Brasil, um país de esquálidos compulsórios. Onde em cada esquina nos vemos confrontados com pares e pares de olhos amargos. Olhos que deviam ser doces. De todas as verrugas possíveis, essa é a maior. E não é estética, é moral. Razão pela qual eis aqui uma sentença: enquanto houver uma só criança sozinha nas ruas não haverá beleza a ser usufruída. A beleza não é necessariamente uma qualidade da civilização. A civilização é uma qualidade da beleza.
Terra Magazine