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Sexta, 17 de agosto de 2007, 08h51

Porto Alegre em cena: bem-vindo à cidade do teatro

Deolinda Vilhena

Aviso aos navegantes, esta é uma coluna de teatro. Escrita por uma jornalista que é antes de tudo uma mulher de teatro, ora atuando como produtora, ora como assessora de imprensa, ora como administradora, acostumada a jogar nas onze e adorando acumular todas essas funções.

A todas essas facetas decidi acrescentar mais uma, e para tanto não poupei investimento e, em busca do conhecimento como a maneira mais eficiente de buscar a perfeição, banquei dois mestrados e um doutorado em teatro, este com o auxílio luxuoso da CAPES.

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Ou seja, teatro não apenas faz parte da minha vida, teatro tem sido a minha vida, ainda que durante alguns anos tenha usado uma camiseta Vá ao teatro mas não me convide! Aliás, por conta dessa camiseta, meus amigos são partidários de uma teoria que diz que eu não gosto de teatro mas sim de fazer teatro... intriga da oposição. Pois a verdade, verdade mesmo é que há 30 anos, onde sinto cheiro de bom teatro, dou um jeito de me instalar.

Isso tudo para explicar a vocês, meus diletos leitores, que após dez anos dedicada exclusivamente às minhas atividades acadêmicas estou outra vez na área - e se derrubarem, não esqueçam de marcar o penâlti. Depois de voltar ao Brasil, ao jornalismo com minha vinda para Terra Magazine, preparo em grande estilo a volta ao teatro, pois aceitei o convite de Luciano Alabarse, Rodrigo Lopes e Alexandre Magalhães e Silva e assumi a assessoria de imprensa nacional do 14° Porto Alegre em cena, o maior festival de teatro do Brasil, que eu não sou mulher de meio termo.

E, justamente, por se tratar do mais completo e importante festival do país é que uso, sem falsos pudores mas preservando a ética, o espaço da minha própria coluna para divulgar o Porto Alegre em cena. Afinal de contas, seria injusto poupar meus leitores de informações que eu mesma distribuo aos coleguinhas da press.

Na última segunda-feira, dia 13 de agosto, foi apresentada em São Paulo a programação oficial da 14.ª edição do Porto Alegre em cena, no belíssimo espaço do Teatro Ágora, aberto aos amigos do festival e à imprensa pela generosidade e amizade de Celso Frateschi, Sylvia Moreira e Roberto Lage. Adolescente ainda, o Porto Alegre em cena já marca presença na vida cultural do país e, graças a nomes como Peter Brook e Pina Bausch - para citar apenas dois tops de linha -, é reconhecido internacionalmente.

A edição 2007 acontece de 10 a 30 de setembro e, além da já anunciada estréia nacional de Ariane Mnouch­kine e seu antológico grupo, o Théâtre du Soleil, o Poa em cena - como chamamos carinhosamente o festival - tem muito mais a oferecer. Do Japão vem o Sankai Juku, um dos mais importantes grupos de butô da atualidade, com o espetáculo Kagemi.

Da Alemanha vem a cantora Ute Lemper, considerada o nome mais importante da canção teatral alemã, verdadeira embaixadora do gênero cabaré berlinense para apresentar Cabaret songs. Para quem não a conhece, Ute Lemper começou sua carreira musical, com títulos como Cats, Peter Pan, Cabaret e Chicago, e é especialmente conhecida por suas interpretações de compositores como Kurt Weill, Jacques Brel, Astor Piazzolla e também de Elvis Costello, Tom Waits e Nick Cave. Possui uma voz de múltiplos talentos. Canta em inglês, alemão, espanhol, francês, árabe ou húngaro. Trabalhou no cinema com os diretores Peter Greenaway e Robert Altman (Prêt-à-Porter).

Da Argentina, vários espetáculos, entre eles o Bocca Tango, que marca a despedida dos palcos de Julio Bocca (a despedida oficial acontece em dezembro na Ópera de Buenos Aires, e já apresenta o cartaz "ingressos esgotados").

Do Uruguai, vem a China Zorrila, que muitos de vocês conhecem sem ligar o nome à pessoa, graças ao sucesso nas telas dos cinemas do Brasil do filme Elsa e Fred, um amor de paixão e que aos 85 anos fará sua estréia em palcos brasileiros, com o espetáculo El camino para Meca.

De São Paulo receberemos 12 espetáculos! Entre eles Santidade, de José Vicente, com José Celso Martinez comemorando em cena, cheio de energia e disposição os 49 anos do mítico Teatro Oficina, dirigida por Marcelo Drummond, cuja parceria com Zé Celso tem resultado em trabalhos interessantes, marcando novos tempos no quase cinquentão Oficina.

Tem também Antunes Filho, com dois espetáculos do CPT, A Pedra do reino baseado na obra de Ariano Suassuna e Prêt-à-porter 9.

A estréia nacional Por uma vida um pouco menos ordinária, texto da premiada Daniela Pereira de Carvalho, dirigido por Gilberto Gawronski, com Eduardo Moscovis no elenco.

Realizado pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, durante os vinte dias do Porto Alegre em cena, cerca de 800 atores e diretores circulam pela cidade em mais de 130 apresentações em 14 teatros e diversos espaços alternativos; 39 palestrantes participam de mesas redondas; 11 oficineiros se dividem em aulas de cenografia, iluminação, encenação, texto, voz, leituras, coros, treinamento e malabarismo; 11 sessões de vídeo serão apresentadas, além de lançamentos de livros, desfiles e as festas do ponto de encontro.

Para garantir que toda essa máquina funcione, o festival trabalha em parceria e com o auxílio direto de mais de 400 pessoas das empresas patrocinadoras e de apoiadores. A equipe de produção aumenta de 26 para 100 com a chegada de anjos e produtores de palco, além de 60 técnicos de luz e som e 28 técnicos de cenografia. Sessenta pessoas trabalham durante 28 dias vendendo 45.000 ingressos ao preço médio de R$ 10, independente do espetáculo assistido. Preço que só nos é permitido implementar graças aos patrocínios da Petrobras, da Braskem e da Caixa Econômica Federal. Sem falar de apoios para espetáculos especiais, como é o caso de Les éphémères de Ariane Mnouchkine, possível em grande parte pela participação francesa através da Embaixada, do Consulado Geral em São Paulo e de CulturesFrance, agência subordinada aos ministério das Relações exteriores e da Cultura da França.

Essa nova população que migra para Porto Alegre durante o mês de setembro se instala em 10 hotéis, se alimenta em mais de 60 restaurantes e consome 6500 refeições. Uma média de 60 "mulheres em cena" se dividem recebendo grupos em suas casas. São distribuídas 1500 sacolas e o mesmo número de camisetas do Festival. Cada grupo fica na cidade aproximadamente quatro dias.

No total são 72 espetáculos (confira a grade no site www.poaemcena.com.br), 21 internacionais, 25 nacionais e 27 locais ou, como diz Luciano Alabarse "teatro gaúcho que, para quem não conhece, é muito bom". Sem falar nas oficinas, palestras, mesas redondas, mostras de vídeo e essas atrações parale­las que um grande festival sem­pre oferece ao público. Tudo isso numa cidade bonita, limpa, educada, com grande quali­dade de vida e vida cultural efervescente, num período concentrado de 10 a 30 de setembro.

Por isso, se você ainda não tirou férias esse ano, setembro está ai e o Porto Alegre em cena é a grande dica. Faça como os franceses fazem desde 1947, quando um homem, então visto como louco e visionário, chamado Jean Vilar criou o festival de Avignon. Desde então, milhares de franceses e turistas do mundo inteiro passam o mês de julho na antiga cidade dos Papas. Essa população que, sagradamente, lá se instala anualmente, contribuiu para que o Festival de Avignon se transformasse numa referência mundial.

Venha passar parte das suas férias na capital gaúcha, que nesse período será também a capital latino-americana do teatro. E faço minhas as palavras do Luciano Alabarse, "venha que você será bem-vindo. E nos dê créditos e ou­vidos que gaúcho gosta de receber bem seus convidados. Você é um deles. Sinta-se em casa".


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

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Divulgação
Eduardo Moscovis, Liliana Castro e Gustavo Gasparani são algumas das atrações do Porto Alegre em Cena

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