
Maria Falcão
Já ouvi dizerem que a mídia pauta o Congresso, pauta a economia, a moda, o esporte... Mas que pauta também a saúde é novidade. Na verdade essa é uma constatação minha e não discuto com quem achá-la um exagero. Mas já venho há algumas semanas observando a influência das notícias de saúde, veiculadas nos jornais e televisão, sobre o comportamento da população, e as minhas suspeitas se fundamentam cada vez mais.Por exemplo, desde que as notícias sobre os surtos de meningites, em diferentes cidades do Brasil, começaram a pulular as manchetes, os meus dias de ambulatório pululam também com gente em pânico por causa da doença. Isso não é propriamente uma crítica negativa. Pelo contrário, acho ótimo! Como diz o velho e batido, mas insubstituível clichê, melhor prevenir do que remediar. Mas acho também que esses períodos poderiam ser mais bem aproveitados pela mídia para reforçar as páginas de saúde, torná-las mais educativas e menos sensacionalistas. E ao invés de despertarem pânico no cidadão, despertarem a curiosidade e o interesse pela educação em saúde.
Como trafego nas duas áreas, da notícia e da saúde, e acredito que devo dar o exemplo, é sobre meningite que falo hoje aqui em Terra Magazine.
A meningite é uma inflamação das membranas que revestem o sistema nervoso central, as meninges. Classicamente, o doente chega ao serviço de saúde queixando-se de sintomas de início abrupto como febre, dor de cabeça, rigidez da nuca e vômitos. Outros sinais bastante característicos - esses geralmente pesquisados na consulta médica - são os sinais de Brudzinski e Kernig. O primeiro é uma flexão espontânea do quadril quando o indivíduo tenta flexionar o pescoço. O de Kernig se traduz por uma dificuldade para estender os joelhos quando o quadril é flexionado em 90 graus.
Bom, chegando um paciente com esses sintomas ao serviço médico, não há motivo para desespero. O médico vai tomar as primeiras medidas que visam aliviar esses primeiros sinais e sintomas e solicitar o exame do líquor (um líquido presente no sistema nervoso central) através do qual, a depender dos achados, vai possibilitar não somente confirmar o diagnóstico de meningite como também classificá-la em meningite causada por vírus, bactérias, fungos ou protozoários. Outro exame bastante solicitado é a cultura desse líquido, para que, no caso de meningite bacteriana, por exemplo, o microorganismo seja identificado com mais precisão.
Como disse há pouco, a diferença entre os tipos existentes de meningite é mais facilmente feita por meio do exame do líquor do que observando-se sinais e sintomas externos - a não ser na meningite meningocócica (um tipo dentre as bacterianas), onde lesões petequiais, purpúricas ou equimóticas são bastante características (pontos e manchas avermelhadas na pele).
As meningites virais e bacterianas são as mais comuns. As fúngicas são muito raras, afetando principalmente pessoas com imunodeficiências (aids, por exemplo). Dentre as bacterianas é importante chamar especial atenção para a meningite meningocócica, causada pelo meningococo. Esse é um tipo que pode ser transmitido pelas vias respiratórias, o que quer dizer que o convívio íntimo entre as pessoas favorece a transmissão da bactéria, que passa do nariz para o sangue, é levada para o cérebro onde estão as meninges e provoca uma infecção. Esse tipo pode ser fatal em algumas horas, mas apenas uma minoria de casos evolui com essa gravidade. Nos outros, a evolução é mais lenta, o que permite identificar a doença e introduzir sem demora o tratamento. Assim como o meningococo, outras duas bactérias podem causar casos muito graves: o pneumococo (comum nas pneumonias) e o hemófilo (contra essa bactéria existe vacina).
Transmissão:
A transmissão ocorre por via respiratória, a partir de um doente ou de uma pessoa que não está doente, mas que é portadora do microorganismo, normalmente um adulto. Pode ser transmitida pelo doente ou pelo portador através da fala, tosse, espirros e beijos, passando da garganta de uma pessoa para outra.
O tratamento consiste no alívio dos sintomas como a febre e vômitos, e na administração de medicamentos específicos para cada tipo de meningite. Quando feito de maneira correta e dentro de um período de tempo razoável, evita algumas complicações como perda auditiva, crises convulsivas, e possíveis lesões neurológicas.
Com relação à prevenção, existe hoje a vacina Tetravalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche e meningite causada somente pela bactéria Haemophilus influenza tipo B (hemófilo). Essa vacina é aplicada em bebês de 2 a 6 meses, em três doses. Outra vacina é a que protege contra alguns tipos de meningococo (A, C, W135 e Y). Essa vacina, além de não proteger contra todos os tipos de meningococo, não é eficaz em crianças menores de 18 meses - por esse motivo ela não faz parte do calendário de vacinação, e não está disponível nos Postos de Saúde.
Para os demais tipos de agentes causadores de meningite, a prevenção deve ser feita através do uso de máscaras e uso profilático de antibióticos (mas isso só para as pessoas que estiverem em contato próximo a um paciente que esteja com a infecção). A limpeza e a higiene devem ser as habituais - não há necessidade de inutilizar ou desinfectar objetos de uso pessoal do doente.
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