
Roberto de Sousa Causo
Em 1990, consegui com alguém (provavelmente com R. C. Nascimento, então presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica) o endereço de Scavone, e lhe enviei um exemplar do meu fanzine Papêra Uirandê, e o convite para que ele participasse da I InteriorCon, uma convenção de FC que organizei em Sumaré, a cidade do interior de São Paulo onde morei até 1991.Lembro-me de estar em casa, em Sumaré, e receber um telefonema dele, muito irritado com algo que havia lido no fanzine - alguém que chamava a Geração GRD de "autores bissextos". Depreendi, pela reação dele, que se considerava integrante desse grupo de autores que Gumercindo Rocha Dorea publicou na década de 60.
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Mais tarde, minha então namorada (hoje esposa) Finisia Fideli e eu fizemos uma visita a Scavone na sua casa em Santo Amaro, na Capital. Finisia o queria na série de entrevistas que preparava para o Somnium, o fanzine do CLFC, e eu pensava numa resenha do seu livro Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas (Hemus) para a Isaac Asimov Magazine.
Finisia entrou de olhos arregalados na casa dele e da sua esposa, Dona Maria Eugênia: Finisia era fã apaixonada de Scavone, que iniciou sua carreira com O Homem que Viu o Disco-Voador em 1958, sob o anagrama de Senbur T. Enovacs. Um romance notável pela cor local paulistana e pelo controle narrativo, raro num livro de estréia. Anos mais tarde, eu viria a perceber que o romance havia motivado - juntamente com a antologia Maravilhas da Ficção Científica - um intenso debate nas páginas dos suplementos literários, sobre o lugar da ficção científica nas letras nacionais.
Imaginem o susto da Finisia quando, sentado na sala dos Scavone, a primeira coisa que eu disse foi que pretendia resenhar o livro, mas que considerava o estilo dele pesado, excessivo. Scavone, por sua vez, riu e fez um comentário à Finisia sobre a minha petulância. Outros escritores do meu conhecimento teriam "sapateado na mesa", diante do que eu disse. Mas ele continuou nos recebendo muito bem e, em encontros posteriores, nunca ventilou qualquer ressentimento quanto à minha "crítica".
Não se deu ao trabalho de explicar as razões do seu estilo ser como era, ou de apontar a minha ingenuidade literária. Com o tempo, me dei conta sozinho dessa ingenuidade - uma das coisas que o episódio me ensinou, que o que tiver de ser descoberto a respeito do estilo ou do programa literário de um autor, será descoberto pela leitura, e não com o escritor bancando o campeão de si mesmo. A outra coisa que aprendi é que eu estava absolutamente errado - o estilo elaborado de Scavone apenas esconde, como o embrulho translúcido de um presente, articulações muito precisas entre personagens, ambientes e evocações numa história, tornando ainda mais interessante encontrá-las ao longo da leitura. Isso acontece com contos como "Especialmente, Quando Sopra Outubro" e "Número Transcendental", nos quais o elemento sensível e subjetivo da narrativa colore sutilmente os seus vários sentidos, mas é na obra-prima O 31.º Peregrino que tudo ficou mais claro para mim.
Scavone deu a Finisia e a mim o privilégio de ouvir sua leitura do último rascunho, em sua casa, e talvez esse tenha sido um modo igualmente sutil de responder à minha petulância, pois a leitura da noveleta - com seu estilo propositalmente arcaizante e elaborado - nos deixou atônitos com a sua força e as muitas interpretações que propicia. A noveleta foi publicada em livro pela Estação Liberdade em 1993, com texto de orelha de James Scavone, neto de Rubens que então tinha apenas 15 anos, e que ele já fazia se interessar pelas letras. Ainda hoje, o que O 31.º Peregrino realizou em termos de homenagem literária, fusão de gêneros, atmosfera, força de imagens e discussão dos limites cognitivos do ser humano dentro de um dado momento histórico, permanece singular dentro da FC brasileira.
Nesse mesmo ano Scavone leu e comentou meu conto "O Bêbado de Pancada", que mais tarde seria publicado na Playboy de abril de 1994. Também revisou página por página o meu romance "Anjo de Dor" (a ser publicado pela Devir em fins deste ano). Com o processo, aprendi muito sobre o rigor necessário à revisão e aos processos por trás da criação literária - Scavone inclusive gostava de me cutucar com perguntas que pareciam testar se minhas decisões eram meros caprichos, ou se tinham alguma reflexão por base. Mais ou menos como Sean Connery fazia com Rob Brown em Encontrando Forrester, um dos meus filmes favoritos. Aliás, não consigo assistir a esse filme sem pensar em Scavone.
Scavone havia participado de um excelente painel na I Mostra de Ficção Científica, evento organizado pelo CLFC em 1987 com o SESC Pompéia. Foi uma de suas raras aparições junto ao fandom de FC. Sua eleição para a Academia Paulista de Letras no ano seguinte provavelmente o desviou de outras atividades do fandom. Pensando em trazê-lo de volta ao nosso convívio, pedi que fosse o Convidado de Honra da II InteriorCon. O tema do evento foi "Ufologia e Ficção Científica", o que motivou um boicote de vários setores do fandom, esvaziando o evento de uma assistência maior. Poucos anos depois, é claro, muitos dos promotores do boicote estavam assistindo ou adquirindo com gosto itens relativos a Arquivo X ou Men in Black, o que mostra que "santo de casa não faz milagre" e que a novidade importada tem peso desproporcional mesmo diante de alguém com uma história de contribuições à FC como Scavone.
Fui para Sumaré com ele, para garantir que ele acharia o caminho até o centro cultural da cidade. Na viagem, confessei que tinha muitos buracos em minha formação literária, ao que ele respondeu: "Mas você tem feeling, o que também é importante."
Isso é particularmente notável diante do papel da erudição literária tanto na ficção quanto na ensaística de Scavone. Ele obviamente orgulhava-se dela e desejava ser reconhecido por ela, mas era aberto e generoso o bastante para reconhecer que a erudição apenas não pavimenta todo o caminho do escritor - ao contrário de outros colegas que me diziam que é necessário um capital literário muito específico, para alguém se tornar um bom ficcionista.
Eu acreditava que, do mesmo modo que aprendia tanto com Scavone, o fandom como um todo também poderia se beneficiar de um convívio maior com ele. Uma palestra junto ao CLFC foi agendada, numa associação dos engenheiros ferroviários, na região da Luz, mas o encarregado de abrir as instalações não apareceu. Scavone foi camarada e deu a palestra num canto do pátio de reparos de locomotivas, onde o ouvimos falar da sua visão da FC em meio às máquinas mastodônticas e ao cheiro de óleo e ozônio.
Com uma timidez às vezes confundida com arrogância, Scavone gostava de receber pessoas em sua casa. Estive lá com Nascimento e Marcello Branco, e com o escritor Henrique Flory e o fã e editor argentino Horacio Moreno. Branco chegou a publicar um de seus contos no fanzine Megalon.
Convivendo com ele, acabei me abrindo mais ao mainstream literário. Scavone me apresentou o trabalho de de Martin Ames e de Ian McEwan, com o romance The Cement Garden, e de outros autores do seu apreço.
Falando sinceramente, não sei por que ele me dava tanta atenção - o que me honrava muito, mas que também me intrigava. Não me tratava de modo paternalista ou prepotente, apesar da diferença de experiência, formação e conhecimento entre nós. Quando fomos para Sumaré, paramos na minha casa para um refresco, e meu pai, já septuagenário em 1991 e sem camisa, deixou o trabalho na horta e veio cumprimentá-lo. Os dois conversaram brevemente sobre a origem das duas famílias, no solo italiano. Scavone certamente notou minha origem humilde, mas nunca tocou no assunto. Quero crer que fosse mais importante para ele avaliar minha produção intelectual e meus compromissos literários. Talvez tenha enxergado que nem ele nem eu escrevíamos para ascender socialmente, algo tão em voga entre escritores da nossa esmagada classe média, que enxergam na literatura um meio de serem notados quando a sociedade brasileira lhes nega outros meios de ascensão social. Scavone, filho de um industrial e com uma carreira sólida no ministério público, nunca precisou escrever para ascender socialmente - e eu era o "jovem da província que vai à metrópole", mas reconciliado com suas origens provincianas.
Talvez ele sentisse que precisava de um interlocutor dentro da ficção científica, gênero que, ao contrário do que muitos acreditam, ele nunca abandonou. Tinha a imaginação como um valor, e a FC como o gênero que mais a cultivava. Escreveu contos de FC muito bons nos anos 80 e 90, como o singelo e inquietante "Leica, Modelo 1928", que combina algumas de suas grandes paixões: São Paulo, especialmente a região da Sé, onde fica o prédio da OAB que ele freqüentava e onde às vezes se encontrava com Finisia; e a família, que ele integra com delicadeza no texto autobiográfico, imaginando filhos e netos no futuro - e projetando, numa reflexão sobre a finitude, sua própria ausência - que se firmaria dez anos depois da publicação da história em 1988. Outro exemplo é "O Grande Eclipse", publicado na antologia juvenil Sete Faces da Ficção Espacial, de 1993, e que tive o privilégio de republicar na minha antologia Estranhos Contatos (1998). Também nesse ano ele nos deixou outra obra-prima, O 31.º Peregrino, cada vez mais valorizada pelos observadores da FC brasileira.
Terra Magazine
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Reprodução
Rubens Teixeira Scavone, escritor denso mas que também valorizava a espirituosidade
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