
Roberto de Sousa Causo
Rubens Teixeira Scavone nasceu em Itapira, interior de São Paulo, em 8 de julho de 1925.No discurso de Posse da Cadeira Nº. 18 da Academia Paulista de Letras, para a qual foi eleito em 1988, Scavone oferece reminiscência de como a vivência com os pais lhe incutiu o gérmen da literatura: "Noite, luzes baças, quietude absoluta na cidadezinha do interior. Meu pai, Hermelindo Scavone, na cadeira de balanço austríaca, charuto de Brigasso entre os dedos, cego, silente, concentrado. Minha mãe, Maria de Lourdes Teixeira, aos seus pés, na cadeira de palhinha de pernas serradas, livro aberto, lendo em voz alta. Próximo o menino, recostado no sofá Thonet, entre a vigília e o sono, ouvindo, ouvindo..." Em São Paulo, metia-se na biblioteca familiar, para ele "um continente" em cada prateleira.
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Conheceu Maria Eugênia de Araújo na festa de aniversário de sua prima, quando tinha 19 anos e ela 16. Quando terminou o curso de Direito na Faculdade São Francisco, em 1948 aos 23 anos, os dois casaram-se. No ano seguinte passou no concurso para promotor público, carreira que iniciou em municípios do interior como Taubaté, Rancharia, Jaboticabal e São José do Rio Preto - localidades que eram, num tempo de conflitos fundiários e populações migrantes, verdadeiras Dodge Cities tupiniquins, para as quais ele se mudou com a primeira filha, Maria Silvia, ainda bebê.
Rubens costumava nos falar de sua carreira no ministério público, mas sem nunca se gabar. Gostava especialmente de lembrar-se do tempo que deu aula de Direito Internacional Privado, Processo Penal, Sociologia Jurídica e Criminologia no Mackenzie, e nas Faculdades de Direito de Sorocaba e São Bernardo do Campo. O obituário da Academia Paulista de Letras publicado no Estado de S. Paulo de 18 de agosto revela um currículo impressionante: "Promovido por merecimento a procurador de Justiça e eleito para a Corredoria Geral do Ministério Público", além dos 22 anos de magistério.
Com mãe ficcionista e jornalista cultural - Maria de Lourdes (1907-1989) é autora dos romances Raiz Amarga (1960), A Virgem Noturna (1965), O Pátio das Donzelas (1969) e A Ilha da Salamandra (1976), entre outros -, Rubens teria no padrasto José Geraldo Vieira (1897-1977) outra influência literária. Vieira é autor dos romances Território Humano (1936), A Quadragésima Porta (1943), O Albatroz (1962), Brasília (1966) e Mais que Branca (1975), entre outros livros de contos e poemas. Ambos pertenceram à APL.
Em 1958 Scavone publicou O Homem que Viu o Disco-Voador, obra inaugural do que ficou conhecido como "Primeira Onda da FC Brasileira". Na década de 1990, fiz uma tentativa frustrada de republicar esse romance pela editora de Henrique Flory. Scavone escreveu uma introdução em que contava as origens do romance, que chamava de uma "aventura de Júlio Verne". Também contou por que ele optou pela idéia dos alienígenas intraterrestres como emprego de uma crença (que não era dele) mística em voga na época, e que também havia impressionado Jerônymo Monteiro em A Cidade Perdida (1948).
Sobre o romance, o crítico Sérgio Milliet escreveu: "O autor, como sabe contar, com clareza, fluência e simplicidade, sem exagerar na pormenorização científica e sem descambar para o absurdo, dá-nos um romance movimentado e de leitura agradável." E Almiro Rolmes Barbosa disse que, com sua publicação, "o gênero denominado 'ficção científica' integra-se definitivamente em nossa literatura".
Seguiu-se outro romance, dentro daquilo que o próprio Scavone chamou de "didatismo": Degrau para as Estrelas (1961), seu primeiro texto ficcional que também dava conta de sua vivência de promotor público, como um subplot de mistério, em meio ao enredo que resumia os avanços da Astronáutica.
Scavone fez parte da "Geração GRD", termo criado pelo crítico Fausto Cunha para designar o grupo de autores publicados pelo editor baiano Gumercindo Rocha Dorea na década de 60. Com Dorea ele publicou O Diálogo dos Mundos (1965), coletânea de sete contos que se afastam do didatismo, buscando uma linguagem mais elaborada e a força da imagem poética, à maneira de Ray Bradbury, o autor estrangeiro de maior influência entre os brasileiros naquela época. Essa tendência estaria mais consolidada em Passagem para Júpiter (1973), com 11 histórias, algumas vistas no volume anterior. Um acréscimo instigante é "Especialmente, Quando Sopra Outubro", que selecionei para a antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica Volume 1, a sair este ano pela Devir. O conto chamou a atenção de Mário Donato, no discurso de recepção a Scavone, na APL, como indício dessa mudança de rumo: "não há máquinas (no conto), não há robôs pensantes, mas há, sim, apenas o inconsciente da menina Ângela, que era capaz de criar, só para si, bichos, feras, anões e flores fantásticas..."
Sobre Scavone, Fausto Cunha escreveu: "Concilia a poderosa qualidade literária com o domínio da técnica da ficção científica, e é hoje, como André Carneiro, um autor de nível internacional. Seu último volume de contos, Passagem para Júpiter, 1971, mostra um enriquecimento da temática e da linguagem narrativa, que já no Diálogo dos Mundos colocava num plano destacado. Anteriormente, Degrau para as Estrelas viera revelar sua vocação para o gênero."
Em Scavone, a Geração GRD realiza um de suas ambições, elevar o gênero por meio de um cuidado estilístico e de uma temática humanista, atenta ao psicológico - culmina com sua eleição para a APL: não é à toa que o discurso de Donato chamou-se "Uma Casa sem Preconceitos". "Quem a Academia não tinha entre os seus pares, até agora, era um autor de ficção científica", escreveu, "gênero para o qual os Srs. Críticos ainda torcem o nariz". E ainda: "Esta a ficção científica do Sr. Rubens Scavone. No centro dela está sempre, não o andróide, mas o homem mesmo, com os seus artefatos ou apesar desses mesmos artefatos."
Ensaísta, Scavone contribuiu com o "Suplemento Literário" do Estado de S. Paulo até que este fechou as portas, na década de 1990, aos colaboradores tradicionais - um baque para Rubens. Em 1963 seus artigos compuseram Ensaios Norte-Americanos, em que tenta desvendar - sem exageros teóricos, Deus o abençoe - o programa e a centralidade das produções de nomes como Herman Melville, Theodore Dreiser, John Dos Passos, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Arthur Miller, Richard Wright, Carson McCullers, Norman Mailer, William Faulkner e Ray Bradubury, num ensaio que ilustra o peso desse autor sobre ele e seus contemporâneos. Ler esse livro enquanto revisava o meu romance A Corrida do Rinoceronte me superar um bloqueio, e derramou sobre meu texto algo de suas considerações sobre a cultura americana.
Ainda adolescente em Sumaré, nos anos 80, pude ler alguns de seus artigos no Estadão e na Manchete. Uma batelada deles está em Faulkner & Cia. (1984), que inclui ensaios sobre George Orwell, Aldous Huxley, William Golding, Fred Hoyle e Júlio Verne. Outra, que enfatiza textos de divulgação científica e comentário cultural, está em Templários, Frankenstein, Buracos Negros e Outros Temas. O romance de Mary Shelley, aliás, era uma de suas paixões, e ele tencionava escrever um livro sobre o famoso workshop na Vila Diodati, em que Mary apresentou o esboço desse clássico de FC. No livro, mais ensaios sobre Verne, Robert A. Heinlein, Damon Knight (que ele conheceu pessoalmente) e outros de interesse para o leitor de FC. Com Fausto Cunha, Scavone foi um dos divulgadores da FC no jornalismo cultural brasileiro, na década de 1980. Ainda na década de 60, porém, editou para o Estadão um número especial do "Suplemento Cultura" sobre FC (em 25 de outubro de 1969), aproveitando o interesse em torno do Simpósio de FC que acontecera no Rio de Janeiro poucas semanas antes. Nele estão artigos do próprio Rubens, de André Carneiro, José Geraldo Vieira, Mário da Silva Brito e outros.
Em 1993 ele foi procurado por Wladimir Araújo, editor do D. O. Leitura, para escrever sobre a FC no Brasil, tarefa que passou para mim, ajudando-me também na minha atuação de articulista.
O sucesso do seu romance mainstream Clube de Campo (1973) parece ter sugerido a muitos que Scavone abandonara a FC em favor de gênero de respeitabilidade crítica. O fato porém é que ele já havia enveredado pelo mainstream antes: O Lírio e a Antípoda (1965) é um romance sobre o amor entre um brasileiro e uma jovem nipo-brasileira, tendo o bombardeio de Hiroshima como pano de fundo. Pode-se dizer que a elaboração estilística do mainstream e a sua ficção científica sempre estiveram próximos, e em O Lírio e a Antípoda Scavone parece tratar da mesma ansiedade sobre a Era Atômica que motivara o conto "A Evidência do Impossível" (1971), mas pelo ângulo do romance de exame psicológico.
Clube de Campo, que recebeu o Jabuti - o maior prêmio literário brasileiro - de melhor romance de 1973, é obra de comentário social em estrutura de mistério, em torno do assassinato de uma jovem num clube de campo. O pano de fundo aqui é a viagem da Apollo 11 à Lua. Chamou a atenção não apenas do júri da Câmara Brasileira do Livro, que lhe conferiu o Jabuti, mas do crítico Wilson Martins, que apontou que "Rubens Teixeira Scavone escreveu o romance policial com estilo literário, acréscimo nada desprezível numa espécie em que a carência estilística é quase uma prova de autenticidade. Para ele o romance é uma arte - uma das artes de literatura que fixam, em cada momento dado, o nível da força criadora de um povo." Hélio Pólvora saudou o romance com: "O toque policial, o toque à ficção científica, o exame minucioso de um corte transversal da sociedade, à maneira contrapontística celebrizada por Aldous Huxley. Scavone escreve fluentemente, com graça e leveza. Sua prosa tem uma espontaneidade até certo ponto espantosa..." E Homero Silveira enxergou o Scavone de Clube de Campo desta maneira: "Com inegável garra balzaquiana e forrado de material farto e bem elaborado, senhor de um senso de observação e de crítica invulgar entre nós, dono de uma linguagem forte, de uma estrutura narrativa exata, tem tudo o escritor paulista para um levantamento preciso e honesto da tragicomédia humana em que nos movimentamos."
Parece, portanto, que ele já conscientemente diluía os limites entre literatura de gênero e o mainstream, anos antes disso se tornar um dos bordões dos jovens escritores da Segunda Onda da FC Brasileira.
Rubens Teixeira Scavone o escritor, Rubens Teixeira Scavone o homem. Sua partida deixa cicatrizes nos corações de quem o conheceu. Nele, a erudição não servia ao impulso baixo da projeção do ego nem à tendência intelectual de tentar controlar a realidade por força de uma retórica que deseja nos enganar em nossa inerente fragilidade humana. Nele, a literatura era uma paixão que acendia à luz de seus olhos, mesmo depois dos setenta anos. Nele, a ficção científica era o lar último de um dos mais nobres - e mais relegados hoje em dia - valores literários: a imaginação. Em tudo nele, a erudição, a arte literária e a imaginação da ficção científica eram um meio de dirigir um olhar maravilhado ao Universo.
Num ambiente em que a egomania e a falta de solidariedade é constante, Scavone foi a pessoa mais generosa que minha esposa e eu conhecemos, em décadas de atividade literária.
Recentemente foi redescoberto, com André Carneiro e outros, em seu papel de pioneiro da fotografia artística no Brasil, por meio da exposição "Fragmentos: Modernismo na Fotografia Brasileira", montada pela Galeria Bergamin em abril e maio deste ano. Uma de suas fotos exposta plasmava essa lição que ficou comigo, de Rubens Scavone, o escritor de ambição mas sem presunção literária, justamente de que o homem de letras é esse olhar do homem transformado pela literatura até tornar-se um agente dela: uma constelação de balões semi-transparentes, pairando contra um céu abissal, fulgurante mesmo em preto e branco. O olhar que mira os balões, de baixo para cima a partir do feixe de cordas que os sustentam, parece ser límpido e sorridente, como o de um menino que mira o infinito sem vacilar. Os balões pedem para serem soltos um segundo depois do clique da câmera. Rubens certamente voou com eles.
Terra Magazine