
Roberto de Sousa Causo
O Fim da Aventura Márcio ScavoneJosé Geraldo Vieira em prefácio para Diálogo dos Mundos.
Meu pai partiu arrastando quem o amou e conheceu neste fio de nylon.
Meu pai partiu para o seu litoral de Aevum nos olhando nos olhos como só ele sabia fazer.
No bolso do seu terno, se procurarmos bem, muito bem dobrado dentro de um envelope pardo, um bilhete, sua "Passagem para Júpiter".
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Ternura Sob a Erudição
José Renato NaliniRubens Teixeira Scavone se foi. Partiu na tarde de 17 de agosto de 2007 e alçou o etéreo, no seu vôo de ficcionista da ciência. Pioneiro nessa trilha, como o foi em tantas outras, seu legado imenso merecerá profundas e sucessivas incursões. É inesgotável o acervo da produção intelectual desse acadêmico que presidiu a Academia Paulista de Letras num de seus mais fecundos períodos.
Ensaísta, romancista, contista, literato que não hesitou em militar na crítica literária e das artes plásticas, foi pioneiro na ficção científica e nunca abandonou o jornalismo. Conciliou a seara literária com notável carreira no Ministério Público bandeirante e foi eleito Corregedor Geral do Parquet. Ali imprimiu tonalidade avançada para uma função nem sempre bem compreendida até por quem a exerce.
Todas as externalidades de Rubens Teixeira Scavone merecem análise dos seus coetâneos e da posteridade que melhor poderá aquilatar a dimensão de sua obra e o inexcedível talento de que foi provido.
Modestamente, só posso me ater a outros atributos, por certo desconhecidos de quem não fruiu de sua amizade. Fui privilegiado com o prêmio do convívio propiciado por certa intimidade com familiares seus, longevamente cultivada por mais de uma geração. Após nos aproximarmos, não tardou e a afeição fez sua parte. Descobri no erudito ficcionista, no proficiente Corregedor Geral do Ministério Público, um ser humano sensível, emotivo, cuja timidez não conseguiu disfarçar a ternura.
Abria-se em confidências, partilhava os mergulhos literários que davam origem a um ciclone em sua mente inquieta. Não omitia os devaneios, os projetos e o sonho perene, alavanca para os saltos ficcionais perpetrados e para os milhares de outros meramente virtuais.
Descobria autores novos ou redescobria os antigos e não descrevia sua sensação, mas somente depois de estimular o interlocutor à leitura é que cotejava a tonalidade do experimento.
Devotou-se, durante os últimos anos, a uma obra interrompida - talvez o filho Márcio possa dar-lhe desfecho e publicação - que era a memória ficcional da família Scavone. Desde a Província de Tito, tantas vezes revisitada, aos empreendimentos fabris e bancários no Brasil, ao feitio novo de formar propriedades rurais. A sede do conhecimento, sem perder as raízes peninsulares.
Poucos conheceram a privacidade dos sentimentos desse intelectual de exuberante massa humana. Do homem capaz de marejar os olhos após uma leitura, de verter lágrimas quando alguém conseguisse detectar a intenção nem sempre escancarada do ficcionista.
Quem atingiu
esse patamar de convivência tem convicção de que a morte não destrói
a obra imperecível. Sabe que os mortos só morrem de verdade quando
nos esquecemos deles, como costumava dizer sua mãe, a romancista Maria
de Lourdes Teixeira. Todavia, mesmo nutrido dessa crença, continua
incapaz de dominar a tristeza tão própria à nossa pobre espécie.
A melancolia de quem não mais ouvirá a voz, não tocará as mãos,
nem sentirá sobre si a grandeza terna do olhar de Rubens Teixeira Scavone.
- José
Renato Nalini, Presidente da Academia Paulista de Letras
É uma perda para a nossa literatura o desaparecimento do escritor Rubens Teixeira Scavone. Especialmente para aqueles que apreciam o gênero do fantástico ou da ficção científica. É curioso, quando ele publicou O Homem que Viu o Disco Voador, o preconceito contra o gênero ainda não havia chegado às proporções que tomou depois.
O livro de Scavone, como trabalho literário, chegou a ser julgado e bem comentado pela crítica. Infelizmente nunca perguntei ao amigo Scavone por que, praticamente, depois deixara de escrever sobre essa coisa tão óbvia que é imaginar entre três trilhões de galáxias, como afirmou Stephen Hawking, a certeza de haver outras habitadas, além desta terra insignificante. Foi pouco depois do surgimento do romance de Rubens Scavone, que David Lincoln Dunbar escreveu sua tese de doutorado para a Universidade do Arizona, sobre a ficção científica brasileira. Naquele tempo não havia em todas as universidades deste país, nem uma tese de mestrado ou doutorado sobre o assunto. Para os críticos acadêmicos, Admirável Mundo Novo era um excelente romance. FC começava a ser usada para designar HQs e filmes B sobre alienígenas.
Felizmente,
hoje as nossas Universidades já possuem centenas de teses sobre o assunto.
Mas Rubens Scavone já não mais está aqui para abrilhantar com sua
criatividade e competência, o gênero cuja infeliz denominação o
coloca de lado em muitos estudos didáticos.
- André
Carneiro
Estive duas
vezes com Rubens Teixeira Scavone. A primeira numa sexta-feira chuvosa
em julho, e a segunda na II InteriorCon -, em 15 de novembro, ambas no
ano de 1991. Na primeira vez foi em sua residência e estavam lá comigo
o Roberto Causo e o R.C. Nascimento. Me foge agora o motivo da visita,
mas lembro que fomos muito bem recebidos, ele autografou seus livros,
me presenteou com o seu premiado romance Clube de Campo e falamos
sobre ficção científica e literatura em geral por um bom par de horas.
Não li toda a obra dele, mas destaco sua sensibilidade e ao mesmo tempo
apuro técnico em histórias de ficção científica hard, além
da grande erudição e talento literário, como demonstrado na novela
O 31.º Peregrino, um dos melhores e mais ambiciosos livros da história
da nossa ficção científica. Scavone foi também importante durante
os anos 60, e chegou a ter o seu primeiro romance, O Homem que Viu
o Disco Voador, como um campeão de vendas e reeditado várias vezes.
Fica a força de sua literatura, que mescla sentimentos humanos -
que por vezes lembra um Bradbury - além da busca de uma voz própria
e muito pessoal sobre a condição futura da humanidade e seu destino,
afinal um dos maiores desafios da ficção científica.
- Marcello
Simão Branco
Terminou em 17 de agosto a trajetória de um viajante que visitou lugares neste Universo tão distantes quanto sua alma peregrina ousou imaginar.
Lembro-me, ainda adolescente, quando entrei em contato com sua literatura. Um escritor brasileiro de ficção científica! Sua foto na contracapa me fez lembrar parentes italianos. Sua classe e seu ar aristocrático levaram minha imaginação a compará-lo a um príncipe. E sua literatura sonhadora, inteligente e romântica, me conduziu sem esforço a seus mundos distantes.
Não deu outra: me apaixonei!
Muito tempo depois, em companhia do então namorado, e atual marido, Roberto Causo, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Ele era modesto em sua erudição, cultura e fineza no trato e na aparência. Um príncipe.
Depois, quando tive o privilégio de visitá-lo em sua residência, pude entrevistá-lo para o fanzine Somnium. Ele foi gentil e contou, entusiasmado, casos da infância e da juventude, e da sua atividade como promotor de justiça no Interior de São Paulo. Falou dos pais, sobretudo da mãe escritora e do padrasto erudito e admirado. Falou com orgulho dos filhos e dos netos. Comentou nossos escritos (meus e do Causo) e demonstrou então sua enorme generosidade. Em sua presença sentíamos tanta alegria e acolhimento, que ficava difícil nos despedirmos dele.
Há vários anos, Scavone ficou doente e foi aos poucos se despedindo deste mundo. Mas sua presença e calor humano nunca abandonaram quem gostava dele.
Agora ele
partiu para sempre. É difícil despedir-se dele.
- Finisia Fideli
Terra Magazine
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Cesar Silva/Reprodução
Scavone em 1987
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