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Terça, 28 de agosto de 2007, 08h10

Segredos da quitanda

Antonio Luiz M. C. Costa

"Por que o caroço do abacate é tão grande?", pergunta a menina. "Por que sim, oras!", responde a mãe, carinhosa, mas pouco interessada. Mas a questão é mais instigante e complicada do que parece. Do ponto de vista da sobrevivência da espécie, o abacate parece uma planta muito mal planejada.

Em geral, os frutos carnosos e nutritivos existem porque facilitam a dispersão das sementes por seus apreciadores. Quem cresceu em fazenda e gostava de chupar laranja ou de comer goiaba muitas vezes teve a oportunidade de ver um ou mais pezinhos de sua fruta favorita crescerem junto do canto no qual cuspia os caroços.

Animais, em geral, devoram os frutos inteiros. Mas os pássaros, jabutis, macacos, serelepes e outros bichos que comem os frutos espalham as sementes para todos os cantos possíveis do seu hábitat ao defecar, aumentando as chances de as sementes encontrarem locais favoráveis para crescerem e multiplicarem a descendência da planta-mãe. Há mesmo espécies de plantas cujas sementes só conseguem florescer depois de passar pelo sistema digestivo de algum animal, na ausência do qual correm o risco de se extinguir.

Mas e o abacate? Seus frutos, gordurosos e ricos em calorias, são saudáveis e muito nutritivos para os humanos, a maioria dos quais os aprecia em saladas e pastas salgadas (como a guacamole dos mexicanos) - para surpresa de muitos brasileiros, o único povo sobre a face da terra que tem o exótico hábito de consumir abacate em cremes e vitaminas doces.

Quando não são recolhidos por humanos, porém, o destino usual dos mais de cem abacates que uma única árvore pode produzir a cada ano é simplesmente cair e apodrecer junto à raiz do abacateiro, sem colaborar em nada com a preservação da espécie. Para muitos animais, os abacates são indigestos e às vezes até perigosos. De qualquer forma suas sementes são grandes demais para passar pelo sistema digestivo de qualquer animal de suas terras de origem, o México e a América Central, ou de qualquer parte das Américas.

Em 1982, dois ecologistas - Dan Janzen e Paul Martin - resolveram levar a sério a pergunta que só uma criança teria coragem de fazer e chegaram a uma conclusão curiosa. Sugeriram que abacate, junto com muitos outros frutos tropicais, enviuvou - recentemente, em termos evolucionários - de um casamento que durou centenas de milhares de anos. Mais recentemente, Connie Barlow escreveu todo um livro, Ghosts of Evolution (Fantasmas da Evolução), no qual divulgou e desenvolveu a idéia.

Hoje, só na África - onde a planta só chegou nos tempos modernos -, o abacate, vez por outra, volta a encontrar uma parceria natural e seguir a carreira usual de um fruto que se preze: elefantes o devoram inteiro, para depois eliminar o caroço junto com uma respeitável pilha de esterco.

Há dez mil anos, porém, a mesma cena, ou outra muito parecida, deve ter sido comum também nos trópicos americanos. Havia muitas espécies de grandes animais, tanto ou mais que na savana africana moderna. Os gliptodontes e dedicuros, primos do tatu, eram maiores que búfalos, as macrauquênias esticavam os pescoços quase tanto quanto as girafas, os toxodontes faziam as vezes de rinocerontes sem chifres e havia preguiças gigantes de várias espécies, variando do tamanho de ursos até colossos (os megatérios) maiores que os elefantes ou que seus parentes próximos, os mastodontes, que viviam em grandes números na América do Sul e Central.

Ou seja, o caroço do abacate é assim tão grande porque o fruto era para ser comido inteiro por algum desses animais - mastodontes ou, talvez, alguma das espécies de preguiças gigantes. Não pela fauna comparativamente medíocre que restou nas regiões tropicais das Américas depois do fim da Idade do Gelo, que não inclui nada mais grandioso que uma anta.

A razão dessa extinção ainda não foi definitivamente estabelecida. Os suspeitos usuais, naturalmente, são os humanos: nas Américas, assim como na Austrália, na Nova Zelândia ou em Madagascar, todos os animais de grande porte desapareceram precisamente quando o Homo sapiens deu as caras.

Por que, na África e Ásia, alguns deles sobreviveram até os dias de hoje - apesar de estarem, quase todos, ameaçados de breve extinção? Porque gênero humano evoluiu mais gradualmente nesses continentes. A fauna de grande porte evoluiu junto com os Australopithecus, o Homo habilis, o Homo erectus e o Homo sapiens: fez o maternal, o fundamental, o curso médio e o universitário de sobrevivência na civilização. Algumas espécies conseguiram aprovação, adaptando-se mais ou menos aos comportamentos e estratégias humanas - até surgirem as armas de fogo e o capitalismo industrial, bem entendido.

Já a megafauna dos outros continentes, inclusive as Américas, foi apanhada de surpresa pela chegada do Homo sapiens totalmente evoluído, tanto quanto os ameríndios ao serem invadidos pelos europeus, cerca de dez mil anos depois, segundo Jared Diamond, em Armas, Germes e Aço.

Uma teoria alternativa, proposta pelo pesquisador Mario de Vivo, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), com a colaboração da bióloga e estudante de doutorado Ana Paula Carmignotto, sugere que as mudanças climáticas do fim da Idade do Gelo, que resultaram em aumento das chuvas na América do Sul e substituição de grande parte das savanas habitadas pelos maiores animais por florestas - coisa que não aconteceu na África na mesma escala -, foi o fator decisivo dessa extinção.

Mas por que a megafauna da América do Norte desapareceu ao mesmo tempo? E por que outras mudanças climáticas do passado americano não tiveram o mesmo efeito devastador? É de supor que a perturbação do ambiente causada pelo Homo sapiens teve um papel, sem o qual a extinção não teria sido tão completa.

De qualquer forma, o abacate não foi a única fruta a perder seu parceiro evolutivo: outras frutas das Américas muito grandes, ou com sementes grandes ou outros aparentes empecilhos à reprodução, incluindo o mamão, a jaca e a pupunha, também devem ter passado pela mesma crise existencial, até serem adotadas pelo possível responsável pelo desaparecimento dos grandes animais que as devoravam e sem os quais suas vidas parecem não fazer sentido. A fruteira da sala pode revelar segredos surpreendentes e até evocar os fantasmas de enormes feras desaparecidas.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
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É preciso invocar fantasmas de gigantes do passado para entender as nossas fruteiras

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