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Quarta, 29 de agosto de 2007, 10h50

'Cultura é arma contra a ignorância e a pobreza'

Deolinda Vilhena

Sou jornalista desde junho de 1983. Façam as contas e vejam que as Bodas de Prata se anunciam... Entretanto, a paixão pelo teatro aliada à incapacidade de escrever um determinado número de linhas, num tempo pré-estabelecido e/ou determinado pelo clima de loucura que se instala num jornal em hora de fechamento, contribuíram, em muito, para que eu não fizesse carreira na minha formação primeira. Escrever acabou se tornando meu passatempo favorito, mas não profissão. O que me impediu de viver o dia-a-dia dos verdadeiros jornalistas. Como por exemplo, participar de uma coletiva.

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» Galeria de fotos Ariane Mnouchkine no Brasil

Em 24 anos perdi a conta das coletivas que organizei, mas foi preciso esperar esses mesmos 24 anos para viver a experiência da primeira coletiva como jornalista. Devo agradecer aos deuses, do jornalismo e do teatro. A hora chegou e foi como colunista de Terra Magazine e repórter especial do Jornal do Brasil que participei, com muito orgulho, da entrevista coletiva concedida por Ariane Mnouchkine à imprensa brasileira para falar da primeira visita à América Latina do Théâtre du Soleil com o espetáculo Les éphémères. Ainda que, paradoxalmente, o convite tenha sido feito a Deolinda Vilhena assessora de imprensa nacional do Porto Alegre em Cena. Por quê? Por uma deferência do SESC-SP, parceiro do festival nessa empreitada que é a visita do Théâtre du Soleil ao Brasil e organizador da coletiva. Afinal quem, senão Danilo Miranda, poderia convencer Ariane a antecipar em um dia o final de suas férias em território brasileiro e trazê-la para uma coletiva?

Na sala reservada para o encontro, além dos jornalistas, alguns dos nossos grandes diretores de teatro, Antunes Filho, Cacá Carvalho - tão papaxibé quanto eu -, Gabriel Villela - nosso reencontro ainda termina em casamento! -, Eduardo Tolentino, que eu, precocemente esclerosada e em mais uma de minhas gafes pós-Paris, não reconheci; o pessoal do serviço cultural do Consulado da França, Jean-Martin Tidori e Philippe Ariagno, que já são figuras conhecidas dos leitores da minha coluna... todos esperando a chegada de Ariane, que terminava a visita técnica ao canteiro de obras da futura unidade do SESC Belenzinho, dentro do qual está sendo preparada uma área de 3.100 metros quadrados, que incluirá espaço cênico montado sob uma gigantesca tenda, restaurante, área de circulação e serviços.

A opção da tenda já foi utilizada pelo Théâtre du Soleil em suas apresentações em diversos lugares, as mais recentes experiências foram na Villa Borghese em Roma e no Damrosch Park em Nova Iorque. Inicialmente seria também a opção adotada por Porto Alegre, mas Luciano Alabarse e Rodrigo Lopes só sossegaram quando encontraram um antigo galpão na periferia de Porto Alegre que responde às exigências técnicas da companhia - e que os leitores de Terra Magazine podem conferir em primeira mão na Galeria de Fotos - e que, alugado pelo Em Cena há dois meses, está sendo restaurado para receber Mnouchkine e sua trupe. Num lugar que chamo, para desespero de alguns, de Cartoucherie do Guaíba.

O ambiente que reina na sala é de encontro de velhos amigos, quando Ariane Mnouchkine entra, sorridente, bem disposta, de branco vestida e acompanhada pelo anfitrião de todos nós, Danilo Miranda, que diz dos esforços empreendidos desde o "século passado" para trazê-la ao Brasil. Seguem-se os agradecimentos de praxe e é dada a largada para a minha primeira coletiva...

Começamos pelo começo, a primeira pegunta diz respeito ao título do espetáculo: por que Les éphémères? E, antes mesmo de ouvir a resposta, penso na Grande Soirée préparatoire de 20 de outubro de 2006 na Cartoucherie, quando cerca de 400 pessoas aceitaram o convite para vir conversar com Ariane e companhia sobre o espetáculo, que nesse momento estava ainda em criação... Nesse dia a primeira pergunta foi também sob o título, que na época, a pouco mais de dois meses da estréia, não estava definido, para desespero de Lili, Sylvie e Elaine, que fazem parte do "bureau" do Théâtre du Soleil e que sempre perguntam a Ariane se já que elas não podem contar do que se trata o espetáculo, será que elas poderiam saber pelo menos o título. Ao ouvir as perguntas, em Paris e em São Paulo, Ariane primeiro riu... título no Soleil é sempre sinônimo de uma longa travessia até se definir. Les éphémères primeiro foi Vivre (Viver) mas esse era também o nome do livro de um filósofo não muito apreciado pelo grupo, e não vingou. Les éphémères acabou vencendo como um manifesto em solidariedade à efemeridade e à brevidade de nossas vidas na história do planeta, "os efêmeros somos nós", diz Ariane.

Ouso fazer minha primeira pergunta, quero saber como ela acha que vão reagir os brasileiros conhecedores do Soleil, para quem o grupo é sinônimo de um teatro engajado nas grandes lutas do mundo, ao verem o novo espetáculo, que fala do íntimo e que em momento algum recorre ao espetacular ou ao épico, marca da companhia.

Ariane volta um pouco no tempo e fala do espetáculo anterior, Le dernier caravansérail, segundo ela depois de fazer um espetáculo que falava da maldade humana, da capacidade que os homens têm de fazer sofrer uns aos outros, e da capacidade que alguns homens têm de maltratar as mulheres, ela apresentou ao grupo a proposta de fazer um espetáculo que falasse da beleza e da bondade humanas, mas para falar disso ela sentiu que precisava falar da perda porque só no momento da perda comprendemos o valor do que perdemos. Mas ela acredita que, mesmo sem levantar bandeiras nesse espetáculo, ele traz em si um combate: "o amor é um tipo de combate, tem momentos em que as pessoas fazem coisas que não são nada políticas mas cuja repercussão será forçosamente política e cita como exemplo os que salvaram judeus na Segunda Guerra não por ideologia mas por amor ao homem". E constata, ao expor as partículas mais íntimas, a existência de um íntimo coletivo porque "quanto mais íntimo, mais o espectador se reconhece".

E por falar em coletivo... Mnouchkine afirma não imaginar outra forma de teatro que não seja o trabalho coletivo: "eu não vejo realmente outra maneira de fazer. Um bom espetáculo é normalmente um trabalho de equipe, porque um bom trabalho é a reunião do melhor de cada um dos envolvidos no trabalho. Les éphémères e Le dernier caravansérail trouxeram para a trupe o cenário coletivo, com o figurino e a maquiagem sempre foi assim, mas hoje não há mais fronteiras entre o cenário, o figurino, a música".

As questões ligadas à política permeiam a conversa. De repente questiona-se o afastamento da arte da política em benefício das boas relações com o mercado. Ela se recusa a emitir uma opinião sobre o Brasil por desconhecer totalmente a realidade brasileira, mas diz que no seu país, a França, "ainda existe muita gente, mesmo nos órgãos governamentais que luta para manter aceso o desejo da arte, da cultura, da civilização o mais longe possível do mercado". E ela frisa que faz questão de dizer "AINDA" porque o mercado poderia, na França como em outros lugares, conquistar mais espaços. "Nem tudo na globalização é ruim, mas os nossos maiores inimigos somos nós mesmos quando nos deixamos levar pelo derrotismo, pela resignação, pelo desencantamento ou no outro extremo quando nos tornamos superradicais, logo, mortíferos..."

Segundo Mnouchkine, o Théâtre du Soleil faz parte de um grupo que, desde sempre, luta para manter a cultura eternamente popular e acessível ao maior número possível, pois acreditar que "a cultura é uma arma contra a ignorância, portanto, contra a pobreza..."

Diante de Mnouchkine é praticamente impossível não pensar em Jean Vilar. Modestamente ela aceita carregar a herança do criador da frase "um teatro serviço público, como a luz e o gás", mas diz que não cabe a ela decidir se eles são os filhos de Vilar... Confessa esperar "muito que sejamos os filhos de Jean Vilar, mas em todo caso, os herdeiros com certeza". Completa o raciocínio dizendo que para ela "Vilar era muito mais um pensador que um grande diretor. Ele pensava o teatro como um instrumento de civilização do espírito, uma espécie de musculação da imaginação. Para mim, a musculação da imaginação é muito política."

Comenta até onde pode chegar a falta de "musculação imaginativa" contando ter lido recentemente a respeito do julgamento de Adolf Eichmann, em Israel, por crimes contra os judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, cuja defesa consistia em dizer apenas que seus atos foram resultados de cumprimento de ordens superiores, algo como, "me mandaram preparar o plano de exterminação dos judeus da Europa e eu fiz muito bem feito o que me mandaram fazer", ou seja, apenas um militar que cumpria ordens sem racionalizar suas conseqüências.

E cita Hannah Arendt, autora de Eichmann em Jerusalém (Eichman in Jerusalem : A Report on the Banality of Evil, New York, The Vinking Press, 1963), criadora da expressão "banalidade do mal", que em suas análises atribuía a Eichmann "uma ausência total, patológica, de falta de imaginação, ela liga a responsabilidade à imaginação, sem imaginar as conseqüências e nossos atos, não imaginamos o outro, e o teatro é isso, imaginar o outro, ser responsável pelo outro, inclusive do íntimo".

Quanto ao paradoxo de um espetáculo que fala do efêmero ter sete horas e meia de duração, Mnouchkine explica: "isso é fruto de duas apostas, a primeira foi a da semelhança os atores vinham e faziam uma proposição de improvisação já bem adiantada, e muitas vezes eu me arrepiava e chorava, e me disse então: se eu choro o público também vai chorar. A segunda aposta vem do fato de que após oito meses de ensaio eu ainda podia suportar essas sete horas sem me entendiar nem um segundo, ainda que eu deva dizer aqui entre nós que muitas vezes, durante um espetáculo de uma hora e meia eu me entedio bastante. No nosso próximo encontro vocês vão me dizer se nós ganhamos essa aposta com os brasileiros". Aliás, em relação ao público brasileiro, tudo o que ela espera é "que eles nos compreendam, nos amem e se reconheçam em nosso espetáculo".

Como não podia deixar de ser, alguém pergunta sobre os conhecimentos de Mnouchkine sobre o teatro brasileiro e se existe mundo afora algum ator, algum diretor, algum grupo que ela admire. Mais do que depressa ela interrompe para responder a primeira parte da pergunta e diz reconhecer "humildemente, que viu muito pouco do teatro brasileiro". Em seguida afirma: "meus mestres continuam meus mestres, ou seja todo o teatro tradicional asiático, mas há pessoas que me fascinam, como por exemplo Robert Lepage. Ele é um grande pesquisador do teatro e, como todo grande pesquisador ele pode se enganar, mas quando ele não se engana e ousa atravessar o deserto, seus espetáculos me soam como portas que se abrem, uma aqui, outra lá, quando na maioria dos casos portas se fecham."

Uma hora cravada e sinto que a coletiva se aproxima do fim. Um filme dos últimos sete anos da minha vida passa na minha frente. Sete anos durante os quais pesquisar o Théâtre du Soleil era um permanente encontro com as idéias de Ariane. Colecionar suas frases tornou-se um hobby. Relembro sua recusa em ceder aos convites e institucionalizar o Soleil. Ela, contra a instituição, se colocou à margem porque acredita que é onde pode criar melhor, sem jamais ser marginal, pois diz que no Soleil ninguém é SDF (sem domícilio fixo), nem sem salário... de repente me lembro dos prêmios recebidos, das condecorações, e faço uma pergunta-retrospectiva: "ao longo da sua vida, Ariane, você recebeu muitos prêmios e muitas homenagens. Em 1964 você foi indicada para o Oscar de melhor roteiro de filme estrangeiro pelo Homem do Rio, de Claude Brocca. Em 1978 foi a vez de ser indicada para o César, com Molière. Sem contar os incontáveis prêmios de teatro com a companhia. Mas de uns anos para cá sinto que além dos prêmios existe uma certa necessidade das instituições em reconhecer o seu trabalho. Em 2005 você recebeu o título de Doutor Honoris causa da Universidade de Roma, em novembro de 2006 você foi eleita pela assembléia de professores do Collège de France professora titular da cadeira de Criação artística para o ano letivo 2007-2008 e, agora no final do mês de julho, você recebeu o Leão de Ouro, da Bienal de Veneza, pelo conjunto da sua obra. Será que no dia 13 de março, dia da sua aula inaugural no Collège de France, nós poderemos dizer que Mnouchkine finalmente cedeu e entrou na instituição?"

A resposta foi "não". Primeiro diz que o prêmio que a deixou mais orgulhosa foi quando viu uma foto do Théâtre du Soleil num livro didático, porque a fez pensar nos livros da sua infância quando ela via fotos de Jouvet e Vilar. "Fiquei tão orgulhosa que eu não podia nem passar pela porta."

Confessa que se sentiu honrada quando recebeu o convite dos professores Mireille Delmas-Marty e Alain Berthoz, mas explicou também que não era capaz de dar um curso magistral. Chama a minha atenção dizendo que não preciso exagerar - "serão apenas 18 horas de curso e eu darei apenas a aula inaugural no Collège de France e as outras duas no Théâtre du Soleil". Na verdade, além da aula inaugural - tradição do Collège de France - no anfiteatro Marguerite de Navarre, Mnouchkine dará uma segunda no dia 14 de abril de 2008, na mesma sala.

Ariane faz questão de dizer que o Collège de France não é qualquer instituição. Ela tem razão. Desde 1530, sob François I, o Collège de France construiu uma história que faz dele uma instituição singular na França e, provavelmente, no mundo. Pois é o único lugar que conheço onde qualquer clochard parisiense pode assistir a um curso ao lado dos outros alunos sem ser incomodado. Além disso, não há lugar para matrículas, nem inscrições, nem diplomas. No entanto, ali lecionaram homens como Raymond Aron, Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Jerzy Grotowski, Marcel Mauss, Maurice Merleau-Ponty, Paul Valéry. Só para citar os mais próximos da gente. E eles ainda têm Pierre Boulez e Claude Lévi-Strauss como professores honorários.

E antes de terminar, a resposta e a entrevista, ela diz sorrindo: "Deolinda, o problema não é esse - entrar na instituição - o problema é eu conseguir escrever essa lição!"

Se ela conseguirá ou não escrever essa lição, só poderei contar a vocês em março de 2008, que eu não quero perder essa aula por nada, mas por enquanto preparem-se para receber Les éphémères e compreender que o bom teatro é aquele que a gente nunca esquece. Aquele que a gente ri, chora, contrariando os que pensam que a emoção bloqueia a reflexão, para os quais Ariane deu um recado em entrevista ao Le Monde datada de 19 de julho de 2007: "nenhum pintor, nenhum romancista, nenhum poeta, nenhum escultor de importância colocou a questão nesses termos. É uma falsa questão. Que esses intelectuais autoproclamados passem primeiro pela emoção, depois veremos se essas idéias se mantém".



Serviço LES ÉPHÉMÈRES:
Porto Alegre

14º Porto Alegre em Cena

Onde: Galpão Humaitá (r. Frederico Mendez, 346)
Quando: 27 a 30 de setembro
Quanto: R$ 20 e R$10
Duração: 3 h e 15 min. (uma parte, com intervalo de 15 min.) e 7 horas e 30 min. (integral; intervalo de 1 hora)

Vendas: de 2 a 22 de setembro no escritório municipal de turismo (www.portoweb.com.br/centraldeingressos)

Informações: (51) 3212-3464 e (51) 3212-2432
Site: www.poaemcena.com.br

São Paulo

Onde: Sesc Belenzinho (av. Álvaro Ramos, 915)
Quando: 12 a 23 de outubro
Quanto: de R$ 10 a R$ 40 (cada parte); de R$ 17,50 a R$ 70 (integrais)

Vendas: em todas as unidades do Sesc, a partir de 13 de setembro

Informações: (11) 3871-7720
Site: www.sescsp.org.br/ephemeres


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

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Sesc SP/Divulgação
Ariane Mnouchkine, fala à imprensa sobre a primeira visita à América Latina do Théâtre du Soleil com Les éphémères

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