
Antonio Risério
A exposição de coisas de Anton Walter Smetak, no Solar do Unhão, joga a gente num túnel do tempo. O tcheco Tak Tak, como o chamávamos, filho de um professor de cítara e de uma cigana, que se naturalizou suíço, que se naturalizou brasileiro... e aqui andava em sua moto, uma bmw preta, a que chamava "a prostituta da Babilônia". Smetak e suas "plásticas sonoras". Suas esculturas que soam (cheguei a tocar a ronda, numa apresentação dele no Teatro Vila Velha). Smetak e suas viagens microtonais.Tak Tak speaking: "Desde que vim para o Brasil, tenho enfrentado grandes obstáculos. Quando cheguei, por exemplo, a orquestra sinfônica de Porto Alegre, que me havia contratado, se dissolvera. De qualquer forma, concluí que era preferível envolver-me com a desordem e a liberalidade dos trópicos do que me submeter às misérias européias semeadas por Adolf Hitler. Para sobreviver no Rio e em São Paulo, tornei-me músico profissional: toquei em festas, cassinos, orquestras de rádio; acompanhei cantoras estrangeiras e até Carmen Miranda. Afinal, o que eu poderia esperar se Silvio Caldas era a melhor coisa que existia para o gosto da época? Encerrei minha carreira de violoncelista num concerto vanguardista do maestro Hans Joachim Koellreutter, que me levou para o Seminário de Música da Bahia, onde iniciei propriamente minhas pesquisas. Na verdade, eu estava com novas preocupações na mente e havia consolidado a certeza de que o Brasil é a terra das impossibilidades possíveis, onde futuramente se materializará uma nova ordem e lógica".
Era preciso criar novos instrumentos para uma nova música. Para um novo som. "O que aconteceu talvez é que me interessa muito mais o mistério do som que o da música. Tenho procurado diferenciar claramente o fazer som, um meio de despertar novas faculdades da percepção mental, e o fazer música, apenas um acalanto para velhas faculdades da consciência". Nasceram assim as plásticas sonoras. E veio a via dos microtons. A gente se encontrava à noite, na varanda de Tak Tak. Rogério Duarte, João Santana e Tuzé de Abreu estavam sempre por lá. Uma vez, comecei a falar de Confúcio. Tak Tak me interrompeu: "O senhor é saudosista. Posso viver Confúcio, mas antes o senhor tem de destruir isso aí", disse ele, apontando para a televisão. De outra feita, Gilberto Gil chegou apressado: "Mestre, vamos fazer uns ensaios, que eu descolei uns shows pra gente fazer". Smetak, olhando com seus olhos claros: "Pensei que o senhor fosse mais sério!".
A Bahia já foi chique. Chiquérrima, como se diz. Na rampa de um teatro incendiado, Lina Bo Bardi aprontou um cinema. Lina falava de arquitetura moderna, de cultura popular (filha da Itália de Gramsci e do neo-realismo), de desenho industrial. Achava, no pique da Sudene, com Celso Furtado, que o artesanato nordestino poderia ser a base de um "design" brasileiro. Em suas aquarelas de 1929 encontramos já a atenção para as cores da vida popular. Da maquete "Maternidade Para Mães Solteiras" a vitrines e estandes, passando por artigos, roupas, capas de revistas, cenografia para teatro e cinema, Lina foi ampliando sempre o leque de seu fazer. Na base, visada antropológica e preocupação social, que viriam para iluminar atos e produtos da mestiçagem e do sincretismo brasileiros. "A função do arquiteto é, antes de tudo, conhecer a maneira de viver do povo em suas casas e procurar estudar os meios técnicos de resolver as dificuldades que atrapalham a vida de milhares de pessoas".
Lina, Koellreutter, Smetak, Widmer e Agostinho da Silva vieram parar na Bahia por desencanto e perseguição. Koellreutter fugia do nazismo; Agostinho, do salazarismo (em Portugal, somente Fernando Pessoa se solidarizou com ele - e Pessoa vale um país inteiro). Aqui, Agostinho criou o Centro de Estudos Afro-Orientais, influenciou a "política externa independente" de Jânio Quadros, propôs uma aliança entre o Brasil de Jânio, a China de Mao, a Índia de Nehru e o Egito de Nasser. Trouxe, para formar na Bahia, livre das pressões imperialistas dos EUA e da então URSS, jovens lideranças anticolonialistas da África Negra. Deixou sua marca no cinema novo e na tropicália (foi pensando nele que Caetano recitou o poema de Pessoa na performance de "É Proibido Proibir").
Mas não era só. Walter da Silveira, sério e lúcido, ensinava como ver Murnau, Fritz Lang, Eisenstein, mas também Chaplin. Tínhamos a primeira escola superior de dança do país, sob os passos e olhares de Yanka Rudzka, formando a jovem Lia Robatto. Na imprensa, artigos de Clarival Valladares, Vivaldo da Costa Lima, Carlos Nelson Coutinho, Thales de Azevedo, Luiz Carlos Maciel. No teatro, Martim Gonçalves e Hélio Eichbauer, ensinando Brecht e transmitindo as lições do Actor's Studio, Stanislavski via EUA. Pierre Verger, um dos "founding fathers" da antropologia visual, passava fotografando. Diógenes Rebouças fazia o Hotel da Bahia e o estádio da Fonte Nova. Rubem Valentim levava Jacob Gorender, autor dessa obra-prima que é "O Escravismo Colonial", ao Axé do Opô Afonjá. O ateliê de Mário Cravo era um agito só. Carybé desenhava a cidade.
Coisa rara, coisa fundamental: a cultura boêmia e a cultura universitária andavam então de mãos dadas, entrelaçadas. Não havia um "cordon sanitaire" entre o "campus" e a praça. Entre a escola e a rua. E, em meio aos jovens estudantes, estavam Glauber Rocha e Caetano Veloso.
Terra Magazine
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Divulgação
Partitura 'Anestesia' de Smetak, quem procurou diferenciar som de música
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