
Cláudio Lembo
As sociedades sempre preservaram sentimentos básicos. Esses geravam as bases da convivência comum. Criavam o sentido de solidariedade e, sem obstáculos, a amálgama entre as pessoas.Assim aconteceu durante séculos. A vida íntima das pessoas era resguardada. Ninguém revelava as entranhas da vida familiar. A parceria entre mulher e homem revestida de recato.
Jamais desvelava-se a intimidade. Os assuntos particulares aos atores pertenciam. Acontecimentos da existência, como o nascimento e a morte, revestiam-se de sacralidade.
Quando do nascimento, as famílias se reuniam. Esperavam o momento decisivo do parto. Corria risco a mulher. Em seu entorno, a grande expectativa. Até o momento do primeiro vagido, desconhecia-se o sexo do nascituro.
Na morte não era diferente. Todos circunspectos aguardavam o último momento. Nada de UTI ou isolamento. Morria-se à vista de todos e acompanhado por todos. A família, ainda uma vez, reunida.
Hoje tudo mudou. Devassaram-se as intimidades. Nos programas de rádio e televisão, fala-se sobre tudo. Nos sítios eletrônicos, os diálogos mostram-se sem parâmetros. Um mórbido prazer de desvendar o âmago das pessoas.
A vida e a morte perderam sacralidade. Tornaram-se meros atos biológicos, sem qualquer expressão transcendental. Na morte, quanto antes o enterro melhor.
Todas estas observações assemelham-se pueris. No entanto, se encontram no cerne de nosso cenário social. Vive-se a sociedade pan-ótica, isto é, a sociedade onde tudo se vê.
Alguém poderá dizer que, depois da psicanálise, os tabus se esvaíram. É provável. O mal, contudo, está na ausência de novos valores. Nada substituiu os dissolvidos pelos novos costumes.
Vive-se um individualismo exasperante. As mínimas regras da convivência social evaporaram-se. Vale tudo. Ninguém respeita ninguém. Ninguém dignifica suas funções. O mínimo formalismo é desconsiderado.
Os pactos se romperam. Todas as doutrinas do passado ficaram superadas. Pulsa a expectativa por um novo código de comportamento. As pessoas se encontram exaustas. Já não admitem o uso de umas pelas outras.
Todos os dogmas foram rompidos. Todas as normas ficaram no passado. É momento de restaurar um mínimo de regras. Elaborar código de convivência é tarefa comum.
A sociedade pan-ótica - aquela onde tudo se vê - pede uma moral ainda mais exigente. A transparência plena obriga a comportamento social diferenciado. Não há espaço para equívocos públicos ou privados.
O risco, hoje, consiste em transformar o patológico em sadio, por um passe de imagens. A dignidade das pessoas se encontra exposta. É preciso parar. Pensar. Passa a prioritário conceber nova escala de valores.
Em tempos passados, já se viveu situações semelhantes à presente. Quando se rompeu o Império romano. Ou, na explosão de idéias, na Renascença. Ainda mais, nos acontecimentos da Reforma religiosa.
Nada é igual na história. Existem, porém, analogias. Estas devem motivar análises e reflexões. O século XXI pede um mínimo de normatividade. Não dá para viver em plena anomia.
O planeta se aquece. Um paradoxo: as pessoas esfriam seus sentimentos. Tornam-se insensíveis. A sociedade pan-ótica transforma o anormal em corriqueiro.
As mortes, vistas em telejornais, já não importam. As crianças famintas, vítimas do colonialismo superado, descartáveis. Costumeiro atletas exigidos até a inação. O altruísmo jamais exibido. A boa ação considerada piegas.
Esta modernidade sem freios leva ao caos. A descontrução dos princípios, sem a emergência de outros valores, conduz à catástrofe social anunciada.
A sociedade contemporânea deglute pessoas. Vive-se de sensações. Jamais preocupação pelo essencial. Tudo é acessório, inclusive cada pessoa. A voracidade do consumista devasta individualidades.
As normas foram substituídas pela publicidade. Os sentimentos profundos pelos prazeres instantâneos. O duradouro pelo transitório. O concreto pelo superficial. Neste caminho, congela-se o planeta, tal a glacialidade das consciências individuais.
O aquecimento global é um nada. Grave o acelerado esfriamento das consciências. Conduzirá a uma sociedade de bonecos eletrônicos, sem alma e sem afeto. A uma nova era glacial.
Terra Magazine
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Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil
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