
Cláudio Leal
O novo secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., que toma posse hoje em Brasília, deve participar de um ramo das investigações que, cada qual na sua seara, Polícia Federal e ministérios público federal e estadual fazem sobre a parceria Corinthians/MSI."É também de nossa competência", diz Tuma Jr., que mobilizará o departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional para investigar denúncias de lavagem de dinheiro e vínculos com organizações internacionais.
No sábado, 8, Terra Magazine e o colunista da Folha de S. Paulo e blogueiro Juca Kfouri publicaram trechos de uma investigação e relatório da Polícia Federal com conversas telefônicas de dirigentes do Corinthians.
Leia também:
» PF expõe vísceras da parceria Corinthians/MSI
» Governo queria dar asilo a Berezovski, diz promotor
» Deputada quer CPI sobre Corinthians/MSI
» Opine aqui sobre a Operação Perestroika
Tuma acredita ainda que as gestões de cartolas e políticos para a extensão do asilo político do mafioso russo Boris Berezovski não tiveram efeito no governo:
- Quando chega ao Palácio (do Planalto), a coisa não anda, muita coisa não aconteceu, não teve o visto para o Brasil... Venderam fumaça.
Segundo o promotor do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) José Reinaldo Guimarães Carneiro, apesar de ter tido acesso a um relatório da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) sobre as conexões criminosas de Berezovski, o governo brasileiro se preparava para conceder asilo político.
Delegado classe especial da Polícia Civil e ex-chefe da Interpol em São Paulo, Tuma integra o conselho do Corinthians, onde denunciou, ainda em 2004, a possibilidade de o clube ser usado para lavagem de dinheiro de uma máfia internacional.
Então, depois da assinatura do contrato, Tuma representou ao Ministério Público, que iniciou as investigações:
- Se fosse comigo, eu corria (da MSI)... eu tinha muito documento.
A seguir a íntegra da entrevista.
Terra Magazine - As revelações da Polícia Federal causaram surpresa ao senhor?
Romeu Tuma Jr. - Tenho uma experiência de muitos anos no combate ao crime organizado. São 28 anos de carreira, investiguei várias organizações. Não tenho muita surpresa porque sei das relações mafiosas intestinas de grupos nacionais e internacionais. Para quem investigou organizações desse porte, não há surpresa. Algumas pessoas se sentem chocadas pelo grau de envolvimento de algumas pessoas que hoje dizem ser da oposição, mas tiveram ampla participação nisso tudo. Agora, como cidadão e corintiano, é claro que devo ficar chocado.
Quando o senhor fala em "pessoas da oposição", a quem se refere?
No conselho do Corinthians, eu era tachado de oposição. Portanto, tem muita gente com memória curta. Quando o Corinthians foi assinar o contrato (com a MSI), alguns oposicionistas de hoje foram favoráveis. A memória do povo é curta. Diziam não ter interesse político...
Qual foi sua participação nas investigações do promotor José Reinaldo Guimarães? Toda essa investigação começou porque representei ao Ministério Público para investigar essa organização criminosa. No conselho do clube, falei que, se o contrato fosse assinado, eu iria representar ao procurador-geral de Justiça de São Paulo, para que tudo fosse apurado, tudo aquilo fosse investigado. Mais adiante, no Ministério Público Federal (MPF). Culminou nessa denúncia por conta de minha representação em 2004. O Corinthians assinou o contrato em dezembro de 2004 e, em janeiro de 2005, eu representei. Concluíram que era lavagem do dinheiro, mas de competência da Justiça federal ¿ e aí veio o MPF junto com a Polícia Federal.
Como foi feito o acompanhamento de Boris Berezovski no Brasil?
Quando eu soube que ele estava aqui, nós denunciamos. Ele foi monitorado, detido para prestar depoimento no MPF. Eu tive a oportunidade de ir à Rússia, de conversar com agentes da Interpol, e trocamos muitas informações sobre ele.
Quando?
Em 2005, 2006. Boris já era internacionalmente conhecido...
Por que o governo brasileiro aceitou gestões para conceder asilo político a Boris, apesar de informações fornecidas pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência)?
Tem muita coisa aí que é supervalorização. Muita coisa que se fala no telefone que a gente percebe que o cara está enrolando, está vendendo fumaça. Quando chega ao Palácio (do Planalto), a coisa não anda, muita coisa não aconteceu, não teve o visto para o Brasil... Venderam fumaça.
Havia brecha para extensão do asilo político?
A Interpol não interfere em questões político-ideológicas. Quando a Interpol tem mandado prisão, é sinal de que há uma conduta criminosa. Ela não interfere em questões políticas de racismo, nem de perseguição política. Ela só se mete quando é, de fato, um criminoso internacional.
O senhor chegou a assinar, junto com o promotor José Reinaldo, o texto "E se fosse Osama?"... (leia
aqui)
Fiz vários artigos sobre isso.
Apesar de tantos avisos, por que o governo ouviu tantas gestões em favor de Boris?
Não sei, é difícil analisar, as pessoas têm seu tempo pra maturar. Prefiro, nessa altura do campeonato... Os próprios dirigentes do conselho embarcaram. Houve gente com boa-fé, mas apontei alguns por má-fé, antes de assinar o contrato. Falei que era golpe e lavagem de dinheiro.
Era o presidente Alberto Dualib?
É, o Dualib. Achava que eu estava fazendo política. Mas ele tinha algum interesse que não era ortodoxo. Apresentei documentos. Se fosse comigo, eu corria (da MSI), do jeito que eu tinha documento.
Na Secretaria Nacional de Justiça, o senhor vai contribuir com as investigações?
Sem dúvida. É competência do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional, que é o órgão da minha secretaria que combate lavagem de dinheiro e organizações criminosas internacionais. É nossa competência. Sem paixões clubísticas, mas com questões técnicas.
Terra Magazine