Terra Magazine

 

Segunda, 10 de setembro de 2007, 15h16

PF revela lavagem de dinheiro e ordem para matar

Bob Fernandes e Claudio Leal

Como este é um novo capítulo, o recomeço é pelo fim.

O que se tem nas linhas abaixo é parte, outra parte, da investigação promovida conjuntamente, em períodos e formas distintas, pelos ministérios públicos federal e de São Paulo e pela Polícia Federal. Alvo: a simbiose Corinthians/MSI e o patrono da jogada, o bilionário Boris Berezovski, mais conhecido como "o mafioso russo".

No final da semana da Pátria, Terra Magazine e o colunista Juca Kfouri, da Folha de S.Paulo, publicaram reportagem com trechos do relatório final do trabalho da PF, que está em grande porção ancorado em interceptações telefônicas feitas com autorização judicial.

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A seguir, um resumo de temas e personagens. Vale a ressalva: o material é uma transcrição do relatório da PF, já de conhecimento de pelo menos um advogado.

Limpa esse dinheiro aí

Em 16 de maio de 2007, às 20 horas, 37 minutos e oito segundos, Alberto Dualib, hoje afastado da presidência do Corinthians, conversa com seu braço direito informal, Renato Duprat Filho, e um certo Franal.

Dualib, de saída, acusa um advogado de trabalhar com suborno de magistrados. Em seguida, ao tratar da remessa de recursos de Berezovski para o Brasil, diz:

- Dinheiro não pode mandar mais aí como lavagem... tem que limpar isso aí.

Dois meses antes, em 29 de março, às 13 horas e 56 segundos, dialogam Duprat e Fischer (funcionário da MSI). Transcreve a PF:

- Renato pergunta para Fischer quanto entrou no Corinthians até hoje e Fischer fala que foi uns 55 milhões. Fischer fala que todo o dinheiro que entrou foi para o Corinthians e que deve ter ficado uns 2 ou 3 com eles.

Dinheiro para fiscais

Na página 7 do relatório da PF, um diálogo sem data nem horário.

Está descrito:

- Alberto (Dualib) diz ter feito um acerto com o pessoal do imposto de renda, mas que quem vai levar o dinheiro é Marcos. Alberto diz que a única coisa que Marcos está fazendo é levar o dinheiro para "aqueles fiscais", mas segue dizendo que isto eles (Alberto Dualib e Nesi Curi, então vice-presidente do Corinthians) mandaram ele fazer.

Prossegue o relatório:

- (...) Comentam que Kia sabia que, se ficasse no Brasil, seria preso. Também falam que, se Boris voltar para o Brasil, Kia não vem mais.

"Manda matar"

Sempre lembrando: uma conversa telefônica transcrita pode ter um impacto e uma dimensão exacerbados numa mera transcrição.

Dito isso, segue o relato da PF, ainda na página 7 e sequência do mesmo diálogo:

- Nesi diz que tem que ameaçar o pai do jogador (NR: não identificado) e que tem que arranjar "uma negrada em Itaquera" para matar Martinez.

(NR: Há um Martinez no Corinthians - o diretor de Futsal do clube. Procurado pela reportagem, ele disse que foi um mal entendido, e que a referência no diálogo seria a um suposto empresário, de mesmo nome, Martinez, que "alicia jogadores da base corintiana").

Proposta ao russo

Ainda página 7, diálogo sem data e sem horário, transcrito assim no relatório da PF:

- Renato mostra fortes contatos com russos interessados em jogadores brasileiros. Nesse diálogo Renato recebe proposta para levar a Boris sobre aquisição de 8 estações de televisão de filiais da TV Globo.

Nas conversas, sempre, muita desfaçatez. O que se pretende, ao longo de uma das negociações, é que o governo brasileiro conceda asilo político a Boris Berezovski.

Asilo a Boris

Neste diálogo entre Rubão (Rubens Gomes da Silva) e Duprat, no dia 28 de maio, às 17 horas, 54 minutos e 40 segundos, é citado "Vicente". Vem a ser Vicente Cândido. Deputado estadual do PT em São Paulo, em conversas com pelo menos um jornalista defendia a concessão do asilo para o russo Berezovski e dizia falar em nome de José Dirceu.

Transcreve a PF:

- Rubão pede a Renato que converse com Vicente para arranjar alguma coisa (emprego) para ele no governo. Renato diz que pediu, mas a pessoa certa é o Gilberto.

Rubão pergunta como está o negócio da documentação em Londres e Renato diz que, momentaneamente, "eles" deram uma escanteada discreta no Vicente. Rubão pergunta por que e Renato (Duprat) diz que ainda tem que descobrir. Renato diz que é briga da turma "deles". Renato diz que quem manda é o Gilberto (assessor de Lula), que é o chefe dele (Renato) e que abre tudo para ele.

Cara a cara

Prossegue o relatório:

- Renato diz que Gilberto está indo com Lula para Londres só para encontrar com "ele" (Renato). (...) Rubão pergunta, já que o presidente (Lula) está indo para lá, por que Renato não coloca Boris cara a cara com ele, e Renato diz que não, pois este é um jogo forte demais e ele precisa tomar cuidado.

A propósito deste trecho acima. Lula esteve em Londres, mas não houve encontro algum com Berezovski. Da mesma forma, em encontro com dirigentes do Corinthians no Palácio do Planalto não prosperou a proposta para que o presidente telefonasse para o russo.

Em entrevista a Juca Kfouri, na semana passada, Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência da República acima citado nas transcrições, disse:

- A pedido da direção do Corinthians, nos limitamos a ver se era possível conseguir a extensão do asilo político dele na Inglaterra para o Brasil e não sabíamos sobre o russo o que sabemos hoje. Agora temos tratado de extradição com a Rússia e é impensável tê-lo aqui. Além do mais, vi Duprat apenas na audiência com o presidente e jamais falei com ele sobre qualquer assunto depois disso.

Concessão do asilo

Contudo, o promotor do Gaeco José Reinaldo Guimarães Carneiro (leia aqui) afirmou a Terra Magazine no domingo, 9:

- (...) me preocupavam as manobras que percebia para concessão do asilo a Berezovski. O governo me respondeu dizendo que havia um diploma legal que autorizaria o governo a conceder asilo ao russo.

Afirmou ainda:

- No ano passado, eu mesmo, nós do Gaeco, recebemos uma comunicação de uma autoridade, de que agora não me recordo quem, mas tenho o documento, informando que o Boris seria beneficiário de um tratado entre vários países e que levaria o Brasil a aceitar seu status de asilado por ser signatário desse mesmo tratado.

Um certo Frank

De volta à planície e ao relatório da PF.

Dia 6 de dezembro de 2006, às 21h, sem especificar na caixa postal de quem, a mensagem deixada por um certo Frank:

- Diz que precisa de US$ 110.000 (cento e dez mil dólares) para pagamentos de autoridades e comenta que nunca teve um problema desses na empresa antes.

Ainda em 6 de dezembro de 2006, diálogo entre Marcos Motta e Fischer, às 17h21. Está no relatório da PF:

- Marcos Motta (advogado da MSI) e Fischer falam sobre uma transferência de valor que será depositada pelo Milan numa conta do Corinthians, o mesmo irá ocorrer com um depósito do Betis. Estão tentando fazer com que os clubes no exterior depositem na conta do MSI para o Corinthians não receber.

Carta de Boris

Em 17 de abril de 2007, às 11 horas, 46 minutos e 37 segundos, conversam Dualib e Rubão. Se faltavam provas da presença de Berezovski à frente do negócio, tudo se esclarece. Está dito no relatório:

- Rubão diz que tem uma cópia da carta de Boris admitindo um investimento de 50 milhões de dólares no Corinthians...

"Um bandido maior"

Diálogo seminal às 11 horas, 57 minutos e 54 segundos no dia 26 de abril deste 2007, entre Dualib e Rubão. Soa como um testemunho, quiçá um epitáfio:

- Alberto diz que não entende que parceria é esta, em que o Kia arruma investidores que não são parceiros do Boris. Alberto diz que na hora que ele compra um jogador igual ao Carlitos, ele (Kia) engana todo mundo, paga 22 milhões e 600, e ele fica com 65% do jogador. Alberto diz que isso não dá, que ele é um pilantra, e que é um bandido maior que o outro.

A memória do caso

Depois destes novos capítulos, uma ligeira memória do caso.

Em 2005, alertado pelo olor da parceria MSI/Corinthians, o Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), de São Paulo, pediu à Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) dados sobre Berezovski.

Eis, em parte, o resultado, que consta de relatório assinado pelo promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro:

-Tais dados constam de minucioso relatório produzido pela Agência Brasileira de Informações - ABIN (fls. 11/16). Também se vê daquele documento a ligação de Boris Berezovski com sucessivos governos da antiga União Soviética e, posteriormente, da Rússia, fato que lhe propiciou a aquisição de empresas estatais a preços abaixo do valor real de mercado e, também, a acusação de ter representado "papel no desenvolvimento da 'jihad' islâmica ao financiar as ações de grupos ligados a Bin Laden na Tchetchênia em 1999"...

Informou ainda a ABIN ao Gaeco:

-(...) assim, apontado como "banqueiro informal" dos movimentos tchetchenos, local que, nos dois anos seguintes, "se tornaria um centro para a ação de criminosos", tendo sua capital, Grozny, listada como importante ponto para o "tráfico internacional de heroína".

Ator de negócios

A partir do relato da ABIN deslancha a apuração do Gaeco. Em três meses, o resultado: trata-se de um mafioso de alta periculosidade. E é ele, apontava então o Gaeco em 2005, o verdadeiro gestor da MSI.

Kia Joorabichian, o iraniano, é apenas um representante de Boris e seus parceiros, tais como Badri Patarkatsishvili. Kia, na brilhante definição de um jornalista russo, é um "ator de negócios".

Entraram em cena, na seqüência, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal. A investigação avançou e, neste 2007, o MP federal fez sua denúncia.

Em julho último a Justiça Federal aceitou denúncia. Kia e Berezovski tiveram prisão decretada. Dualib e Duprat se tornaram réus, acusados de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

Ruídos entre a PF e o MP

Resta um ruído neste circuito, entre setores da PF e do MP federal.

Na PF há quem entenda ter sido precoce o oferecimento da denúncia. E que a pressa teria espantado caça ainda maior.

Não é o que pensam integrantes do MP.

Entendem eles que toda investigação tem um tempo para começar e para acabar. E que é decisivo não errar a mão nesse tempo.

Personagem destacado nesse enredo, Alberto Dualib está afastado da presidência do Corinthians e o clube decretou o fim da parceria. A novela, no entanto, não chegou ao fim. Longe disso.

 

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