
Bob Fernandes
Presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, presidente do Conselho de Orientação Fiscal do Corinthians (Cori), Antonio Roque Citadini, ex-vice-presidente de futebol do Corinthians, foi dos primeiros dirigentes do clube a se posicionar com firmeza contra a parceria com a MSI de Boris Berezovski/Kia Joorabichian.Nesta conversa com Terra Magazine, Citadini reconhece que o caso é "a maior desgraça da nossa história, a maior mancha do Corinthians nesses quase 100 anos, uma tragédia completa", mas não se limita a defender. Ataca, de maneira surpreendente e desabrida. Rasga a fantasia do futebol brasileiro.
- Nao há dúvida alguma de que o futebol brasileiro é uma grande lavanderia (...). Em quase todos os times há jogadores de investidores e com operações dessa mesma forma.
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Como se fosse pouco, Roque Citadini mira também nos líderes do atual Campeonato Brasileiro:
- Diria e digo. Todos eles (os primeiros colocados no Campeonato Brasileiro) têm jogadores na mesma situação.
A seguir, a íntegra da entrevista.
Terra Magazine - Diante desse vasto noticiário sobre o seu Corinthians, o que você diria de saída?
Roque Citadini - O caso da MSI é a maior desgraça da nossa história, a maior mancha do Corinthians nesses quase 100 anos de história. Uma tragédia completa porque fizemos uma parceria com um grupo de origem duvidosa, com uma gestão desastrosa dessa parceria que desorganizou completamente o clube, além de ter sujado nossa imagem no mundo inteiro.
O que você diz em relação ao título de 2005, que já há quem conteste?
Foi inteiramente legítimo, foi conquistado pelos jogadores dentro de campo. O clube foi vítima e não se valeu de nenhum expediente escuso. Não apareceu ninguém com nada que possa empanar o título de 2005.
Como sair dessa crise com soluções?
Primeiro, não pode ter uma punição retroativa. Isso não existe no direito penal. Segundo, o Corinthians já tá pagando o preço de ter feito a escolha errada. Teve a diretoria afastada, processo na justiça federal, os principais dirigentes estão enquadrados com denúncias recebidas na Justiça, além das punições indiretas: dívidas como a da Fifa, de oito milhões de euros, no caso Nilmar.
E punições?
A punição retroativa é uma aberração juridica, sem precedentes. Primeiro, teria que ser pra todos os clubes que tiveram jogadores nessas condições. Agora, o que eu defendo é que se aproveite essa crise para se fazer uma profunda reforma no nosso futebol em relação aos investidores.
O que você quer dizer com isso e não está dizendo?
Eu digo: hoje, quase todos os clubes têm investidores que são proprietários em parte ou no todo dos direitos dos jogadores. Estão vendendo jogadores pra Europa e estes investidores estão recebendo dinheiro, sem que haja controle sobre os investidores e nem se saiba a origem do dinheiro...
O que você está dizendo é que o futebol brasileiro é hoje uma grande lavanderia?
Não há dúvida de que o futebol está infiltrado por investidores, em boa parte sem que exista nenhuma rede de segurança pros clubes.
Mas é uma lavanderia?
Nao há dúvida alguma de que o futebol brasileiro é uma grande lavanderia.
Como funciona?
Muitas vezes compram jogadores por um preço, revendem por valores altíssimos e não há nenhum controle desse dinheiro. Primeiro, não há controle esportivo por parte das federações. Não tem contratos econômicos dessas vendas. Segundo, não há controle fiscal porque os investidores recebem o dinheiro, e pronto. Na verdade, isso está ocorrendo principalmente a partir de jogadores das categorias de base. Os investidores compram, botam nos clubes, revendem pra Europa e recebem valores muito superiores, quase sempre.
Você saberia dizer em quais times isso acontece?
Em quase todos eles há jogadores de investidores e com operações dessa mesma forma.
Você diria, ou diz, que essa situação, que se pode caracterizar como lavanderia, está presente nos times que estão nos primeiros lugares no atual Campeonato Brasileiro?
Diria e digo. Todos eles têm jogadores na mesma situação.
Uma situação obscura e cheia de buracos?
Obscura, cheia de buracos, da mesma forma que a MSI fez no Corinthians. A própria MSI tem o goleiro do Flamengo, o Bruno, e fez negócio com Atlético Mineiro nos mesmos termos. Precisamos aproveitar essa crise do Corinthians para regularmentar investidores individuais nos clubes. E, segundo, proibir investidores que façam negócios através de paraísos fiscais, com dinheiro de origem não identificada.
O senhor cita o Internacional de Porto Alegre também, ou estou enganado?
Falo no Internacional porque é o mais chorão. O Rafael Sobis era do Inter, mas era do investidor. E não era o único, provavelmente.
A propósito de tudo isso, os documentos do Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado) sobre a origem de Berezovski e da MSI, nós encontramos no seu blog, está lá há algum tempo.
No meu site eu tenho notícias só da parceria do Corinthians, e tenho também um blog só com notícias soviéticas, é o Soviet News. Na verdade, sobre investidores soviéticos que estão por aí. Pra não falar de ucranianos, georgianos... eu digo soviéticos. Pra mim é tudo soviético. Falo de toda aquela riqueza deles.
Terra Magazine
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Rogério Lorenzoni/Redação Terra
O dirigente corintiano Roque Citadini, que sempre foi contrário à parceria do clube com o fundo MSI
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