
Antonio Luiz M. C. Costa
Ora, tanto a catástrofe do Krakatoa quanto a de Santorini parecem insignificantes ante uma erupção supervulcânica. Segundo uma tese proposta em 1998 pelo antropólogo Stanley Ambrose, um evento assim quase varreu a humanidade há cerca de 71 mil anos. A evidência genética sugere que a humanidade se multiplicou a partir de uma população reduzida a algo entre dois mil e 20 mil indivíduos capazes de se reproduzir em um determinado período entre 50 mil e 100 mil anos atrás.Ora, sabe-se que a espécie Homo sapiens é mais antiga - provavelmente 150 mil anos - e provavelmente teria se multiplicado rapidamente para centenas de milhares, ocupando a África e parte da Ásia não muito tempo depois. A razão mais provável dessa aparente redução drástica da população humana teria sido uma gigantesca erupção no que é hoje o lago Toba, na ilha de Sumatra, Indonésia.
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O lago Toba é uma elipse com cerca de 100 quilômetros de comprimento e 30 de largura e pouco mais de mil quilômetros quadrados de área - pouco menos que um grande município como São Paulo ou Rio de Janeiro - e contém uma grande ilha em seu centro. É na realidade outra enorme caldeira, muito maior que a de Tera - na verdade, a maior caldeira visível conhecida no planeta.
A evidência geológica indica que o vulcão que ali existiu - do qual resta apenas um pequeno cone - explodiu há cerca de 71.500 anos, espalhando dois mil quilômetros cúbicos de lava e lançando ao ar oitocentos quilômetros cúbicos de poeira ardente - o equivalente a cem vezes o volume da erupção do Krakatoa. Dez bilhões de toneladas de ácido sulfúrico foram lançadas na atmosfera e uma camada de cinzas de 15 centímetros cobriu toda a Índia. Partes mais próximas do continente asiático, como a Malásia, devem ter sido cobertas por nove metros de pó.
A erupção deve ter durado duas semanas, ao fim das quais a poeira lançada aos céus obscureceu a luz solar a ponto de causar uma queda de três graus na temperatura do planeta por vários anos e talvez até deflagrar uma Idade do Gelo. A Ásia foi devastada e mesmo terras distantes, como a África, devem ter sido severamente afetadas, provocando a extinção de várias espécies e a quase extinção de muitas outras - inclusive o Homo sapiens. Foi provavelmente a maior catástrofe natural presenciada pela nossa espécie em sua existência, que por pouco não encerrou.
Mas outras ainda maiores ocorreram no passado da Terra, antes que nossa espécie existisse - e nada impede que voltem a acontecer.
Uma delas, há cerca de dois milhões de anos anos, cobriu quase todos os atuais Estados Unidos a oeste do Mississipi - mais parte do Canadá e do México - com 2.500 quilômetros cúbicos de cinzas. Há 1,2 milhão de anos, uma segunda erupção, no mesmo ponto, emitiu 800 quilômetros cúbicos Há 600 mil anos uma terceira emitiu mil quilômetros cúbicos - e uma quarta bem poderia vir qualquer dia desses, já que as megaerupções parecem acontecer a cada 600 mil a 800 mil anos, aproximadamente, intercaladas por erupções menores, mas ainda espetaculares. O centro de toda essa atividade é o atual Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, estado de Wyoming. O parque inteiro é uma enorme caldeira com cerca de 72 quilômetros de comprimento e 55 de largura.
Os geólogos monitoram cuidadosamente a atividade vulcânica do parque, cujo terreno periodicamente sobe e afunda, evidenciando os poderosos movimentos de magma. Em 1984, toda a região central do parque, cerca de cem quilômetros quadrados, havia subido um metro em relação a 1924, a última vez que a região havia sido topografada. No ano seguinte, afundou vinte centímetros. Depois, inchou de novo. Pequenos terremotos são rotineiros, assim como mudanças nos padrões de erupções dos gêiseres. Mas ninguém, nem mesmo os geólogos, sabe dizer que tipo de fenômeno poderia ser interpretado como sinal de uma megaerupção iminente. Ou se haveria qualquer sinal reconhecível de que vinte estados dos EUA estariam para ser riscados do mapa.
Mas mesmo essa erupção seria insignificante ante aquela que parece ter provocado a pior extinção em massa da história do planeta, que varreu 96% das espécies marinhas e mais de 70% dos vertebrados terrestres há cerca de 251,4 milhões de anos, marcando o fim do período Permiano e da era Paleozóica. A evidência geológica é que, na atual Sibéria, uma área de 200 mil quilômetros quadrados - pouco menos que o Estado de São Paulo - foi coberta por lava em uma megaerupção ou série de megaerupções. A poeira bloqueou a luz do Sol e a fotossíntese, levando ao colapso da vegetação e de toda a cadeia alimentar na maior parte do planeta.
A chuva ácida envenenou terras e oceanos, matou as algas e deixou os mares quase sem oxigênio e levando à multiplicação de bactérias anaeróbicas que sobrecarregaram a água com ácido sulfídrico que matou boa parte do resto. Quase toda a vida marinha se extinguiu. Os perigos do subsolo da Terra - que ainda compreendemos bem menos do que nosso Sistema Solar ou mesmo a nossa Galáxia - podem ser bem maiores que qualquer coisa que venha do espaço.
Terra Magazine