
Maria Falcão
Certas doenças são uma espécie de "celebridades médicas": a maioria das pessoas não conhece, não conhece ninguém que conheça, nunca passará nem perto de conhecer, mas ainda assim sabe absolutamente tudo sobre elas. E comentam no supermercado, no salão de beleza ou em qualquer outro lugar onde "amenidades" seja a opção mais acertada de assunto a ser puxado.A apendicite é uma dessas famosas: todo mundo já ouviu falar e sei de muita gente capaz de dar aula sobre o assunto. E como qualquer história de celebridade não está imune aos "ruídos de comunicação", mas como, diferentemente das histórias de reais celebridades, com saúde não se brinca, Terra Magazine convidou o Dr. Antônio Falcão Neto, que é cirurgião do aparelho digestivo, para nos falar sem os tais ruídos sobre essa doença.
Terra Magazine - O que é a apendicite?
Dr. Antônio Falcão: É a inflamação do apêndice, que é um segmento em forma de um verme, localizado na base da porção inicial do intestino grosso. Trata-se de um órgão sem função para o organismo, mas é a principal causa de dor abdominal que demande tratamento cirúrgico, apresentando-se com mais freqüência na faixa etária de 10 a 30 anos, em ambos os sexos.
Quais são as causas dessa doença?
Esse problema está associado à obstrução da luz (do conduto) do órgão, seguida de inflamação e infecção. A obstrução pode ser causada pelo aumento das células da parede do próprio apêndice, por fecalitos (fezes endurecidas), corpos estranhos (sementes, fibras) e, mais raramente, por tumores.
E quais são os sintomas?
Os sintomas são clássicos em mais da metade dos casos. Geralmente o paciente chega se queixando de uma dor abdominal mal localizada, normalmente próxima ao umbigo, que migra, após algumas horas (8 a 24h), para a região inferior direita do abdome. Nesse local essa dor se torna bem mais definida e intensa. Tipicamente o paciente apresenta também falta de apetite, e metade dos casos podem cursar com vômitos. Estes, quando presentes, surgem sempre após o inicio da dor. Quando o quadro de vômitos precede a dor, deve-se sempre questionar o diagnóstico de apendicite.
Como é feito o diagnóstico?
A apendicite é uma patologia em que, na grande maioria das vezes, o diagnóstico se faz baseado na história clínica e no exame físico. Neste, o médico pode encontrar sinais bastante sensíveis que indicam apendicite, como o de Blumberg (que é a dor precipitada por uma descompressão brusca da parede abdominal, durante a sua palpação). Porém, o quadro nem sempre se manifesta da sua forma clássica, o que muitas vezes é explicado por uma variação anatômica da posição do apêndice.
Outra dificuldade no diagnóstico é a grande variedade de doenças que cursam com sintomas semelhantes aos da apendicite - em mulheres em idade fértil, principalmente -, muitas das quais podem ter um tratamento não cirúrgico, como por exemplo infecções urinárias, gastroenterites e outras.
Para fechar um diagnóstico mais preciso, além dos sintomas e do exame físico, o médico pode contar com diversos recursos, entre eles o exame de sangue, exames de imagem como a ultra-sonografia e a tomografia computadorizada.
O tratamento é clínico ou cirúrgico?
O tratamento consiste numa cirurgia em que se realiza a retirada do apêndice (apendicectomia), associada em alguns casos ao uso de antibióticos no período pós-operatório.
A cirurgia pode ser feita por via convencional, em que se realiza uma incisão (corte) no abdome, ou por videolaparoscopia, sendo essa uma técnica mais vantajosa principalmente no que se refere a um período de convalescença mais curto, com menos dor no pós-operatório, e com melhor resultado estético.
Essa cirurgia pode ter complicações?
As infecções da ferida operatória (áreas que foram cortadas na cirurgia) são as complicações mais comumente encontradas no pós-operatório, podendo mais raramente ocorrer a formação de abcessos e fístulas. Aqui vale ressalta o valor de um diagnóstico e tratamento precoce.
As complicações pós-operatórias estão relacionadas principalmente a quadros mais complicados, como por exemplo aqueles em que, durante a cirurgia, encontramos um apêndice perfurado, podendo haver secreção purulenta na cavidade abdominal.
E prevenção, é possível ser feita?
Não existe prevenção para a apendicite. Qualquer indivíduo de qualquer idade pode apresentar o quadro. É citado na literatura que a chance de um indivíduo apresentar o quadro durante a sua vida inteira é de 7%.
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