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Sábado, 22 de setembro de 2007, 08h29

Reações em cadeia

Francisco Viana

A absolvição do senador Renan Calheiros pelos seus pares é uma dessas histórias que não terminará tão cedo. Um dos seus últimos impactos - capítulos, melhor dizendo - é o questionamento em torno da necessidade ou não do Senado como Casa revisora. O tema começa a ganhar espaço na mídia. Exemplo: artigo de Rui Falcão, deputado estadual pelo PT, na "Folha de S.Paulo" (20 de setembro, p.3) sob o título "Pela democracia, o Senado deve acabar". Afirma textualmente: "A existência do Senado é um desserviço à democracia brasileira. É chegada a hora de discutir o fim do sistema bicameral no país".

É chegada a hora de discutir tudo. Passar o país a limpo.

Essa é a característica primordial de uma crise: reações em cadeia. Um tema puxa o outro, uma denúncia puxa a outra, e o resultado é que os problemas acabam ganhando a luz do dia. Cedo ou tarde, são resolvidos. Cedo ou tarde, causam prejuízos devastadores em meio às partes envolvidas. Há hoje duas visões antagônicas quanto ao poder da mídia em torno do episódio Calheiros.

1. A mídia foi mais uma vez derrotada. Já teria colecionado derrotas em episódios com o plebiscito do desarmamento, "mensalão", reeleição do presidente Lula, entre outros embates.

2. A mídia tornou-se o grande tribunal da opinião pública.

Fico com a segunda alternativa. A mídia não é partido político. Não pode ganhar ou perder. A mídia expõe fatos. Traz à luz verdades factuais que a sociedade precisa conhecer. Quem ganha ou perde é a sociedade, as instituições. Aqueles que vêem na absolvição do senador Calheiros uma derrota da mídia - e não são poucos - estão esquecendo de que a perda da reputação é tão grave, se não mais grave, do que uma condenação. De que adianta existir sem reputação, sem respeito? Sem reputação positiva, o ser torna-se um espectro. É esta a origem de todo o questionamento em torno do modo com que se faz política hoje no Brasil e da própria necessidade de o Congresso existir. A política virou um espectro. Perdeu a reputação positiva. Como sabemos, existem duas dimensões da política na atualidade: uma é discursar para chegar ao poder; outra é esquecer tudo o que foi prometido quando se conquista o poder. Conclusão óbvia: em lugar da arte de articular mudanças, a política está se transformando na arte da mentira. E qual é o objetivo da política: a mentira ou a mudança?

Em termos mais concretos, a pergunta é: para que serve a política? Como a sociedade é dinâmica, o atual sistema de representação, que vem perdendo força, passa a ser questionado. A necessidade de o Congresso existir é, a continuar o atual processo de degenerescência, apenas um primeiro momento de um questionamento muito maior. Afinal, os políticos são eleitos para defender interesses da sociedade, não seus interesses. É essa a confusão que fazem aqueles que se escudam na tese de derrota da mídia para justificar as distorções do atual modelo político. A palavra-chave do cenário é reputação. Se a reputação é ruim, o Congresso não vai conseguir se manter em cena. Cada vez se aceita menos as regras particulares da política quanto à rejeição da ética. Ou de tratar a ética como algo supérfluo. Não se trata de virtudes éticas individuais, mas das virtudes da busca do bem comum. É o que ensina Montesquieu, no Espírito das Leis (III, Capítulo V).

Agora, voltemos à verdade factual.

Vejamos o que diz Hannah Arendt. Ela assinala: uma afirmação factual só adquire implicações políticas ao ser colocada em um contexto interpretativo. Como interpretar o fato de o presidente do Senado, Renan Calheiros, ter sido absolvido pelos seus pares - 40 votos x 35 -, contra todas as evidências factuais, e assim poder escapar da cassação do mandato?

Escreve Hannah Arendt, em Entre o passado e o futuro:

- "A marca distintiva da verdade factual consiste em que o seu contrário não é o erro, nem a ilusão, nem a opinião, nenhum dos quais se reflete sobre a veracidade pessoal, e sim a falsidade deliberada, a mentira... O mentiroso é um homem de ação, ao passo que o que fala a verdade, quer diga a verdade factual ou racional, notoriamente não o é."

- "A verdade, posto que impotente e sempre perdedora em choque frontal com o poder, possui uma força que lhe é própria: o que quer que possam idealizar aqueles que detêm o poder, eles são incapazes de descobrir ou excogitar um substituto viável para ela. A persuasão e a violência podem destruir a verdade, não substituí-la."

- "Todas essas mentiras, quer seus autores saibam ou não, abrigam um germe de violência: a mentira organizada tende sempre a destruir aquilo que ela decidiu negar, embora somente os governos totalitários tenham conscientemente a mentira como primeiro passo para o assassinato..."

Hannah Arendt faz clara distinção entre a mentira tradicional e a mentira moderna. A mentira tradicional referia-se "apenas a particularidade", ela se "dirigia ao inimigo e visava iludir apenas a ele"; a mentira visa "a iludir literalmente todas as pessoas". A mentira, constata Hannah Arendt, cedo ou tarde volta-se contra os mentirosos, os que se auto-enganam ao acreditar que podem vencer a verdade factual. Arendt lembra que "a história contemporânea está repleta de exemplos em que os que diziam a verdade factual eram considerados mais perigosos e até mesmo mais hostis que os verdadeiros adversários". Basta ler os jornais para constatar como a mentira volta-se contra a reputação dos mentirosos e dos que se auto-iludem como um bumerangue implacável.

Basta olhar em volta e ver que o cidadão não politizou ainda o tema Renan Calheiros/utilidade do Congresso Nacional. Não há passeatas. Não ocorreram grandes manifestações públicas. Normalmente, é o que deveria estar acontecendo. Mas é preciso verificar que as formas de protestos mudaram. O cidadão na pós-modernidade protesta com a indiferença, a rejeição. Sua cabeça está muito voltada para as realidade concretas do dia-a-dia. É uma forma nova de comunicar: virar as costas, tocar a vida. Isso explica por que parte da sociedade parece viver num país cada vez mais individualista, mais desiludida, mais sem utopias. O tempo dirá qual a força efetiva do germe da destruição que o Senado e também que o governo está plantando no seu interior? Resta também refletir em torno do país que nós brasileiros estamos construindo.

A propósito, a política existe para assegurar a boa saúde da sociedade. E, assim, não pode sobreviver dissociada da ética e da moral. A sociedade, diferentemente da justiça tradicional, não se movimenta pela aplicação de penas, mas de sanções éticas. O erro dos políticos, senadores ou não, é que eles têm fugido às suas responsabilidades éticas e se escudado na proteção de um emaranhado de leis, ritos - como voto secreto - e recursos de natureza variadas para se esconderem da ética. Tornaram-se entes corporativos. Viraram as costas para as exigências da representação. Isto explica por que os abusos estão ultrapassando todos os limites. Isto explica por que o Congresso se tornou uma instituição fora do lugar. Isto explica por que política, em bom português, perdeu ou se encontra em acelerado processo de perda de respeito da sociedade. As virtudes políticas precisam reencontrar seu sentido prático. E a realidade deve comunicar tal reencontro. Não o contrário.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: hermescomunicacao@mac.com)

Fale com Francisco Viana: francisco_viana@terra.com.br

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A absolvição do senador Renan Calheiros não gerou grandes manifestações populares. A rejeição é a indiferença, diz Viana

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