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Terça, 25 de setembro de 2007, 08h07

Quadrinhos narram 2 meses na capital norte-coreana

Thais Bilenky, especial para Terra Magazine

O livro em quadrinhos de Guy Delisle, lançado este mês de setembro pela Editora Zarabatana, Pyongyang, aproxima o leitor de uma realidade nem sempre conhecida a fundo. Seu nome é o mesmo da capital norte-coreana, que, mesmo sendo a maior do país, é uma cidade pouco visitada e bastante ausente das mesas diplomáticas mundiais.

A obra resulta da estadia de dois meses do autor em Pyongyang. Como supervisor de estúdio de animação, ele trabalhou cercado menos por pessoas nascidas na ilha do que por estrangeiros. Com exceção de um guia e um intérprete, que lhe foram confiados compulsoriamente, praticamente não houve coreanos de quem Deslisle de fato se aproximou.

As diferenças culturais entre um canadense, como é o autor, e um coreano primeiramente se encontram no campo político. A Coréia do Norte, desde o fim da Segunda Grande Guerra, declara-se um Estado comunista. Em 1948, Kim Il-Sung assume o poder no país proclamando a independência da República Democrática Popular da Coréia. O paralelo 38 divide o território sul e norte da ilha e com ele, sua população.

A Guerra da Coréia (1950-1953) confirma a separação, e o apoio dos Estados Unidos a Seul (capital da Coréia "do Sul") só faz acirrar o conflito. A presença de Kim Il-Sung como líder nacional é marcadamente forte em cada casa, cada fábrica, cada escola, cada indivíduo. Quando morre, em 1994, Il-Sung é sucedido por seu filho, Kim Jong-Il, que se determina a cumprir a mesma função de seu pai.

Os dois líderes políticos exercem uma influência que Delisle diagnostica como doentia na população norte-coreana. O caráter fechado do regime, que restringe a entrada de estrangeiros e o acesso à informação internacional, segundo o autor, condiciona a sociedade a uma obediência automática ao poder que lhe instrui, mas que também lhe aliena.

Pyongyang é um diário da viagem em quadrinhos. E como todo diário - ou pelo menos na sua versão estereotipada - possui um misto de experiências, impressões e detalhes. Mas este diário, especialmente, apresenta também um panorama social, sob a ótica estrangeira, é certo, mas respaldado por dados objetivos e observações cotidianas.

Por exemplo, Delisle nota, ao longo do tempo, que embora estrangeiros como ele sejam raros nas ruas, eles são praticamente ignorados. Mais que isso, quando não estão acompanhados por um guia, como mandam autoridades oficiais, parecem ser igualmente despercebidos. Junto de sua observação, o autor empenha-se em apontar possíveis causas. Neste caso, ele as encontra no hábito de espionagem difundido na sociedade pelo Estado, como modo de garantir a manutenção do regime comunista. Os norte-coreanos, assim, evitam envolver-se com qualquer possível ameaça à sua integridade cidadã, o que explicaria a atitude omissa em lugares públicos.

Os quadrinhos dão aos relatos reforço particular. A expressividade dos desenhos entoa coerência à obra.

Delisle narra a partir do momento em que é recebido no aeroporto por seu guia e um motorista. Recebe de antemão um "livreto com recomendações", onde encontra certas normas de conduta exigidas em território norte-coreano. As restrições vão desde o trânsito urbano - que deve ser invariavelmente acompanhado por um guia - a revistas pornográficas, por sua vez, interditadas.

Hábitos incomuns ao autor geram nele cada vez maior afastamento com o lugar em que está. Hospedado em um dos três hotéis para turistas da cidade, aos poucos ele descobre facetas novas do regime e da sociedade. O que no começo parece ser curiosidade vai se configurando em certo estranhamento. Não há cafés, não há internet; a eletricidade é escassa, as pessoas, reclusas. "Pyongyang: uma cidade fantasma em um país eremita", define Delisle.

A graphic-novel, como é chamado o gênero pelo mercado editorial do ramo, no fim das contas, promove uma aproximação maior entre autor e leitor que de ambos com os norte-coreanos. Oferece, inegavelmente, um material significativo sobre um país que tangencia, mas não se insere nas relações internacionais globalizadas. Com a dinâmica própria de uma animação, Delisle faz uma nem sempre sociologicamente comprometida incursão a Pyongyang.

Pyongyang, uma viagem à Coréia do Norte, de Guy Delisle. Editora Zarabatana Books, 192 páginas branco e preto, preço a definir.

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Reprodução
Capa de Pyongyang: relatos de viagem de um canadense na Coréia do Norte

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