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Quinta, 27 de setembro de 2007, 08h29

Criadores de Mundos: François Schuiten

Claudio Martini

Desde as primeiras histórias em quadrinhos curtas publicadas na revista francesa Métal Hurlant, já era possível vislumbrar os estranhos mundos que Luc e François Schuiten freqüentavam e queriam mostrar aos leitores: um onde os habitantes precisam usar carapaças de metal para não serem devorados por insetos; um outro onde não existe solo e as pessoas, casas e árvores pairam no ar; ou ainda aquele onde uma fenda se abre no chão, revelando uma estrutura geométrica orgânica que sustenta o planeta. Todas essas histórias unem o fantástico a uma sensualidade e erotismo sutil, também exibindo a influência dos pais arquitetos. Esta paixão pela arquitetura se tornaria um dos elementos principais, ou o personagem principal, das HQs dos dois irmãos belgas.

Com essas histórias curtas reunidas no álbum Carapaces, dentro da coleção Les Terres Creuses (As Terras Ocas), partiram para novas descobertas, em HQs mais longas, em Zara e Nogegon. Esta última é graficamente excepcional pois, como o nome NogegoN, que pode ser lido de trás para frente, da mesma maneira a história também cria um paralelo entre cada quadrinho: o primeiro espelha o último, o segundo o antepenúltimo etc. François também realizaria outros títulos em parceria com Claude Renard: Aux Medianes de Cymbiola, realizada a lápis, e Le Rail, ambientada em uma estrada de ferro futurista.

Luc abandonaria os quadrinhos nos anos 1980 e se dedicaria à arquitetura. Tem se especializado no que chama Archiborescence, uma simbiose entre elementos da natureza, como árvores e montanhas, e edifícios. Desenhando projetos de praças, prédios, monumentos e cidades em harmonia com o meio-ambiente (habitárvores) e com aproveitamento de energia natural (bioclimáticas), Luc procura trazer para o mundo real o que antes criava nas HQs.

Já seu irmão François, se aprofundou em mundos imaginários quando começou a trabalhar com o francês Benoît Peeters, roteirista, teórico e crítico de quadrinhos. Um especialista da obra de Hergé, Peeters criou junto com Schuiten um universo paralelo, As Cidades Obscuras. É como se em algum momento do século XVIII ou XIX, o mundo tivesse tomado um outro rumo, levando a uma evolução diferente da civilização ocidental: como se os dirigíveis tomassem o lugar dos aviões, os trens e os bondes substituíssem os carros com motor a explosão, e arquitetura art nouveau nunca tivesse perdido lugar para a moderna.

O primeiro livro da série foi As Muralhas de Samaris, mas a obra seguinte foi a que firmou As Cidades Obscuras: La Fièvre d'Urbicande (A Febre de Urbicanda). Nesse livro, um pequeno objeto com hastes formando um cubo, começa a crescer e se multiplicar, envolvendo toda uma cidade, atravessando paredes e pessoas, mudando a vida de todos. Um elemento arquitetônico se impondo e alterando o dia-a-dia.

A obra de Schuiten traz um mundo de influências e referências: a arquitetura art nouveau de Victor Horta, a literatura de Julio Verne, Borges e Bioy Casares, a fotografia de elementos da natureza de Karl Blossfeldt, as gravuras de Gustave Doré.

Se inspirando e reinventando cidades, Schuiten transforma Bruxelas em Brüsel e Paris em Pâhry. Por exemplo, quem visitar o Palácio da Justiça, em Bruxelas, vai entender de onde surgiram os enormes edifícios que aparecem na obra do artista. Com um saguão gigantesco, cercado de escadas e colunas, imaginamos a impressão que este templo, talvez criado para mostrar ao cidadão o poder da lei e da justiça, deve ter causado ao jovem François em uma visita escolar.

Ele também levou seu universo ao mundo real. Em exposições, pavilhões de feiras e a incrível estação Arts et Metiers, do Metrô parisiense. Como o submarino do Capitão Nemo, a estação é revestida de placas de cobre, grandes engrenagens que surgem do teto, e escotilhas por onde se pode ver algumas invenções significativas do desenvolvimento humano.

O universo das Cidades Obscuras foi se expandindo em muitos outros livros: A Torre, O Arquivista, A Rota de Armilia, Brüsel, A Menina Inclinada, A Sombra de um Homem, A Fronteira Invisível. E ganhou também um guia para este mundo paralelo: Le Guide des Cités.

Pois acaba de sair este mês, sempre pela Casterman, mais um capítulo da série: La Théorie du Grain de Sable - Volume 1 (A Teoria do Grão de Areia), onde uma história de literatura fantástica se encontra com a arquitetura novamente. E agora é uma casa real que faz parte do livro: a Maison Autrique, criada por Victor Horta, em Bruxelas. Os autores estão promovendo a restauração do edifício ao mesmo tempo em que fazem ali uma exposição sobre esse novo trabalho da dupla.

Outro autor essencial dos quadrinhos, inventor de mundos, que só é conhecido aqui através de edições portuguesas ou da Casterman belga.

Alguns sites que podem ser consultados: As Cidades Obscuras (www.urbicande.be), Maison Autrique (www.autrique.be) e Archiborescence (www.sfere.be/2150/).


Claudio Roberto Martini é designer gráfico e publisher da editora de HQs Zarabatana Books

Fale com Claudio Martini: claudio.martini@terra.com.br

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Reprodução
Capa de "A Teoria do Grão de Areia", recém-lançado pela Casterman - um encontro de arquitetura e literatura

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