
Antonio Risério
Podemos falar, hoje, da existência de um rolo compressor "evangélico" no país. E de sua grande e predatória ofensiva entre nós - ofensiva neopentecostalista, agredindo terreiros, atacando a feitiçaria, promovendo exorcismos "em massa" e para as massas, em grotescos espetáculos televisuais. Grotescos, mas eficazes. Fazendo um puta sucesso. Operando como ímãs em meio à classe média e, sobretudo, às classes populares. Sugando devotos das igrejas católicas, desviando adeptos das tendas dos pretos-velhos, drenando gente dos terreiros de candomblé. Convertendo milhões ao seu receituário, em versão de "shopping" suburbano.Nunca o panorama religioso brasileiro tinha sido tumultuado de tal forma. Nunca a cena tinha sido tomada, com tal rudeza, por uma gente que não faz idéia do que sejam coisas como tolerância e cordialidade. Por pastores que não foram educados para a convivência social. A tal ponto que precisamos de uma generosa dose de boa vontade para tentar entender o que se passa.
Um texto de Patrícia Birman e Márcia Pereira Leite traz, como título, a pergunta: "O que Aconteceu com o Antigo Maior País Católico do Mundo?". Depois de um exame da espantosa propagação do neopentecostalismo pelo país, elas hesitam. Concluem que não podem responder à pergunta de forma conclusiva. Mas observam que não existe, hoje, "uma marca única capaz de expressar um destino religioso comum para a totalidade deste país". Muito antes desse texto de Patrícia e Márcia, era possível chegar a conclusão semelhante. Numa pastoral de 1938, o cardeal da Silva afirmou que considerar o Brasil o maior país católico do mundo era pura demagogia.
O Brasil sempre foi, em todo o mundo, o país com o mais alto número de católicos da-boca-para-fora. Aqui, é possível distinguir entre catolicismo oficial e nominal, entre católicos efetivos e formais, praticantes e apáticos, comprometidos e aparentes, participantes e acompanhantes. Ou, ainda, entre católicos convictos e católicos censitários - os que se declaram católicos, por tradição, comodismo ou preguiça, sempre que topam com o perguntador do censo. Sim: o Brasil é o maior país católico-censitário do planeta. O país dos católicos que seguem conselhos de ultratumba e acreditam em figas, despachos e bolas de cristal. Temos católicos macumbeiros, teosóficos, espíritas, freudianos, marxistas e até ateus, que não acreditam em Deus, mas se benzem ao tomar um avião. Mas é mínimo o número de brasileiros que vive em obediência aos princípios e normas da Igreja Católica. Ou mesmo que conhecem tais normas e princípios.
Em 1970, impressionadas com a romaria a Bom Jesus da Lapa, um grupo de freiras rumou para aquela região do Rio de São Francisco, a fim de prestar maiores esclarecimentos sobre a fé católica. Os romeiros, católicos genuinamente brasileiros, não entenderam porra nenhuma. Acharam tão estranha a conversa que concluíram que aquelas freiras só podiam ser protestantes! Aliás, quando era secretário-geral da CNBB, Ivo Lorscheiter fazia uma distinção entre cultura e religião católicas. A cultura católica permeia a vida brasileira. Já a religião é prática de poucos. Coisa realmente rara, entre nós, é um católico - ou um branco - de verdade.
O catolicismo brasileiro sempre foi milagreiro, visagento, mediúnico e messiânico. Mas o que foi realmente decisivo, para que neopentecostalistas conquistassem súditos brasileiros do papa, estava na conjunção de um movimento e de uma atitude. O movimento: a mudança de mentalidade e estilo que a Igreja Católica experimentou, a partir do Concílio Vaticano II, que foi desembocar na encíclica "Populorum Progressio" e na "teologia da libertação". A atitude: a postura de enfrentamento do poder católico que caracterizou as aguerridas agremiações de orientação pentecostal.
O neopentecostalismo não perdeu tempo. Passou a oferecer, em doses transbordantes, o que a Igreja Católica deixara de servir: conforto e esperança espirituais diante da dor e da adversidade. Exaltação da fé. Vivência religiosa. No caso, traduzida em milagres, presença do Espírito Santo, terapia de grupo, veemência mística. Tudo vinculado a soluções para problemas práticos e dramas banais do cotidiano, de traições conjugais a dívidas financeiras, passando pelo alcoolismo.
E se a esquerda eclesiástica tentou falar para o povo, os evangélicos foram mais longe - até porque não sabiam fazer outra coisa. Um populismo feito não de ricos para pobres, ou de intelectuais para iletrados, como sempre aconteceu na história política brasileira - e, sim, de pobres para pobres e de ignorantes para ignorantes.
Terra Magazine
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Valter Campanato/Agência Brasil
A visita do Papa Bento XVI ao Brasil em maio deste ano teve como um dos objetivos "firmar" a fé católica dos brasileiros
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