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Segunda, 1 de outubro de 2007, 14h42

"Vai ter que importar aluno", cutuca Cristovam

Raphael Prado

O senador e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque (PDT-DF) ironiza a proposta de Luiz Inácio Lula da Silva, defendida hoje no programa de rádio "Café com o Presidente", de criar 10 universidades federais até o final do mandato.

- Ele vai ter que importar aluno. Ele deve estar pensando em fazer mais universidades para alunos do Paraguai, da Venezuela, onde a educação está avançando melhor do que o Brasil.

Mais uma vez, o senador critica a política de educação voltada só para o ensino superior, com o argumento de que é eleitoreira, porque "a universidade dá voto". Ele acha que é preciso reformar a educação de base no País e o presidente da República precisa encampar essa idéia.

- Os governadores, mesmo que queiram, não têm condições. E a maioria não quer. A maioria dos prefeitos do Brasil, por exemplo, vêem a educação como problema. Não como solução. (...) Enquanto o presidente da República não abraçar como sua causa a educação de base, o Brasil não vai sair da situação que está aí.

Veja também:
» Lula quer mais 10 universidades federais até 2010

Leia a entrevista do ex-ministro da Educação a Terra Magazine:

Terra Magazine - No "Café com o presidente" desta segunda-feira, Lula anunciou que pretende criar 10 universidades federais até o final do mandato. Isso no mesmo dia em que a Folha de S.Paulo publica um estudo baseado no Saeb (prova que avalia a qualidade dos alunos) dizendo que os estudantes deixam o 3.º colegial com conhecimentos da 8.ª série. O que o senhor acha disso?
Cristovam Buarque - Primeiro, quanto mais universidade, melhor. Mas no caso aqui do Brasil, hoje, ele vai ter que importar aluno. Ele deve estar pensando em fazer mais universidades para alunos do Paraguai, da Venezuela, onde a educação está avançando melhor do que o Brasil. Aqui, hoje, já tem mais vagas em universidades do que alunos para fazerem o vestibular. Tem mais vaga do que aluno concluindo o ensino médio. Hoje tem mais vaga, todo ano, do que jovem terminando o ensino médio.

O senhor sempre foi um crítico dessa política de educação que só beneficia o nível superior dizendo que é uma medida eleitoreira. Essa promessa corrobora sua tese?
Eu acho que a única justificativa não é educacional. É que universidade dá voto. Mas, do ponto de vista educacional, não vamos ter boa universidade enquanto a educação de base for ruim. Primeiro porque o número de estudantes que terminam o ensino médio é pequeno. Segundo que, hoje mesmo, muitos entram na universidade sem condições de seguir o curso. Muitos, muitos, muitos mesmo. E na educação de base a gente não vê o governo dando resposta.

O senhor vê perspectivas de mudança na educação de base?
Com o governo atual, não. Não vejo. Não é prioridade.

Nem pelos governos estaduais?
Eles não têm condições. Por isso que a minha bandeira é: temos que fazer com que a educação seja uma questão nacional. Os governadores, mesmo que queiram, não têm condições. E a maioria não quer. A maioria dos prefeitos do Brasil, por exemplo, vêem a educação como problema. Não como solução. É um problema como, por exemplo, lixo na rua. A educação tem que ser vista como solução. Uma criança tem que ser vista como um poço de petróleo. Que é uma solução, não é problema. Mas hoje os prefeitos vêem como um problema. Tem que contratar mais professor, fazer mais escola. Eles vêem isso como botar água, esgoto, coleta de lixo, doenças. Tudo isso é problema. Então eles vêem com raiva, porque tem mais problema para resolver. E não é, educação é a solução. Enquanto o presidente da República não abraçar como sua causa a educação de base, o Brasil não vai sair da situação que está aí.

Independente do juízo de valor, se é certo ou se é errado, é possível criar 10 universidades federais em 3 anos?
Criar, é. Montar e fazer funcionar, não. Não vai ter nem professor para isso. Das que ele criou nesses 5 anos, quantas estão funcionando? Além disso, dá um impacto imenso na cidade dizer que vai criar uma faculdade. Eu pessoalmente defendo que, se o governo tomar certas precauções, é mais eficiente, mais rápido e mais barato comprar vagas em universidades particulares boas. Já existem universidades particulares com vaga. Você paga. Faz um ProUni mais radical.

Mas mesmo assim ainda faltaria educação de base para que os alunos acompanhassem...
Mesmo assim falta. Não tem como preencher todas as vagas com alunos preparados.

 
Elza Fiúza/Agência Brasil
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ex-ministro da Educação, discorda da idéia do presidente Lula de criar 10 universidades federais até 2010

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