
Antonio Risério
Os "evangélicos" nunca foram passivos. Entraram em cena para o confronto. Para desafiar o poder católico. Sua postura é a da disputa. Do combate. E eles têm cacife para topar a parada. Têm dinheiro, seguidores, bancadas políticas, representantes em todas as esferas do Poder Executivo, estações de rádio, canais de televisão. Mas não é só a Igreja Católica que tem perdido fiéis. Também as religiões brasileiras de origem africana vêm assistindo à sangria de seus templos.Veja-se a campanha contra a umbanda carioca. Na década de 1970, o umbandismo era a religião que contava com o maior número de seguidores nas favelas do Rio. Mas evangélicos e umbandistas disputavam já o predomínio no campo da religiosidade popular no Brasil. E ambos esbanjavam otimismo. Acreditavam que seus credos desbancariam as religiões tradicionais, assumindo a primazia no âmbito da fé popular.
Leia também:
» Os evangélicos
Os umbandistas tinham razões para serem otimistas. Signos da umbanda ultrapassavam de longe a presença de imagens univocamente católicas nos barracos das favelas cariocas. Mas os neopentecostalistas da Assembléia de Deus e similares vieram comendo por dentro. E a umbanda caiu, ironicamente, numa encruzilhada. De uma parte, sufocada pela projeção nacional do candomblé, vista como a verdadeira e profunda religião de extração africana no país. De outra, pela militância catequética dos neopentecostalistas, que a destratavam por seu primitivismo e seu caráter de agência terrestre dos interesses demoníacos.
Mas quem são mesmo os "neopentecostalistas"? A expressão é bíblica. "Pentecostes" é como se chama a festa católica em homenagem ao dia da "descida" do Espírito Santo sobre os apóstolos, quando cada um deles passou a falar em língua que desconhecia. O fenômeno chamado "glossolalia", a capacidade de falar línguas estranhas em estado extático. Do dia passou-se à ideologia. Ao pentecostalismo, palavra forjada para designar um novo tipo de protestantismo, nascido em Los Angeles, em 1906.
Esta corrente protestante acredita na cura espiritual milagrosa, no discurso extático glossolálico e busca a união do ser humano com o Espírito Santo. Na prática, o que domina é o utilitarismo terrestre. A caretice total. No final da década de 1960, eles articularam o Movimento de Jesus, em reação à contracultura. Enquanto os cabeludos da contracultura, em sua excitação mística, procuravam ignorar barreiras raciais e culturais, os pentecostalistas se fechavam em seu credo, promovendo manifestações públicas, empunhando cartazes com a imagem do Cristo, com frases do tipo "Jesus me ama".
Os primeiros pentecostalistas começaram a chegar no Brasil nas primeiras décadas do século que passou. Mas foi só na década de 1940 que seu número começou a crescer. No início dos anos 50, lançaram uma primeira grande campanha popular, a Cruzada Nacional de Evangelização. Era uma transição entre o protestantismo discreto do início do século e a exposição midiática que viria mais tarde. Na década de 1960, ao tempo em que combatia a Pomba-Gira, a grande maioria dos protestantes brasileiros já se agrupava em igrejas de orientação pentecostal. O "boom" estava inteiramente armado. Faltava a guinada do bispo Edir Macedo, fundando a Igreja Universal do Reino de Deus, em 1976, e assim dando origem ao "neopentecostalismo", para usar a expressão cunhada por Ricardo Mariano. Por que "neo"? Simples.
Suas igrejas são geridas em bases empresariais, como unidades lucrativas no mercado mundial dos bens simbólicos. Sua arrancada foi espetaculosa demais - e inexplicável na ponta do lápis. Seus pastores são profissionais, de carteira e contrato assinados. Tudo funciona na base do "franchising". Entre as cláusulas contratuais, de resto, pode figurar a obrigação de o pastor fechar determinado número de terreiros de candomblé ou centros de umbanda. E o que se constituiu foi uma igreja eletrônica. O neopentecostalismo é um protestantismo de massas, fundado no emprego intensivo, extensivo e agressivo dos meios de comunicação. Uma igreja empresarial, midiática e mercadológica. E se distingue, ainda, não simplesmente por sua participação na cena pública, mas no sistema político-partidário do país. No mundo formal da política. Do partidocratismo. Pentecostalismo empresarial, midiático, politicômano e espalhafatoso. Logo, "neopentecostalismo".
Terra Magazine
» Risério fala sobre pobreza no espaço urbano