Terra Magazine

 

Terça, 9 de outubro de 2007, 15h27

"Vou chamar os baianos aos brios", diz João Ubaldo

Claudio Leal

Dois meses depois de avisar que não daria mais entrevistas, nem responderia a todos os e-mails de leitores para terminar um romance, o escritor João Ubaldo não se conteve: voltou ao combate.

Em março, o governo da Bahia cortou o repasse mensal de R$68 mil para a Fundação Casa de Jorge Amado, localizada no Pelourinho. A entidade preserva cerca de 250 mil documentos do autor de "Mar morto", "Capitães da Areia", "Gabriela" e "A morte e a morte de Quincas Berro D'Água". O ar condicionado foi desligado e o acervo está ameaçado.

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e velho amigo e admirador de Amado, João Ubaldo recebeu mensagens indignadas de baianos contrários à medida da Secretaria da Cultura da Bahia. Resolveu largar as pompas do fardão e lançar uma carta-protesto.

Em entrevista exclusiva a Terra Magazine, ele se confessa indignado e exige que o governo volte a apoiar a fundação. E avisa, sem meias palavras: não aceita mais justificativas.

- O governador Jaques Wagner disse que ia mandar o secretário da Cultura (Márcio Meireles) me ligar pra dar explicações. Mas eu não quero explicação. Não há explicação para isso! Não há explicação porra nenhuma! Agora, eu tô mobilizado. Não vou sossegar. Podia até dizer que eles terão que passar por cima do meu cadáver, mas a verdade é que eles não vão me estripar.

Os acadêmicos da ABL estão mobilizados para conversar com o governo da Bahia, para suspender o corte orçamentário. "A Bahia não pode passar uma vergonha dessa!", protesta João Ubaldo, que segue disposto a provocar uma reação dos baianos.

"Vou esculhambar"
O governo justifica o "fechamento da torneira" em virtude da mudança nas regras do fundo de cultura. Outras entidades locais, como Teatro XVIII, também entraram em rota de choque com o secretário Márcio Meireles. Mas João Ubaldo não suspenderá o protesto enquanto não for retomado o financiamento da fundação, que foi estimulada a procurar parceiros na iniciativa privada.

- Vou esculhambar, vou continuar a bater, e chamar o povo baiano aos brios! Não nasce um Jorge Amado a toda hora! E ficam aí uns beletristas de segunda categoria fazendo críticas aos romances dele. Esquecem que Jorge Amado foi um grande romancista, lido e traduzido em todo o mundo! Ele foi um dos maiores vultos da nossa história! - brada o escritor.

Ubaldo lembra o desempenho de Jorge Amado na Constituinte de 1946, quando foi eleito por São Paulo, pela legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

- Na Constituinte de 46, como deputado, Jorge Amado incluiu um artigo para garantir a liberdade de culto religioso. Se não fosse por ele, o candomblé continuaria a ser humilhado. As casas dos terreiros eram invadidas! O candomblé é um símbolo. Se Jorge Amado não fosse brigar, continuaria sendo invadido e humilhado!

"Vergonha na cara dos baianos"
Na Bahia, Jorge Amado, o jornalista Odorico Tavares, o compositor Dorival Caymmi, o etnólogo francês Pierre Verger e o pintor Carybé pertencem a uma geração que valorizou a cultura negra e lutou pela defesa dos terreiros de candomblé. O povo de santo, ainda hoje, presta homenagens aos "fundadores" da baianidade.

- Não digo que, sem Jorge Amado e Caymmi, a Bahia não existiria. Existiria, sim. Agora, podia ser uma merda de cidade portuária, sem reconhecimento internacional - avalia João Ubaldo.

Seguem o desabafo e a ira santa:

- É uma vergonha, uma indignidade para a Bahia. Jorge Amado quis que seu acervo ficasse em Salvador, no Pelourinho. Recebeu uma proposta da Universidade de Harvard, mas não quis! Jorge queria ver seu acervo junto ao povo que ele amava. Ele defendeu a Bahia até a morte, não pode ser desrespeitado. Para o Brasil, Jorge Amado é um símbolo. É um ícone, um Pelé. É lido em 52 países! O povo baiano precisa tomar vergonha na cara. Não vou bancar o porreta, mas eu já tomei vergonha.

 
Marcio Iudice/Especial para Terra
O romancista João Ubaldo Ribeiro: "Sem Jorge Amado e Caymmi, a Bahia seria uma merda de cidade portuária".

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