
Luiz Gonzaga Belluzzo
A economia americana, nos últimos 20 anos, foi impulsionada, sobretudo, pelo crescimento sem precedentes do consumo das famílias. Nos últimos três anos e meio essa característica da economia americana exasperou-se: o crescimento do consumo "descolou" da evolução da renda, dos salários reais e do emprego. Sua evolução depende cada vez mais do efeito-riqueza, concentrado, nos últimos anos, na valorização dos imóveis residenciais.A crise nos mercados imobiliários e suas repercussões sobre a disposição dos bancos em conceder empréstimos atormentam os policy makers e os economistas americanos: os últimos dados do Departamento de Comércio mostram uma desaceleração, ainda moderada, dos gastos dos consumidores e uma queda acentuada na concessão de novos empréstimos por parte das instituições financeiras. O consumo representa mais de 70% da demanda agregada nos Estados Unidos.
A incorporação do consumo de massas à dinâmica do capitalismo é um fenômeno americano. A forma especificamente capitalista do consumo começa a se definir entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX com a "suburbanização" das cidades e a difusão dos duráveis impulsionada pela construção das redes de energia elétrica, pelo desenvolvimento do crédito e pelas técnicas de propaganda inerentes à concorrência monopolista. Este fenômeno chamou a atenção do economista Thornstein Veblen já no final do século XIX. Ao longo do século XX, foi objeto das investigações de Vance Packard, James Dusenberry. O livro mais instigante de John Kenneth Galbraith, A Sociedade Afluente, já sublinhava as relações entre o desenvolvimento dos padrões de consumo, a grande empresa e as mudanças nos hábitos e no comportamento social dos americanos.
Este componente da demanda efetiva não inclui apenas o "consumo dos capitalistas", mas deve ser assim qualificado por conta da forma de financiamento do gasto dos consumidores. Nela estão incluídas as novas modalidades (cartões de crédito, por exemplo) e a valorização do estoque de riqueza ao longo dos ciclos de crédito, o que desvincula crescentemente o consumo do comportamento da renda corrente.
Não se trata apenas da completa sujeição das "necessidades" aos imperativos da mercantilização universal. No capitalismo avançado norte-americano, o circuito gasto-renda-consumo começa e termina com a valorização do patrimônio das famílias. A valorização do patrimônio líquido facilita a concessão de garantias para a obtenção de crédito barato para fianciamento do gasto das famílias, o que alimenta a acumulação de lucros e de liquidez pela grande empresa.
No regime da globalização à americana, o consumo final (e intermediário) da economia se abastece nas usinas produtos baratos - quando não a preços cadentes - dos produtivistas da Ásia, com ganhos reais para os consumidores e as empresas, estas contidas em seu impulso de aumentar as margens de lucro. Há suspeitas que as façanhas dos trabalhadores chineses tenham sido mais profícuas para a baixa inflação do que as peripécias de Alan Greenspan.
Criatura da "Era de Roosevelt", o sistema de proteção social, particularmente a Social Security, tornou as famílias mais confiantes em relação ao futuro e, portanto, mais inclinadas ao endividadmento. A rede de proteção e as políticas de sustentação da renda e do emprego, ao impedir o aprofundamento das recessões, sustar o desenvolvimento das crises de crédito e garantir uma renda mínima para os desempregados, contribuíram de maneira decisiva para construir um conjunto de convenções favoráveis ao ajustamento mais suave dos gastos de consumo das famílias americanas. A despeito dos temores suscitados pela crise nos mercados imobiliários e e pelo aumento da aversão ao risco nos mercados de crédito, o "ajustamento do consumo", até agora, foi bem mais comportado do que imaginavam os pessimistas. Cruz credo, saravá treis veiz.
Os economistas ocidentais torcem desesperadamente para a "desvinculação" da economia chinesa das turbulências que afligem a economia americana. Recomendam uma mudança na composição da demanda agregada que sustenta a expansão da economia chinesa: uma menor dependência das exportações líquidas e do investimento e, simultaneamente, um aumento na participação do consumo das famílias (hoje um tanto acima de 30%). Não vai ser fácil. Seja como for, não por acaso, a "torcida" dos economistas vem acompanhada quase sempre de recomendações para a re-constituição de um sistema de proteção social, capaz de estimular os chineses a reduzir as poupanças que guardam cuidadosamente nos bancos como seguro contra as incertezas da economia.
Terra Magazine
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AP
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