
Antonio Risério
A antropóloga Maria Lúcia Montes estudou o assunto. A prática neopentecostal está assentada em dois princípios doutrinários: a teologia da prosperidade e a guerra espiritual. De acordo com o princípio da prosperidade, quem se converte, nasce novamente em Cristo. Torna-se "filho de Deus". E este, senhor do universo, tudo coloca à disposição de seus filhos, para que tenham sucesso em seus empreendimentos terrestres. A pobreza é obra do diabo. Entre a prosperidade a que se tem direito pela conversão e a vida que o converso realmente vive, interpõem-se as forças do Mal, tentando conduzir o fiel à perdição. Daí que o fiel esteja obrigado a travar, sem descanso, a "guerra espiritual" contra Lúcifer. E o campo dessa guerra é o templo. A participação no culto neopentecostal.
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Maria Lúcia, nos termos de Max Weber, observa muito bem que, ao fazer Deus estender potencialmente a todos os seres humanos a sua graça, traduzida na prosperidade que todos devem gozar, através da conversão, o neopentecostalismo incorpora o "espírito do capitalismo", mas faz economia da "ética protestante" do trabalho. Basta o sujeito ser fiel. A mediação do trabalho, como mecanismo de conquista da prosperidade, desaparece. É a cara da malandragem brasileira. E de uma sagacidade diabólica: tudo se centraliza no templo - e não há responsabilidade alguma no plano da existência individual. O que fazemos de mal é obra não nossa, mas do demônio.
E as igrejas neopentecostais são autóctones. Brasileiras. E mais: produtos de exportação, como as telenovelas da Rede Globo. Edir Macedo é a Janete Clair do campo religioso brasileiro. Equivalem-se mais ou menos no plano intelectual, na visão maniqueísta do mundo, na exploração de melodramas existenciais e no forte apelo popular de seus discursos. Assim como as telenovelas globais são uma recriação brasileira do chamado dramalhão mexicano, o neopentecostalismo é a recriação tropical de uma formulação teológica "made in USA". E é na conjugação desse aspecto recriador local e do investimento na mídia que está a chave do sucesso da Universal e das igrejas que adotaram seu modelo.
Maria Lúcia viu lucidamente: "E se é certo que os princípios doutrinários segundo os quais se organiza sua teologia são importados... é preciso reconhecer, contudo, que eles sofreram no Brasil um processo de reelaboração profunda... Na verdade, ao fazer da 'guerra espiritual' uma agressiva arma de combate às demais religiões, ao catolicismo e ao universo religioso afro-brasileiro, identificando neles a obra do Demônio que impede os homens de gozar de todos os benefícios que Deus lhes concede no momento em que o aceitam como Senhor... a Igreja Universal conseguiu reapropriar em seu benefício, mas pelo avesso, um rico filão da fé já dado na tradição das religiosidades populares no Brasil. E é nessa retradução doutrinária em termos das linguagens espirituais mais imediatamente próximas, no contexto brasileiro, que reside um dos fatores fundamentais do seu êxito".
É assim que a liturgia neopentecostal vai aparecer como uma espécie de "ecumenismo popular às avessas". Como uma apropriação, com sinal trocado, das religiões brasileiras de extração africana. Como exorcismo de caboclos, pretos-velhos, inquices, voduns, orixás, todos então classificados nas legiões do diabo. Os evangélicos conhecem a forma e o conteúdo dessas religiões brasileiras. Dominam a técnica do transe. E invertem o jogo: expulsam o diabo (da umbanda, do candomblé) que possui o corpo do fiel.
O exorcismo ocupa um lugar especialíssimo no culto neopentecostal. Sintomaticamente, seus pastores não empregam a palavra "exorcismo". Usam a palavra corrente no candomblé e na umbanda: descarrego. Não se nega a realidade do transe. Não se nega o poder de práticas populares de origem africana ou raiz indígena. Não se nega a existência dos deuses do candomblé ou das entidades da umbanda. Todos são chamados aos templos neopentecostais, mas para dali serem escorraçados. Ou seja: o repertório das crenças populares do Brasil é incorporado, mas negativamente. Daí a força de atração evangélica. O brasileiro pobre se sente em casa, entre feitiços, trabalhos e macumbas. Mas para saber que aquilo é obra do diabo e que ele, se tiver forças para tanto, pode se sentar sob o manto protetor do verdadeiro Deus. É de uma esperteza demoníaca.
Em seu livro "Orixás, Caboclos & Guias: Deuses ou Demônios?", Edir Macedo define o sincretismo religioso brasileiro como "uma mistura curiosa e diabólica de mitologia africana, indígena brasileira, espiritismo e cristianismo". E parte para o ataque: "...quando temos problemas, Satanás se apresenta imediatamente e, supostamente, se coloca à nossa disposição para resolvê-los. É aí que entram a umbanda, quimbanda, candomblé e práticas espíritas de um modo geral, que são os principais canais de atuação dos demônios, principalmente em nossa pátria". Bem vistas as coisas, diabólico, mesmo, é o neopentecostalismo.
Terra Magazine
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Ernani Alves/Terra
O neopentecostalismo não nega as crenças populares do Brasil; escorraça
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