Luciano Borges
Sexta-feira à noite, no meio da entrevista coletiva com o técnico Dunga, uma equipe do programa Casseta e Planeta emendou uma pergunta fazendo um trocadilho com o Equador. O técnico da Seleção Brasileira não gostou, mas respondeu com diplomacia e secura. Durante os quatro dias de treinamento do time do Brasil na Granja Comary, em Teresópolis, Rio de Janeiro, o assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, organizou três coletivas com Dunga. No final de todas elas, ele agradeceu aos jornalistas, brincando e dizendo que "foi legal e vocês nem provocaram o Dunga".O relacionamento entre o treinador da Seleção Brasileira e os jornalistas anda no fio da navalha. Dunga já foi mais ríspido quando ouvia perguntas que lhe incomodavam. Ele odeia saber de comentários que não condizem com o que ele fez durante os treinos.
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Aos poucos, ele está diminuindo o espaço de trabalho que a mídia tem quando acompanha o time brasileiro. Especialmente as emissoras de TV. Nesse primeiro período de treinamento para as eliminatórias Sul-Americanas, o treinador já proibiu a instalação das "tendas-estúdios" que permitiam a realização de programas com horas de duração. Na verdade, os programas continuaram. Mas os comentaristas e apresentadores sofreram debaixo de guarda-sóis e trabalharam sob um calor intenso de 32 graus, em média.
Quem também sofreu foram os jogadores. Dos 22 convocados de Dunga, 20 vieram do futebol europeu. Segundo o preparador físico, Paulo Paixão, eles se apresentaram mostrando estarem muito fortes, mas pouco velozes e resistentes. Por isso, a Comissão Técnica insistiu em realizar três coletivos, precedidos sempre por trabalhos com corridas de tiros curtos e médios.
Dunga deixou a Granja Comary e seguiu junto com os atletas para a Colômbia, sem deixar claro quem será o goleiro titular, embora tenha escalado Júlio César o tempo todo no time principal. O atleta, da Internazionale de Mião, parece ter saído na frente. Mas Dunga costuma confundir os repórteres que cobrem a Seleção. Ou, como o próprio técnico diz, os homens de imprensa não prestam atenção ao que ele faz nos treinos.
A entrevista feita por Terra Magazine foi mais uma conversa depois da saia-justa com o pessoal do Casseta e Planeta. Nela, Dunga fala sobre Vágner Love, sobre o relacionamento com os jornalistas, sobre o trabalho feito na Comary e, também, deixa claro que não admite sofrer pressões de qualquer tipo.
Afinal, ele faz questão de deixar claro que tem compromisso com apenas uma pessoa: Ricardo Teixeira, presidente da CBF. "As pessoas se enganam quando pensam que vou continuar técnico depois daqui. Eu aceitei uma proposta de trabalho do chefe. Se um dia o chefe não quiser mais, eu vou pensar o que fazer. Posso até continuar nessa profissão, mas, a princípio, vou tocar a minha ONG e dar as minhas palestras".
Terra Magazine - Com você, o goleiro que treina no time titular é titular?
Dunga - Independe. Às vezes pode ser que sim, às vezes não. O importante é saber olhar o treino. Antes da Copa América, eu estava colocando o Elton no time titular. Nos últimos treinos, escalei o Doni. E foi o Doni que jogou.
Você não é daqueles treinadores que prefere que o goleiro reserva jogue no time titular para trabalhar mais no treino?
Antigamente era assim. Mas hoje, os dois times que eu tenho são muito bons, os goleiros vão ter trabalho do mesmo jeito.
O Doni deu entrevistas dando a entender que quem joga é o Júlio César...
Eu não disse nada para os dois. Não sei de onde ele tirou isso.
Você fez três treinos coletivos aqui na Granja. O time está precisando de entrosamento?
Esses jogadores precisam correr. Os caras que jogam na Europa (20 atletas) costumam treinar em campos curtos e não estão mais acostumados a treinos coletivos mais longos. Lá na Europa o gramado é diferente daqui. Por isso, eles treinam aqui com velocidade e, depois de meia hora, já sentem dores nas pernas.
O preparador físico Paulo Paixão disse que os atletas "europeus" fazem muito trabalho anaeróbico (fortalecimento de músculos) e pouca preparação aeróbica (velocidade e resistência)...
É isso. Por isso tive que dar um descanso para eles na quinta de manhã. Eles não têm esse costume de treino de velocidade na Europa.
O Robinho treinou bem?
Treinou.
Vai jogar?
Você vai saber no domingo.
O Afonso Alves foi bem nos treinos?
Ele foi bem, foi dentro do esperado. Mas o engraçado é que hoje um comentarista de TV disse que o time melhorou depois que eu coloquei três volantes em campo, com o Elano. Mas quem fez o gol foi o Afonso. O Elano não estava nem em campo. Pelo time do cara, eu estava jogando com 12 na linha.
O Vágner Love disse em entrevista que existem ótimos atacantes brasileiros na Europa que estão se recuperando de cirurgias ou voltando a jogar bem. Por isso ele tem pressa em fazer gols e mostrar serviço...
Pois é. Tem que ser mais fominha. Centroavante tem que fazer gols. Mas o Vágner Love foi muito bem na Copa América, participando de quase todos os gols. Na final contra a Argentina, ele estava nas três jogadas.
Dunga, você proibiu as emissoras de TV de instalarem tendas que se tornam estúdios ao vivo aqui na Granja. Por quê?
Ué, todo mundo não criticou como foi lá na Suíça antes da Copa do Mundo da Alemanha? Então. Eu corto essas coisas e depois o pessoal reclama, mas, aos poucos, vou cortar mais ainda.
Como vai sua relação com os jornalistas?
Está bem. É que, às vezes, os caras fazem críticas sem prestar atenção ao treino. Vêem um gol e viram as costas para conversar. E depois fazem perguntas que não têm sentido. Se eu responder de maneira rude, eles ficam bravos comigo. Então, eu sei que tenho que entender esse lado.
Está muita pressão?
Não. Sabe de onde vem a pressão? Comigo, nenhum empresário vem falar de jogador. Mas eles, às vezes, usam a imprensa para mandar recado. E, às vezes, alguns jornalistas parecem fazer sempre as mesmas perguntas sobre o mesmo atleta o tempo todo.
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CBF/Divulgação
Dunga caminha na Granja Comary durante treino
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