Terra Magazine

 

Terça, 16 de outubro de 2007, 07h59

A paz e o meio ambiente

Fabio Feldmann

Nesta última sexta-feira foram anunciados os dois ganhadores do Prêmio Nobel da Paz em 2007: o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) e o ex-vice-presidente americano Al Gore. A notícia é extremamente positiva para os ambientalistas de todo o mundo, já que coloca a questão ambiental em um patamar muito mais amplo e abrangente, dando o devido reconhecimento a líderes que lutam pela preservação do planeta e, correlatamente, pela paz mundial.

O IPCC, criado em 1988 através de uma iniciativa conjunta entre a Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), é um órgão intergovernamental aberto a todos os países membros destas duas agências, que tem como finalidade maior fornecer informações científicas, técnicas e sócio-econômicas relevantes para o entendimento e enfrentamento das mudanças climáticas. O IPCC trabalha através de seus três grupos de trabalho, que elaboram relatórios a respeito das mudanças climáticas, seus impactos ambientais e sócio-econômicos, e sobre estratégias de resposta como mitigação e adaptação. Em 2007 o IPCC divulgou seu quarto relatório acerca dos temas expostos acima, colaborando para que o tema das mudanças climáticas ganhasse destaque nos noticiários de todo o mundo e começasse a permear com mais intensidade as discussões dos tomadores de decisão ao redor do globo.

No que se refere a Al Gore, creio que todos tenham visto seu documentário "Uma Verdade Inconveniente" e para aqueles que ainda não viram fica aqui a sugestão. O documentário, que ganhou o Oscar no ano passado, trata do tema das mudanças climáticas de uma forma objetiva e acessível, com gráficos e imagens extremamente interessantes. Porém, a atuação de Al Gore nesta área não começou com seu documentário. Ao contrário do que muitos podem pensar, ele está envolvido com a questão ambiental há algumas décadas, tendo sido, por exemplo, o responsável pela assinatura do Protocolo de Kyoto em 1997, quando representava os Estados Unidos na condição de vice-presidente: apesar do documento ter entrado em vigência sem a participação deste país, a atuação de Al Gore foi importantíssima, denotando que há espaço sim para a participação dos Estados Unidos e que isto não afetaria a economia do país nos parâmetros defendidos pelo atual governo.

O interessante neste caso é a relação feita entre mudanças climáticas e paz mundial, num prêmio oferecido não pela atuação passada dos ganhadores, mas pelo entendimento de que em um futuro próximo a questão ganhará dimensões alarmantes e que a atuação dos premiados colabora hoje para que futuros conflitos sejam evitados. De fato as mudanças climáticas poderão gerar uma série de conflitos, na medida em que tornarão grande parte dos recursos naturais escassos, gerarão uma forte migração em diversas áreas do globo e afetarão a economia de praticamente todos os países. Desta forma, conscientizar a sociedade civil e os governos e lutar para que tomem atitudes mais responsáveis no que se refere ao clima do planeta é de fato uma luta pela paz mundial.

Além disso, este Prêmio Nobel pode ser encarado como uma sinalização política de que o mundo clama por posicionamentos mais responsáveis, principalmente no que tange as ações da nação mais poderosa do mundo: os Estados Unidos. A premiação de seu ex-vice-presidente que luta pelo meio ambiente e que assinou o Protocolo de Kyoto pode ser encarada como uma crítica feroz ao atual governo Bush, que apesar de todas as evidências do aquecimento global e da enorme responsabilidade que seu país tem nesse processo reluta em assumir compromissos sérios na redução de emissão de gases efeito estufa.

Por fim, além da mensagem política que pode ser extraída deste prêmio, fica explícita a importância que a questão ambiental vem ganhando nos últimos anos, já que em 2004 o tema também foi contemplado com a premiação da queniana Wangari Maathai. Fica aqui meus parabéns para os dois merecidos vencedores do Prêmio Nobel este ano e o desejo que o tema das mudanças climáticas seja tratado cada vez com mais responsabilidade pelos tomadores de decisão em todo o mundo e, principalmente, no Brasil!


Fabio Feldmann é consultor, advogado, administrador de empresas, secretário executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade e fundador da Fundação SOS Mata Atlântica. Foi deputado federal, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Dirige um escritório de consultoria, que trabalha com questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável.

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 
AP
Al Gore, Nobel da Paz 2007. Dez anos antes atuara pela assinatura do Protocolo de Kyoto

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol