
Rosalía Vergara
Distrito Federal, México
As raízes do EPR (cujo site na internet traz informações bastante detalhadas) são as mesmas do PROCUP-PDLP (Partido Revolucionário Operário Campesino União do Povo - Partido dos Pobres), que nasceu em 1964, em Guerrero e Oaxaca, sob a liderança do professor Lucio Cabañas. A organização existe, portanto, há 43 anos, mas não tomou sua forma atual como EPR até 1994, quando 14 organizações guerrilheiras decidiram se unir.
"É o movimento guerrilheiro de maior poder militar porque é o que realizou ações mais contundentes no México", afirma José Gil Olmos, jornalista que cobre os movimentos armados no país desde 1994 e conduziu entrevistas com os principais dirigentes do EPR e do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
Em entrevista a Terra Magazine, Gil Olmos afirma que "não estão contabilizados quantos militantes tem esse grupo armado, ou quais são os efetivos combatentes, mas se sabe que tem presença em 21 Estados da República mexicana. Sua principal base de apoio está em Oaxaca, Guerrero, Hidalgo, Veracruz, Puebla, Estado de México e no Distrito Federal".
Segundo Gil Olmos, "o EPR é formado por camponeses, indígenas, operários e colonos ou habitantes de comunidades marginalizadas. Sua principal força é a formação de células clandestinas integradas por no máximo cinco pessoas, que se vinculam a outras células".
A apresentação "formal" da organização em sua nova identidade como EPR aconteceu em 1996, na região de Águas Blancas, parte do Estado de Guerrero, no sul do México, quando do primeiro aniversário do assassinato de 17 camponeses da Organização Camponesa da Serra Sul (OCSS), que foram atacados por policiais das forças estaduais. Naquela ocasião, o EPR declarou que sua luta era "por uma mudança no modelo econômico, político e social do país, pela via armada e conclamando o povo à Revolução".
"Para isso, a organização faz uso de uma estratégia que define como guerra popular prolongada", explica Gil Olmos. Sua diferença com relação ao EZLN é que se trata de uma guerrilha mais agressiva, dotada de mais armamento, que usa explosivos e não descarta assaltos a bancos e seqüestros de empresários para captar recursos. Sobre este assunto em particular, o jornalista Raymundo Rivapalacio afirmava, em suas colunas publicadas no jornal "El Universal", que o EPR foi responsável pelos seqüestros dos empresários Alfredo Harp Helú, Angel Losada e Juan Bosco Cortina, nos anos 90.
De acordo com as reportagens de Rivapalacio, fontes no governo mexicano mencionaram que os guerrilheiros, desde a formação do PROCUP, contavam com a assessoria do grupo terrorista basco ETA (Euskadi Ta Azkatazuna), quanto ao uso de explosivos e o manejo da logística para as operações de seqüestro de empresários. O EPR vem sendo o grupo guerrilheiro mais perseguido pelo Estado mexicano. Em 1998, realizou ataques simultâneos em Oaxaca e na Cidade do México. De lá para cá, o governo deteve 60 supostos guerrilheiros e matou 30 pessoas em combate.
Em 1999, por diferenças ideológicas, o EPR sofreu uma ruptura. A divisão deu origem a outros movimentos guerrilheiros, como o Exército Revolucionário do Povo Insurgente (ERPI), as Forças Armadas Revolucionárias do Povo (FARP) e a Tendência Democrática Revolucionária do Povo (TDRP). No entanto, o EPR segue sendo a coluna central dessas organizações armadas, "e em suas fileiras estão os quadros mais velhos, os de mais tradição na guerrilha", afirma Gil Olmos, repórter da revista "Proceso". Entre os líderes do grupo, figuram Gabriel Alberto Cruz Sánchez e Raymundo Reyes Anaya, que ficaram pelo menos 35 anos na clandestinidade e, em 25 de maio, "foram desaparecidos pelo governo", como asseguram comunicados veiculados pelo EPR, nos quais se exigia que eles fossem apresentados com vida, sob a ameaça de violentas represálias.
"Nesse contexto, hoje em dia há uma guerra subterrânea entre o governo mexicano e o EPR, sobretudo por causa do desaparecimento, há mais de quatro meses, de Gabriel Alberto Cruz Sánchez e Edmundo Reyes Anaya (mais informações em http://hastaencontrarlos.blogspot.com), os dois primeiros desaparecidos políticos do governo de Felipe Calderón", explica Gil Olmos. "É por isso que o EPR ameaçou seguir atuando militarmente enquanto não os apresentarem com vida", acrescentou o pesquisador.
E assim surgiu no México uma nova "guerra suja", similar àquela que foi coloca em prática nos anos 70 para combater a Liga Comunista 23 de Setembro, integrada por oito agrupamentos clandestinos, e o PROCUP-PDLP. "Há desaparecimentos forçados, repressão, acusações, ameaças, violações a homens e mulheres, perseguição a supostos guerrilheiros e a ex-guerrilheiros ou membros de organizações da sociedade civil. Nos anos 70 e nos 80, foram registrados cerca de 1,5 mil mortos e 700 desaparecidos como parte desse conflito", enfatiza Gil Olmos.
Em 2006, antes de Felipe Calderón assumir a Presidência, a guerrilha prontamente comunicou ao presidente eleito a sua postura. Os principais representantes do grupo disseram que não o reconheciam como Chefe de Estado porque não havia chegado ao poder de forma legítima, e anunciaram que durante seu governo continuariam a guerra popular prolongada. Em novembro daquele ano, as FARP assumiram a responsabilidade por ataques com bombas à sede do PRI, a diferentes bancos e ao Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário da Federação (TEPJF).
"Naquela ocasião, os grupos guerrilheiros atuaram de maneira conjunta e clandestina", afirma Gil Olmos. Inclusive se aliaram de alguma maneira com organizações como a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), mas de uma forma silenciosa, com sigilo.
No ano passado, durante o conflito em Oaxaca, os guerrilheiros optaram por uma retirada estratégica; participaram do movimento como parte da sociedade civil, se misturavam ao povo nas passeatas, mas evitavam atuar como guerrilha. Diziam que seu plano era observar como atuava o povo organizado no Estado onde o EPR tem suas principais bases e onde nasceu.
"Além disso, ainda que houvesse sinais, não foram encontrados vínculos com o narcotráfico", ressalta Gil Olmos, que também esteve em Oaxaca cobrindo o conflito entre o governo do Estado e os professores. No entanto, o jornalista presume que "existe uma coexistência" em zonas onde há tráfico e guerrilha, mas reconhece que "não há provas". Segundo fontes governamentais, o EPR é o grupo de guerrilha mais perigoso da atualidade no México, e tem vínculos com movimentos guerrilheiros da América Central e do Sul.
Terra Magazine
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Guerrilheiros do Exército Popular Revolucionário
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