Terra Magazine

› Terra Magazine › Mundo

Sexta, 19 de outubro de 2007, 09h00

Não veremos uma China democrática, diz pesquisador

Daniel Bramatti

Os grupos pró-democracia são muito fracos na China e não conseguirão provocar, nas próximas décadas, o desmonte da dominação do Partido Comunista, afirma o pesquisador Xulio Ríos, autor do livro "Mercado y Control Político en China" e coordenador do Observatório da Política Chinesa no Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional.

"Os episódios de contestação têm sua origem em problemas muito concretos, estão atomizados e carecem ainda de uma perspectiva global. Por outro lado, apesar das dificuldades e  problemas, a tônica geral do processo chinês é de uma melhora gradual das condições de vida", afirmou Ríos.

Veja também:
» Especial 17º Congresso do Partido Comunista chinês
» Comunistas apuram listas para escolha de novos líderes
» China formaliza protesto por tributo dos EUA ao Dalai Lama
» Comunismo "cool" é moda entre jovens chineses

Em entrevista a Terra Magazine, por e-mail, o pesquisador falou sobre Jogos Olímpicos, direitos humanos, controle da internet e meio ambiente na China. Leia a seguir:

Terra Magazine - Onde estão as forças pró-democracia na China? Por que não vemos um movimento forte na sociedade civil contra a dominação do Partido Comunista?
Xulio Ríos - Creio que essas forças são muito fracas. Até os setores econômicos que giram em torno da economia privada são partidários de não propiciar grandes reformas que, consideram eles, poderiam afetar a estabilidade. Os episódios de contestação têm sua origem em problemas muito concretos, estão atomizados e carecem ainda de uma perspectiva global. Por outro lado, apesar das dificuldades e  problemas, a tônica geral do processo chinês é de uma melhora gradual das condições de vida. Hoje em dia, cansados dos debates ideológicos do passado, os chineses se preocupam muito com o avanço material, e enquanto for assim esse outro debate não passará ao primeiro plano. Não deixa de perceber-se esta questão como algo que interessa mais a outros que a eles próprios, o que gera também atitudes de rechaço de corte nacionalista. Sem esquecer a moral dupla que praticamos quando as entidades corporativas que representam os interesses empresariais ocidentais na China se opõem, por exemplo, a uma lei como a de contratação de empregados, recentemente aprovada, que inclui avanços sociais muito moderados.


O senhor acredita que o governo chinês, em comparação com outras ditaduras, é tratado com indulgência pela imprensa ocidental? Isso tem relação com a importância econômica da China e à sua forte integração com as economias capitalistas?
Não se pode generalizar, mas a ambivalência no reconhecimento dos avanços econômicos e a denúncia da persistência de poucos avanços em outros campos, como o reconhecimento das liberdades públicas, é bastante evidente. Inclusive poderia se especular que, em algumas ocasiões, se utilizam as pressões de ordem política para obter vantagens econômicas, levando em conta a necessidade que tem a China de melhorar a sua imagem internacional neste aspecto. Mas, sem lugar a dúvidas, os interesses econômicos, sua crescente dimensão e importância, influem na existência de muitos matizes.


A censura à Internet na China funciona? O governo está conseguindo bloquear o fluxo de informações?

Funciona e põe limites que às vezes são impossíveis de contornar. É um conflito constante no qual o regime dispõe cada vez de  maiores meios, pois tem consciência de sua importância. E não se trata só de censura, mas de inundar os meios de comunicação com aquela informação (e aparência de informação) que lhe interessa.


O senhor considera viável um futuro de democracia e respeito ao Estado de Direito na China? Nesta geração?
Creio que, salvo surpresas, não veremos isso nesta geração. Na China, dizem que nada pode-se fazer abruptamente. Inclusive os partidários desta opção consideram que as condições não estão maduras e que será necessário alcançar um maior nível de desenvolvimento, generalizar a educação etc. para avançar  nesta linha. A concepção do PCCh a respeito é meramente instrumental e não tem outro objetivo a não ser reforçar seu poder e hegemonia. Inclusive a  preocupação em separar Estado e Partido enfraqueceu-se nos últimos tempos. Em uma etapa crucial, como a que se avizinha, esta tendência poderia reforçar-se. A médio prazo, me parece inevitável.

Como o senhor vê as diferenças, nos Estados Unidos, entre Republicanos e Democratas em relação à China?
Há alguns matizes, mas, em geral, a diferença se apóia em seu comportamento alternativo segundo sejam governo ou oposição. As relações bilaterais são muito importantes e os atritos sempre estarão presentes. Governem republicanos ou democratas, as pressões dos Estados Unidos em relação à China nos próximos anos irão aumentar, porque a China não renuncia à sua autonomia política, e os EUA querem submetê-la a suas redes de dependência.

O aquecimento global é uma questão relevante na política chinesa? A população se preocupa com a questão ambiental?
Houve uma mudança neste sentido por imperativos econômicos internos e também por pressões internacionais. O governo está consciente sobre o assunto. Outra coisa é que habilite políticas e recursos suficientes para contornar o problema, que é muito sério. Socialmente, também aumenta, mas o processo será longo e exigirá um grande investimento, também em formação e capacitação.

Quais são as conseqüências políticas da crescente influência econômica da China na América Latina?
A presença da China na região aumentará de forma significativa nos próximos anos, e também sua influência política, favorecida não só pelo aumento de seu poderio global mas também pela atração que sua experiência exerce sobre  alguns governos e as simpatias que suscita em alguns líderes, por sua posição favorável ao multilateralismo e contrária à hegemonia norte-americana. O recente estabelecimento de relações diplomáticas com a Costa Rica ativa seu interesse pela região, onde Taiwan conserva ainda a maioria de seus aliados.

O senhor acha que os Jogos Olímpicos terão alguma influência na política chinesa em relação a direitos humanos e tolerância com o dissenso?

No substancial, não creio. Haverá melhoras cosméticas e parciais, até sofisticadas, mas as medidas "preventivas" se aplicarão de forma contundente e implacável. As medidas de segurança adotadas durante a celebração do 17º Congresso do Partido Comunista foram um ensaio geral do que poderia acontecer durante o evento. A China não brinca com essas coisas.

Terra Magazine

 
AP
Militares desfilam em Pequim, no 17º Congresso do Partido Comunista

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela