
Daniel Bramatti
Os grupos pró-democracia são muito fracos na China e não conseguirão provocar, nas próximas décadas, o desmonte da dominação do Partido Comunista, afirma o pesquisador Xulio Ríos, autor do livro "Mercado y Control Político en China" e coordenador do Observatório da Política Chinesa no Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional.
"Os episódios de contestação têm sua origem em problemas muito concretos, estão atomizados e carecem ainda de uma perspectiva global. Por outro lado, apesar das dificuldades e problemas, a tônica geral do processo chinês é de uma melhora gradual das condições de vida", afirmou Ríos.
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Em entrevista a Terra Magazine, por e-mail, o pesquisador falou sobre Jogos Olímpicos, direitos humanos, controle da internet e meio ambiente na China. Leia a seguir:
Terra Magazine - Onde estão as forças pró-democracia na China? Por que não
vemos um movimento forte na sociedade civil contra a dominação do Partido
Comunista?
Xulio Ríos - Creio que essas forças são muito fracas. Até os setores
econômicos que giram em torno da economia privada são partidários de não
propiciar grandes reformas que, consideram eles, poderiam afetar a
estabilidade. Os episódios de contestação têm sua origem em problemas muito
concretos, estão atomizados e carecem ainda de uma perspectiva global. Por
outro lado, apesar das dificuldades e problemas, a tônica geral do
processo chinês é de uma melhora gradual das condições de vida. Hoje em dia,
cansados dos debates ideológicos do passado, os chineses se preocupam muito
com o avanço material, e enquanto for assim esse outro debate não passará ao
primeiro plano. Não deixa de perceber-se esta questão como algo que interessa
mais a outros que a eles próprios, o que gera também atitudes de rechaço de
corte nacionalista. Sem esquecer a moral dupla que praticamos quando as
entidades corporativas que representam os interesses empresariais ocidentais
na China se opõem, por exemplo, a uma lei como a de contratação de empregados,
recentemente aprovada, que inclui avanços sociais muito moderados.
O senhor acredita que o governo chinês, em comparação com outras ditaduras,
é tratado com indulgência pela imprensa ocidental? Isso tem relação com a
importância econômica da China e à sua forte integração com as economias
capitalistas?
Não se pode generalizar, mas a ambivalência no reconhecimento dos avanços
econômicos e a denúncia da persistência de poucos avanços em outros campos,
como o reconhecimento das liberdades públicas, é bastante evidente. Inclusive
poderia se especular que, em algumas ocasiões, se utilizam as pressões de
ordem política para obter vantagens econômicas, levando em conta a necessidade
que tem a China de melhorar a sua imagem internacional neste aspecto. Mas, sem
lugar a dúvidas, os interesses econômicos, sua crescente dimensão e
importância, influem na existência de muitos matizes.
A censura à Internet na China funciona? O governo está conseguindo bloquear
o fluxo de informações?
Funciona e põe limites que às vezes são impossíveis de contornar. É um conflito constante no qual o regime dispõe cada vez de maiores meios, pois tem consciência de sua importância. E não se trata só de censura, mas de inundar os meios de comunicação com aquela informação (e aparência de informação) que lhe interessa.
O senhor considera viável um futuro de democracia e respeito ao Estado de
Direito na China? Nesta geração?
Creio que, salvo surpresas, não veremos isso nesta geração. Na China, dizem
que nada pode-se fazer abruptamente. Inclusive os partidários desta opção
consideram que as condições não estão maduras e que será necessário alcançar
um maior nível de desenvolvimento, generalizar a educação etc. para
avançar nesta linha. A concepção do PCCh a respeito é meramente
instrumental e não tem outro objetivo a não ser reforçar seu poder e
hegemonia. Inclusive a preocupação em separar Estado e Partido
enfraqueceu-se nos últimos tempos. Em uma etapa crucial, como a que se
avizinha, esta tendência poderia reforçar-se. A médio prazo, me parece
inevitável.
Como o senhor vê as diferenças, nos Estados Unidos, entre Republicanos e
Democratas em relação à China?
Há alguns matizes, mas, em geral, a diferença se apóia em seu comportamento
alternativo segundo sejam governo ou oposição. As relações bilaterais são
muito importantes e os atritos sempre estarão presentes. Governem republicanos
ou democratas, as pressões dos Estados Unidos em relação à China nos próximos
anos irão aumentar, porque a China não renuncia à sua autonomia política, e os
EUA querem submetê-la a suas redes de dependência.
O aquecimento global é uma questão relevante na política chinesa? A
população se preocupa com a questão ambiental?
Houve uma mudança neste sentido por imperativos econômicos internos e também
por pressões internacionais. O governo está consciente sobre o assunto. Outra
coisa é que habilite políticas e recursos suficientes para contornar o
problema, que é muito sério. Socialmente, também aumenta, mas o processo será
longo e exigirá um grande investimento, também em formação e capacitação.
Quais são as conseqüências políticas da crescente influência econômica da
China na América Latina?
A presença da China na região aumentará de forma significativa nos próximos
anos, e também sua influência política, favorecida não só pelo aumento de seu
poderio global mas também pela atração que sua experiência exerce sobre
alguns governos e as simpatias que suscita em alguns líderes, por sua posição
favorável ao multilateralismo e contrária à hegemonia norte-americana. O
recente estabelecimento de relações diplomáticas com a Costa Rica ativa seu
interesse pela região, onde Taiwan conserva ainda a maioria de seus aliados.
O senhor acha que os Jogos Olímpicos terão alguma influência na política
chinesa em relação a direitos humanos e tolerância com o dissenso?
No substancial, não creio. Haverá melhoras cosméticas e parciais, até sofisticadas, mas as medidas "preventivas" se aplicarão de forma contundente e implacável. As medidas de segurança adotadas durante a celebração do 17º Congresso do Partido Comunista foram um ensaio geral do que poderia acontecer durante o evento. A China não brinca com essas coisas.
Terra Magazine
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AP
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