
Antonio Risério
O alvo principal dos insultos neopentecostalistas era a umbanda. O candomblé não sugeria uma ameaça, em termos nacionais. Sua área de influência se limitava, basicamente, aos terreiros da Bahia, aos xangôs do Recife e às casas do culto jeje do Maranhão. Não tinha a dimensão nacional do umbandismo, que ia da região amazônica ao litoral gaúcho.Entre as décadas de 1980 e 1990, o panorama mudou. De um lado, tivemos o avanço avassalador dos neopentecostalistas. De outro, o candomblé da Bahia alcançou uma projeção nacional inédita em sua história. E o neopentecostalismo partiu para cima do candomblé. Dispôs-se a enfrentar um quarteto e tanto: a Igreja Católica, o espiritismo, a umbanda e o candomblé. Com sucesso. Devemos ter por volta de uns 30 milhões de evangélicos, hoje, no país.
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O grande lance dos neopentecostalistas foi o modo como conduziram o combate às "forças do Mal". Para eles, o Mal não se manifesta apenas na vida do indivíduo. Perturba, também, a ordem na sociedade. Mal individual e mal social se entrelaçam. As entidades que se apossam das pessoas, tomam posse, também, do corpo social. Não é coincidência, por isso mesmo, que o aumento da violência e do tráfico de drogas, no Rio, tenha sido acompanhado de um aumento de conversões e rituais de descarrego. Nem é por outro motivo que negromestiços formam a maioria dos neopentecostalistas do Rio. A umbanda e o candomblé não têm como concorrer com a Universal num combate genérico ao mal ou num combate específico à violência. Antes de mais nada, porque não traçam uma linha divisória nítida, separando o bem e o mal. E isto, se é uma virtude para os mais sofisticados, transformou-se em pecado imperdoável para a população pobre e desprotegida das metrópoles brasileiras.
Claro que não é só por isso que o neopentecostalismo arrasta macumbeiros e candomblezeiros para seus templos. Parentescos rituais e a "teologia da prosperidade" facilitam as coisas. A adesão de pretos macumbeiros à umbanda kardecista foi facilitada pelo fato de o espiritismo ser um culto de possessão vinculado aos mortos. E a "teologia da prosperidade" não é estranha às religiões africanas recriadas no Brasil. Consultando búzios, cumprindo obrigações, fazendo oferendas, o que o adepto do candomblé busca é evitar sofrimentos, solucionar coisas do amor, superar dificuldades, arranjar emprego, ter saúde, criar os filhos, ser bem sucedido profissionalmente.
Não é outro o elenco de dádivas que o neopentecostalismo abarca sob a etiqueta da "prosperidade". Ela envolve sucesso material, sexo-amor-casamento, saúde, relações familiares. Com ênfase na violência, no desemprego e na ruptura da dependência de álcool e drogas. A diferença é que o candomblé não se resume a isso e trata tais temas numa ciranda esteticamente elegante e encantadora. O neopentecostalismo, ao contrário, é obsessivamente utilitarista e imbatível, em matéria de subliteratura.
Muitos se convertem a ele na esperança de "melhorar de vida". De ter acesso ao shopping center. E a maioria dos convertidos acha mesmo que "melhorou de vida" depois da conversão. É uma percepção ao mesmo tempo falsa e verdadeira. Faltam pesquisas sobre o assunto, dirão os sociólogos. Podem fazê-las. Para confirmar o seguinte.
A percepção é falsa porque, na situação atual do país, conversão não é mecanismo de ascensão social. O neopentecostalismo contribui para frear a anomia que se espalha pela sociedade brasileira - reduzindo a violência doméstica, por exemplo -, mas conversão não é sinônimo de geração de recursos materiais, a menos que o sujeito vire pastor.
Mas a percepção é também verdadeira porque o bicho-solto ou porralouca que se converte vai cortar gastos com birita, baseado e boceta. Arrumar a casa direitinho. Os "irmãos" podem até descolar um emprego para ele, que terá outra motivação para o trabalho. Nada de farras, boates, bordéis. Agora é a vez do cotidiano, no "seio da família". Uma boa economia, com a merreca de sempre. Afinal, o estilo neopentecostal de vida só é caro na hora do otário morrer no dízimo.
Terra Magazine
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