
Atualizada às 15h53 |
AFP
Um país em construção - Explosão imobiliária é apenasum dos aspectos de uma China com muitas contradições
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Bob Fernandes
Direto de Pequim
Gisa, 57 anos, é de Palermo, Sicília, Sul da Itália. Há 21 anos ela e o marido Paolo moram em Pequim, onde vivem de fazer e vender queijos e como donos de um restaurante italiano. Quase meia noite. Jantar, vinho e muita conversa depois, hora de fechar o Casa Rubea. Gisa diz, mais para si mesma do que para os clientes brasileiros:
- O Ocidente subestimou a China. Agora é tarde, a locomotiva já partiu, está a caminho...
A locomotiva partiu em direção ao Ocidente e o portal Terra, em busca de informações para milhões de internautas, rumou para o Oriente, aqui para a China.
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O Terra lança hoje o site especial sobre os Jogos e com ele seguirá no ar até o encerramento das Olimpíadas, em 24 de agosto do próximo ano.
A equipe do Terra, composta por Antonio Prada, Allen Chahad, Andréa Martins - valiosíssima sinóloga e tradutora sino-brasileira - e este escriba, Bob Fernandes, voou para a China, em busca de informações. Sobre os Jogos, mas não apenas.
É certo que os internautas terão vastíssimo cardápio, com fotos, vídeos e textos. A começar pelos serviços relacionados às Olimpíadas e ao que cerca um dos maiores eventos esportivos e midiáticos do mundo.
Quem gosta de história específica terá à disposição dados, fotos, quadros de medalhas e informações de todas as modalidades em todos os Jogos da Era Moderna (1896-2006).
Num calendário, a distribuição, esporte por esporte, da disputa em Pequim e os locais de provas: com textos e fotos sobre as arenas olímpicas.
A cidade, o País..., logo de saída dicas para o torcedor quanto ao clima, consulados, gastronomia, segurança, telefones úteis, transporte, ingressos, saúde, entretenimento... E ainda onde e como tirar visto de turista para entrar na China.
O beabá da geografia e história o usuário encontrará no site, mas o Terra pretendeu mais. Mandou à China uma equipe para prospectar, ao menos, o mais elementar, epidérmico, em relação ao País que volta a encantar ou assombrar o mundo.
QUASE 5 MIL ANOS
A quem só agora põe olhos e ouvidos sobre o Império do Meio, vale lembrar: durante milênios, até que viesse a Revolução Industrial, em meados do século XVIII, foi da China a liderança tecnológica no mundo.
Falar da China é lembrar os primórdios da imprensa, a descoberta da pólvora, os grandes navios, as traquitanas para astrônomos, os moinhos de vento, os utensílios para maquinário marítimo, a seda, a porcelana, as primeiras fundições de bronze...
Falar da China é viajar por quase cinco mil anos de história.
Ou de uma história que começa antes, muito antes disso.
Registram na China, a arqueologia e a paleontologia, pegadas remotíssimas de ancestrais humanos; tem 45 milhões de anos o fóssil do símio Zhai Shu, descoberto em Hengqu, Província do Shanxi.
O fóssil Ma tem oito milhões de anos e o homo erectus Yuanmou Man, 1,7 milhão de anos. O interregno entre as idades da Pedra Antiga e da Pedra Nova testemunhou o nascimento dos rudimentos da civilização chinesa.
Há 800 mil anos, na China, o Homem de Lantian, o primeiro a caminhar erguido sobre os dois pés e a fazer ferramentas de pedras; nisso, há controvérsias.
Entre a literatura chinesa, que afirma o dito acima, e o que está nas wikipédias da vida. De resto, sempre há uma manchete recente:
- Foi na África... Começou aqui, na Argentina... Luzia, de Lagoa Santa... e por aí afora. Quando resolverem de vez, saberemos.
Mesmo um estrangeiro dos mais desatentos perceberá, logo à chegada, que não existe uma só China - assim como não existe um Brasil só.
Entenderá o estrangeiro com poucos dias em qualquer cidade que em cada uma delas e seus bairros, nos dialetos, hábitos, gestos, nas superstições, no conjunto de manifestações humanas que se convencionou chamar de cultura, coexistem muitas Chinas.
Convivem a China milenar guardada na Cidade Proibida, coração de Pequim, moradia de 24 imperadores das dinastias Ming e Qing, entre os séculos XV e XX, e a China do Ninho de Pássaros e do Parque Aquático, templos esportivos futuristas, maravilhas da arquitetura pós-moderna erguidas para as Olimpíadas 2008.
MAO E CONFÚCIO, BUDA E MARX
Convivem e reproduzem neste início do século XXI, fato inédito na história recente, dois dos mais poderosos sistemas já engendrados pelos humanos, o capitalismo e o Estado moderno, comunista, fundado por Mao Tse Tung.
Não é pouco.
Um país com 1,3 bilhão de habitantes, quase 10 milhões de quilômetros quadrados e inimigos recentes ou antigos ao longo da fronteira de 12 dos 24 países vizinhos, libertou e gere a um só tempo um dos mais radicais e ferozes experimentos da economia de mercado e um regime político dos mais fechados, comunista, de partido único e centralista.
Os internautas, a propósito, acompanharam nos últimos dias a cobertura especial deste Terra para o 17° Congresso do Partido Comunista Chinês, recém-encerrado em Pequim.
Na China, a mais extrema lei do cão capitalista governada pelo mais absoluto controle do Estado. Durma-se com tal alquimia.
Contradições, paradoxos em cada rua, aldeia, esquina, cabeça.
Bicicletas se misturam aos automóveis e seguem em frente. Buda e Mao Tse Tung, Confúcio e Marx dialogam, assim como o templo Shaolin do Kung Fu e as mecas da pirataria de tudo, como a Rua da Seda.
Rua da Seda já foi rua e hoje é um shopping aqui em Pequim, cidade onde milhares de operários constroem milhares de prédios, enquanto 60% dos apartamentos continuam vazios. Um dia, apostam, o vazio será dinheiro.
Operários com dormitório, comida, mas no aguardo do pagamento de salários atrasados. Bilhões, muitos bilhões em mais-valia e imprevidência.
MASCULINO, FEMININA
Pequim, Beijing, de uma masculinidade dura, por vezes tosca, de muito escarro no chão, muito contrato que nada vale desde o momento em que anunciado. Do templo de pirataria, onde a vendedora se surpreende e surpreende:
- Não funciona? Mas isso não é pra funcionar, é só pra comprar...
Pequim, pior do que São Paulo nos engarrafamentos sem saída, seca, cinza, gigantesca nos seus quase 15 milhões de habitantes, marcada para começar a morrer em 15 anos se em meio à pujança não cessar o crime ecológico.
Shanghai; um pecado reduzi-la a Xangai.
Espetáculo noturno de luzes e formas, arquitetura delirante. Kitsch mas suave, misteriosa apesar da escancaração do neon e imagens nas fachadas de vidro dos arranha-céus, cidade para ser descoberta aos poucos.
(Não para ser invadida, violada, como fizeram ingleses e franceses no começo do século XX, e tantos outros.)
Shanghai. Em chinês, "Beira-mar". Profundamente feminina. Cidade-mulher; mulher de um tempo antes, muito antes de tudo e qualquer coisa por um marido, um homem rico, rico mesmo se tanto é desnecessário.
Pequim com sua explosão imobiliária e automobilística neocapitalista, com a Cidade Proibida, a pirataria, a Grande Muralha logo ali perto, os casebres nas vielas (hutongs), as grandes universidades, o centro do poder político...
E quando a gente pensa que já não viu tudo, Shanghai.
ARMANI, PRADA, VERSACE...
A siciliana de Palermo, Gisa, que viu e ouviu a partida da locomotiva China, mora em Pequim mas não esconde:
- Shanghai é mais...
Ela sabe o que diz quando fala da China. Ela tem chineses como sócios - única maneira de abrir um negócio e conseguir ficar.
Gisa mora em Pequim, mas sabe o que aconteceu na sua Itália nos últimos 10 ou 15 anos. Sabe o que aconteceu em Prato, há sete séculos o coração da indústria têxtil européia.
Para que se tenha uma idéia do que é Prato: Armani, Versace, Gucci, Ferre, Prada, Valentino... são ou foram clientes da indústria de lá.
Gisa sabe que trabalhadores chineses começaram a desembarcar em Prato no fim dos 80, começo dos 90. Primeiro alguns, depois muitos outros, até serem uns 20 mil.
Os chineses lavaram latrinas, varreram chão, carregaram carga, fizeram todo serviço pesado e sujo, até que arranjaram empregos nas fábricas e, de repente, já haviam criado suas próprias empresas de tecelagem por ali.
Mas Gisa não sabe que as empresas de chineses na região eram 212 em 1992 e, 11 anos depois, em 2003, chegavam a 1.753. E que das seis mil empresas têxteis que funcionavam em 2000 só restavam de portas ainda abertas menos da metade cinco anos depois.
MANUFATURA NO ALMOÇO E JANTAR
Quem dispõe destes números é a Secretaria de Comércio de Prato e quem primeiro foi até lá conferir foi o jornalista inglês James Kinge, de quem vamos falar nos próximos dias no Diário da China, aqui neste portal Terra e em Terra Magazine.
Correção. O pioneiro foi Bruce Stokes, no National Journal, em 2 de outubro de 2004. O que Kinge fez foi o que faço agora, capturar para os leitores o que melhor, mais profundamente, mostre qual a força e quais os caminhos já percorridos pela locomotiva chinesa.
Gisa não conhece os dados porque não é jornalista como Stokes, ou como Kinge, que por anos chefiou a sucursal do Financial Times em Pequim, mas Gisa sabe que os chineses já almoçaram quase toda a indústria têxtil de Prato.
Como sabe - porque a Itália que lê ou ouve alguma coisa já sabe - que os chineses estão a jantar as fábricas de roupas e artigos de couro na Toscana e que seus negócios se espalham agora também por toda a Emilia-Romagna...
Quem é da indústria têxtil ou calçadista, quem é da manufatura no Brasil, sabe o que também já sabem os sindicatos de trabalhadores têxteis no meio-oeste nos EUA, os operários de indústrias do aço no Ruhr alemão, os franceses, ingleses, poloneses, tchecos...
Sabem o que dona Gisa resumiu em uma frase:
- Agora é tarde, a locomotiva já partiu...
Partiu e, com sua mão-de-obra a dois ou um dólar/dia e seu contingente de 700 milhões de trabalhadores, já engoliu grande porção da manufatura do mundo.
Kinge viajou nos dramas trabalhistas da Itália, Alemanha, Inglaterra, EUA, rodou coração e mente pelo planeta, na trilha da voracidade capitalista da comunista China.
A locomotiva partiu.
AS FORMIGAS E A SECESSÃO
Discute-se, nas academias, fóruns internacionais, mundo afora: até onde vai a China, que acaba de ultrapassar a Alemanha e tornar-se a terceira mais poderosa economia do mundo? Que vai, dizem os do ramo, deixar o Japão para trás em 2012.
China que, planejam, sonham e anunciam os próprios líderes, baterá os mestres, os Estados Unidos, em 2040.
Não, nunca, pois 70% do seu comércio é tocado por multinacionais, diz um, enquanto banca: eles não agüentarão, o vírus do capitalismo aprofundará a miséria, dividirá ainda mais o País, entre massas de ricos e pan-multidões de pobres, a China viverá a secessão.
Os chineses contornam os obstáculos, desde sempre, observa um dirigente do PCCh. (Assim como pintam os cabelos de preto, sempre, se escondem do grisalho e do branco.)
Eles são como formigas, não desistem, dão a volta e seguem em frente, percebe um estrangeiro, quase chinês, 20 anos depois da chegada a Pequim.
Uma febre da economia chinesa mataria mais na própria China, não afetaria o mundo como se daria se fossem os Estados Unidos, emenda outro dos ouvidos por este Terra.
Faltará água, o país é seco. Se muito não for investido, e rápido, o mundo verá a Diáspora da Água, garante o ambientalista alemão - também ele entrevistado por Terra para a seqüência de reportagens.
Pode ser, tudo pode se dar, mas quem mergulha na China de 2007, mesmo com olhos ligeiros de um estrangeiro, quem aqui vê e vive o que está na epiderme, quem soube, sabe dos estragos na economia mundo afora, não consegue esquecer a siciliana Gisa:
- O Ocidente subestimou a China. Agora é tarde, a locomotiva já partiu...
Terra Magazine
» Dona Joana: Por quem os sinos dobram