
Atualizada às 13h21 |
Antonio Prada/Terra
Sob o céu cinzento e poluído de Pequim, a cada vez mais difícil convivência entre automóveis e bicicletas
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Bob Fernandes
Direto de Pequim
O avião sobrevoa Pequim. Mal se vê a cidade, coberta por uma densa camada. Neblina ou poluição? "Um pouco de cada coisa", explica Y. Zia. Entre sorrisos e mesuras, o comissário de bordo aponta para o difuso conjunto de construções vizinho ao aeroporto e conta:
- São instalações olímpicas numa universidade, para Beijing 2008...
O olhar de um estrangeiro. De saída, a tentação de logo buscar contrastes, paradoxos entre a China do imaginário ocidental e a China que agora, da janelinha do avião, começa a se tornar real, concreta.
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O dilema é o mesmo de sempre.
Captar e relatar de maneira direta, crua, apenas o que percebem os sentidos mais remotos, de antes da contaminação recente, ou usar todo o filtro do que foi lido, devorado nos dias que antecederam o encontro com o País de 1,3 bilhão de habitantes, com o enigma que cada dia mais assombra ou maravilha o resto do mundo?
A saída é a de sempre.
Como são, o que pensam, dizem, fazem, o que foram, o que querem os humanos da China? Das muitas Chinas.
CARROS E BICICLETAS
Este diário começa em Pequim, ou Beijing, ano de 2007 pelo calendário gregoriano, ocidental. Ou ano de 4705 no calendário lunar, do qual se valem tradicionalistas e estudiosos chineses. Apenas eles, pois a multidão já está noutra, está no ano de... 2007.
Neste começo de outono a temperatura beira os 30 graus e o céu é cinzento - como quase sempre em Pequim.
O táxi avança por uma das grandes avenidas da cidade, e nelas se trava uma batalha entre duas chinas. Uma, a dos carros; outra, a das bicicletas.
Confinadas num corredor lateral das largas avenidas, as bicicletas. Elas seriam algo como 500 milhões em todo o país, um terço das bicicletas da Terra.
As bicicletas resistem, mas parece ser questão de tempo a derrota das duas rodas para os três milhões de automóveis de Pequim, onde as quatro linhas de metrô de agora serão onze em 2015.
Alheios ao tráfego intenso, ciclistas ainda se arriscam por entre automóveis e não só nas pistas reservadas, mas não há como essa convivência seguir adiante por muito tempo.
A questão é de física - dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço etecetera - e de química, digamos assim.
Os motoristas dirigem com uma cautela confucionista, inexistente, por exemplo, num país como o Brasil, mas a aplicação prática das regras no trânsito encontra paralelo numa cidade como Salvador, Bahia: cada um costura como quer.
A ultrapassagem se dá pela esquerda ou pela direita, uns colam nos fundos dos outros, setas indicativas parecem ser apenas enfeites e dizem, mesmo sendo inimaginável, já se buzinou mais. Em meio a esse emaranhado, as bicicletas.
FOME E MORTE DE 30 MILHÕES
A cada avenida, esquina, calçada, se materializa aos olhos de um estrangeiro a realidade, e o choque, entre as várias Chinas.
Na Terceira Circular Leste - uma das cinco que cortam a cidade -, jovens, centenas e centenas, caminham pelas calçadas que interligam campi das Universidades de Pequim, de Qing Hua, do Povo e das Línguas Estrangeiras. De quando em quando, na avenida, resquícios de uma outra Era, os riquixás (triciclos com um banco para passageiros).
Já vai longe, anos 20 do século passado, o tempo em que o modernista chinês Lao She escreveu o épico O Homem do Riquixá (em chinês, O Homem-camelo). O conto, um flagrante da exploração do homem pelo homem, a história de humanos que carregavam outros nas costas, nos riquixás.
Nos tempos de Mao Tse Tung (1949-1976) no poder, aqueles em que 30 milhões morreram de fome em nome de uma sociedade sem fome e igualitária, o riquixá tornou-se um símbolo nefasto. Sobrevive hoje como atração turística, testemunho minimalista da vitória do capitalismo, da mais-valia.
(De qualquer maneira, é um emprego e com uma evolução: antes, o homem puxava o veículo a pé, como um camelo; hoje, ele é um ciclista.)
Distrito Hai Dian, o das universidades, no Noroeste de Pequim. Mais contrastes.
Numa velha bicicleta, roupas puídas, barba por fazer, um senhor vende batatas doces, assadas na hora. Nos pés a velha alpercata, quase a se desmanchar.
Por ele, indiferentes, passam as meninas num desfile de jeans, camisetas coloridas e tênis, sempre tênis, piercings nos narizes, lábios, orelhas...
Cabelos a Channel, muita cor e, também aqui, muita chapinha. Mas, ao contrário daí, aqui para encrespar o que nasce liso.
Como nas ruas de Nova Iorque, Berlim, São Paulo, Amsterdam, Londres, qualquer centro urbano do Ocidente conectado à moda-mídias, meninos espetam - ainda mais, no caso - os cabelos. Quase sempre de jeans. Sempre de tênis. Fones nos ouvidos, estando ou não a sós.
A meros nove quilômetros de Hai Dian, uma outra China.
MAO E OS CELULARES
Praça Tiananmen, coração de uma cidade de 15 milhões de habitantes dividida por um eixo. De Leste a Oeste, pela avenida da Paz Eterna e, de Sul a Norte, pela avenida Eixo Central.
Tiananmen, que pode ser traduzida como Portal da Paz Celestial. Ali, em nome da paz e da democracia, morreram (não poucos) estudantes em 4 de junho de 1989 - número oficial ainda desconhecido.
(Para os que se movem através da memória visual: é aquela praça em que um jovem, solitariamente, se posta no meio da avenida e enfrenta uma fileira de tanques do Exército Popular de Libertação.)
Tiananmen, numa tarde de sol. Não há piercings, cortes modernos, jeans. Não há tênis. São poucos os jovens. Nesta tarde do início do outono, a Tiananmen é um retrato da velha China.
Mao Tse Tung, rosto retratado em enorme pintura, olhar em direção à Praça e ao mausoléu onde seu corpo embalsamado está exposto. (Mas não nestes dias da grande reforma para os Jogos Olímpicos).
Durante o recém-encerrado Congresso do PCCh, uma exceção: visitas para jornalistas e integrantes do Partido.
Na enorme praça, os chineses são de outras províncias, turistas na primeira viagem à Capital, contam os guias.
Os rostos são morenos, queimados pelo sol do trabalho no campo, os corpos são mais baixos, ainda mais magros. Os sapatos, quase sempre pretos, e de couro. As calças, de tergal, poliéster, escuras, e as camisas de manga curta são brancas.
Há um ritual. Caminhar em grupo pela gigantesca praça, quedar-se em silêncio ante cada monumento, ouvir trechos de uma história que beira os cinco mil anos, saber detalhes das construções erguidas há séculos e, ao final, estancar diante do retrato de Mao.
Aí, sim, o movimento, a algaravia, a excitação. Perfilados, Mao ao fundo, as fotos, muitas fotos. Fotos feitas com celulares. Quase não há, na multidão de turistas, quem não carregue um celular.
Celular. Pelas estimativas oficiais, 400 milhões deles. Aos olhos de um estrangeiro, a primeira, a mais evidente conexão estética entre as muitas Chinas.
Terra Magazine
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