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Quarta, 24 de outubro de 2007, 08h58 Atualizada às 13h20

China: números e exemplos superlativos

Bob Fernandes
Direto de Pequim

A China é um depósito de superlativos. Em qualquer estudo, relatório ou livros sobre o País, pululam mega-números.

Para temperar com alguma densidade o olhar ligeiro de um estrangeiro recém-chegado e dar aos leitores uma idéia dessa imensidão e seus paradoxos, tão gigantescos quanto, este diarista de ocasião valeu-se de método jornalístico quase tão antigo quanto a própria China.

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Por 19 anos repórter na Ásia, mais de uma década em Pequim, onde mora com a mulher e os três filhos, James Kinge chefiou o escritório do diário inglês Financial Times e encontrou tempo para escrever um excepcional testemunho da ascensão da China.

Chama-se A China Sacode o Mundo, o livro, e no Brasil foi editado neste 2007 pela Editora Globo.

Salvo o capturado pelos sentidos e o olhar particulares, na tentativa de compreender o gigante asiático no que é macro, pouco terá um jornalista para buscar que já não tenha sido encontrado por Kinge.

Claudia Trevisan, um ano na China como repórter da Folha de S. Paulo, editou pela Planeta O Renascimento do Império.

No segundo capítulo deste diário cito aqui Claudia Trevisan e, muito em especial, James Kinge, para não iludir os internautas nem a mim mesmo.

O que abaixo está alinhavado foi capturado em leituras difusas, em relatórios do Banco Mundial e congêneres, ou em dezenas de conversas por Pequim e Shanghai. Mas foi em livros, algo no de Claudia e muito no de James Kinge, que encontrei informações que permitem traçar para os leitores o esboço de um esqueleto da China.

UM DÓLAR POR DIA
O que faço a partir daqui é costurar pedaços de uma China superlativa na ascensão, grandeza e miséria.

A China, que acaba de ultrapassar a Alemanha como terceira economia do mundo, é um País com reservas internacionais que já estão além do um trilhão de dólares.

Para muitos, na década de 40 deste século, o Império do Meio alcançará os Estados Unidos e se tornará a maior potência econômica do planeta.

Para outros tantos, a China naufragará, ou irá aquietar-se no meio do caminho, por conta de suas próprias fragilidades e contradições, a começar pelas expostas nas condições de vida da sua população.

Mais da metade do 1,3 bilhão de chineses, 700 milhões de almas, sobrevive com dois dólares por dia, enquanto 90 milhões de pessoas vivem com ainda menos, um dólar ao dia, relata o Banco Mundial.

Hartwig Steusloff, alemão, professor da Unesco, estuda a degradação do meio ambiente local desde 1993; os internautas lerão entrevista exclusiva de Steusloff nos próximos dias, na seqüência de reportagens do Terra sobre a China.

SEM ÁGUA
Especialista em Tecnologia de Informação para Indústria e Meio Ambiente da Northeastern University, de Boston (Estados Unidos), o ambientalista alemão prevê que, se nada ou pouco for feito, o mundo assistirá e sofrerá com a diáspora de chineses em busca de água, centenas de milhões deles.

Com um território de 9.600.000 quilômetros quadrados, que se projeta das montanhas do Tibet até o Pacífico, como se fosse uma escada, algo como 70% disso é só aridez. Das terras agricultáveis do mundo, menos de 7% estão por ali.

Os rios Yangtze, Amarelo e Amur correm de oeste para leste, centro-leste e nordeste, e o Mekong, o Brahmputra e o das Pérolas descem para o sul (Wikipedia). Mas o País é seco. E destes rios, informa o professor Hartwig Steusloff, menos de 15% têm graus aceitáveis de poluição.

O que vem por aí, no rastro do grande salto da economia chinesa, não é uma boa notícia para o meio ambiente.

Estima-se que, no ritmo atual, dois terços das geleiras da China - 15% do gelo da Terra - terão se derretido em 2050.

No país que já emite quase 14% dos gases que poluem a atmosfera e consome 34% do petróleo do planeta, uma classe média que hoje chega a 100 milhões de pessoas deverá ter 300 milhões em menos de 10 anos.

O número de ricos chineses, daqui a escassos três anos, será equivalente à soma das populações do Brasil, Argentina e Venezuela nos dias de hoje: 260 milhões de almas.

E já são centenas de milhares os milionários...

O mundo conviverá, cada vez mais, com este cenário: 100 milhões de chineses viajarão para o exterior a cada ano já na década de 20, aposta a Organização Mundial do Turismo.

INIMIGOS HISTÓRICOS
Isso, numa das pontas da pirâmide.

Na outra, a base, cerca de 120 milhões de trabalhadores não recebem quase nenhum benefício trabalhista e a dívida de salários não pagos por empreiteiras a operários que erguem a nova China de concreto e aço estaria, de acordo com calculistas diversos, entre quinze e trinta e cinco bilhões de dólares.

Dos 24 vizinhos fronteiriços, 12 são ou foram inimigos históricos, o que talvez ajude a entender o orçamento de US$ 30 bilhões/ano para um conjunto de forças armadas com 2,3 milhões de integrantes- já foram 10 milhões.

E a se vislumbrar o porquê do nascimento e permanência de um partido no poder, o PCCh, que tem 73 milhões de filiados e exerce o controle absoluto das estruturas políticas há 58 anos.

A nova China se prepara: no ensino médio estão 200 milhões de alunos, enquanto outros 20 milhões acabam de chegar ao jardim-de-infância.

Os números são, sempre, superlativos, e ajudam a radiografar o quanto os chineses estão a engolir a manufatura no mundo.

FALTA MULHER
A empresa Galanz fabrica 40% dos fornos de microondas da Terra e 70% das fotocopiadoras são feitas também na China, assim como 55% dos tocadores de DVD, 30% dos microcomputadores, 25% dos aparelhos de TV e 20% dos sistemas de som de automóveis.

Em tempo. A quem interessar possa, há ainda dados sobre dois temas que costumam mover e comover brasileiros e brasileiras em geral.

Entre os 1,3 bilhão de chineses sobram homens: eles já são hoje 40 milhões a mais do que as mulheres.

Por fim, mas não por último.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, financiada por grupos ricos da Europa, calcula que somente em 2004 a corrupção na China engoliu algo entre 50 e 84 bilhões de dólares.

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