
Atualizada às 13h18 |
Antonio Prada/Terra
Deng, medalhista e agora cartola. Após sua entrevista, um debate com chineses sobre Feng Shui, harmonia, diabos, fantasmas...
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Bob Fernandes
Direto de Pequim
Sede do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos. Sala no terceiro andar, reservada para entrevista com Deng Yaling, 18 medalhas, individuais e/ou coletivas em competições mundiais de tênis de mesa, quatro delas nas Olimpíadas de 92 e 96.
Deng Yaling, agora mestra em sociologia pela Universidade de Nottingham e PhD em marketing olímpico por Cambridge, é vice-diretora da Vila Olímpica.
Articulada, inteligente, Deng senta-se na poltrona branca e quase não consegue tocar os pés no chão com seu metro e meio.
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Deng fala assistida por três assessoras e um assessor. Deng, cabelos curtos, num elegante conjunto de saia-blusa e sapatos em marrom e creme. As assessoras, jovens de jeans e tênis.
Ele, o senhor Y, encarregado de acompanhar jornalistas estrangeiros em suas entrevistas, com o que parece ser um uniforme de funcionários públicos: calça de tergal azul marinho, camisa branca de mangas curtas, meias brancas e sapatos pretos.
PROIBIDO
Y é discreto durante quase todo tempo. Toma notas, fotografa, a princípio ouve muito e fala pouco. Sempre atento.
Onze poltronas se distribuem pela sala de papel parede gelo, teto em gesso, rebaixado, e carpetes de cor creme. Numa das paredes, de forma harmônica, em dois grupos de três, delicados desenhos a lápis.
Reproduções do Templo Miaoying, com seu pagode (clássica construção chinesa) de 51 metros de altura, em Fuchengmen, uma das portas de acesso à antiga cidade, de 1420.
Lado a lado, na mesma parede, desenhos do Palácio de Verão e do Portal Sul, o principal da antiga muralha da cidade - cenário do qual se valeu Bertolucci em O Último Imperador para criar o instante em que o menino-Imperador pela primeira vez se depara com uma multidão.
Naquelas paredes, portanto, nada além de uma história épica, rica, mas já milenar, contada e recontada. Mesmo assim Y segue atento, logo às costas, acompanhando as anotações do repórter.
HONG KONG
A entrevista com Deng Yaling chega ao fim. Ela distribui brindes Pequim 2008, cumprimenta os visitantes.
Resta uma questão, endereçada às jovens assessoras: sobre o Feng Shui, a busca pela harmonia que se materializa na arquitetura e na decoração, quase uma obsessão em vários cantos da velha, mas também da nova China.
A disposição das 11 poltronas na sala, os dois grandes antúrios em vasos de porcelana nas janelas do sul, que dão para a avenida, e os quatro pequenos vasos com antúrios ao norte..., há no ambiente a busca pela harmonia, o espírito do Feng Shui?
"Não, não, imagina"... As respostas se atropelam. "É que os chineses, com ou sem Feng Shui, buscam as simetrias; por elas têm, sim, obsessão". Prossegue o discurso das jovens:
- Feng Shui é coisa daquele pessoal lá de Hong Kong, de gente supersticiosa - diz uma delas, estagiária.
O senhor Y, pela primeira vez, se anima. Entra na conversa.
Começa por dizer que "sim, isso é coisa dos hongkoneses", eles, os supersticiosos.
Ele, o senhor Y, não tem superstições; ainda que o toque do seu celular seja o canto de um galo, um dos 12 animais do zodíaco chinês.
DIABOS E FANTASMAS
Superstição é coisa dos antigos, mesmo que em tantos dos prédios de Pequim, da China, o quarto andar, do aziago número 4, não exista, como banido é o 13 nos Estados Unidos. (O 13 aqui também desaparece em muitos edifícios, mas por conta das quizilas de ocidentais. Na dúvida...)
Coisas dos "hongkoneses", diz Y antes de emendar:
- ...agora, o Feng Shui no prédio do Ministério das Relações Exteriores não é bom...
- Por quê?
- Porque em Pequim, que está no norte, para aproveitar o sol todo o tempo as portas e janelas principais dão para o sul, de onde recebem luz e aquecimento...
- Sim, mas e o Feng Shui do Ministério das Relações Exteriores?
- As portas são voltadas para noroeste, facilitam a entrada de diabos e fantasmas - explica, convicto, o senhor Y.
Tamanha é a convicção que ele mesmo atalha, na frase seguinte:
- Quer dizer, os hongkoneses é que dizem isso do nosso Ministério das Relações Exteriores.
Os arquitetos e a geografia explicam. Do noroeste, da Sibéria e do deserto de Gobi, chegam os ventos gelados ou carregados de areia.
O GALO
Não apenas os arquitetos e a geografia; a cultura, a história e a alma chinesa ajudam a explicar o desenho arquitetônico mais impactante criado para as Olimpíadas 2008.
O Ninho de Pássaros está ao lado do Parque Aquático. Belíssimo, surpreendente em suas formas retorcidas o Ninho de Pássaros. Maravilha de tecnologia e ousadia, o Parque Aquático, paredes externas erguidas com água presa em gomos de algo parecido com acrílico.
Tecnologia e formas futuristas, mas embebidas de alma e história chinesas. Ambas as construções serão ladeadas por um lago - ainda a ser criado - em forma de dragão, milenar símbolo da identidade nacional. Não pára por aí a simbologia.
O Ninho de Pássaros, erguido em aço por ser uma construção Yang. É masculino, diurno, luminoso, é o sol. O Parque, embalado em água, do feminino Yin, que vem a ser noturno, passivo, sombra.
São complementares, buscam harmonia e equilíbrio, o Ninho e o Parque. Guardados pelo dragão.
A entrevista de Deng Yaling terminou. Ela passa pelos quatro antúrios pequenos e deixa a sala, enquanto as jovens chinesas discutem o Feng Shui.
O telefone do senhor Y toca. Antes que ele possa atendê-lo, o galo já canta no bolso da sua camisa branca.
Terra Magazine
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