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Sexta, 26 de outubro de 2007, 09h59 Atualizada às 13h16

Os pequenos ginastas da China. E no Brasil...

Bob Fernandes
Direto de Pequim

Logo à entrada da escola um sentimento ambíguo se impõe. Sentimento de admiração, mas também de recusa, que seguirá mordiscando por toda a visita, e mesmo depois.

O espaço é igual ao de qualquer ginásio de esportes coberto em qualquer lugar do mundo. As diferenças começam pelas dezenas de tatames e colchões espalhados pelo chão e pelas muitas barras e cavalos para exercícios.

A escola Xi Cha Hai já formou 3.600 atletas olímpicos desde 1958. São 4.000 destas escolas por toda a China, 221 delas profissionais - como verão os internautas em entrevista a ser publicada neste portal Terra.

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Nesta tarde, 70 crianças se exercitam e treinam, todas candidatas a futuras ginastas. Elas têm entre 6 e 10 anos e são pequenas, muito pequenas mesmo para o padrão asiático, chinês.

Li, 6 anos, segura as minúsculas mas malhadíssimas perninhas de Ling, 7 anos. Ling, mãos cruzadas à altura do umbigo, faz uma série de abdominais... vinte, quarenta, cinqüenta...

Meia dúzia de professores grita instruções. Os pequenos corpos giram nas barras, despencam nos colchões, erguem pesos, saltam. Quase todos têm um metro e dez, um e vinte, se tanto. Mey Hao não deve ter mais de um metro e poucos centímetros.

Não há como não se comover, não sentir um aperto no coração, não se interessar por Mey, o minúsculo ginasta, que treina vestido com uma ainda mais minúscula cuequinha clara.

Ele é um dos internos da escola Xi Cha Hai, que tem 600 alunos em 8 categorias - por idade. Quem pode, paga de 20 a 30 mil yuans ao ano por filho - algo entre 2.600 e 4.000 dólares. Ou entre 4.600 e 7.200 reais ao ano.

Os que não têm condições financeiras para tanto pagam 300 e 400 yuans ao mês. Ou seja, entre 40 e 53 dólares. Menos de 100 reais. Metade dos alunos é selecionada e metade é de alunos particulares.

Em tempo: não é uma escola pública. Há o processo de seleção e a escola para formação de atletas é mantida também com ajuda do Estado. E nem todos são internos.

A relação entre a escola e os pais, dos pais com os filhos, não foge ao padrão chinês. Mesmo os menores internos que têm família na própria Pequim, como Mey, são entregues à escola e só aos domingos encontrarão os pais.

China. Para educar um filho se fará qualquer sacrifício. Os filhos, em especial os homens, são a garantia dos pais na velhice. Isso era assim, sempre foi, na velha China. Segue a ser, mas o ciclo de prosperidade já traz mudanças.

Eles não estão ali, na escola para ginastas. Estão nos shoppings, hamburguerias, nos fast foods em geral. São, raridade na China de até há pouco, obesos, ou estão a caminho disso. E, já assunto na mídia, tratam mal aos mais velhos, desrespeitam os pais.

Eles são conhecidos como Os Pequenos Imperadores. Os filhos das novas classes ricas e médias. Os filhos do capitalismo e do junk food.

Mey, o minúsculo candidato a ser ginasta um dia, não é um Pequeno Imperador. Ele, como os demais nesse ginásio, estuda pela manhã e treina toda tarde, seis dias por semana. Aulas noturnas, ainda, em outros três dias da semana.

Mey tem 6 anos, a idade mínima para entrar na Xi Cha Hai. Como Li e Ling, Mey repete, exaustivamente, os movimentos.

Elas, agora, voam nas barras aéreas. Sob o olhar dos professores, despencam nos colchões, levantam-se, tornam a girar nas barras até novas quedas.

Não há um segundo de desatenção. Nem mesmo o flash das máquinas, a câmera ligada, a filmar de muito perto, distrai os pequenos meninos e meninas.

Não há um único sorriso naqueles rostinhos infantis. Abdominais, centenas deles, por toda tarde. Panturrilhas rijas - nunca maiores do que a distância entre o polegar e indicador de um adulto abertos.

Barrigas, barriguinhas, de tábua. Bíceps volumosos, corpinhos torneados... sem sorrisos enquanto treinam.

Mey, como Li e Ling, sabem. Aos 10 anos, a decisão. Quem tiver talento, aptidões desenvolvidas, seguirá na escola. Um dia poderá disputar mundiais e olimpíadas pela China, como 32 medalhistas ex-alunos da Xi Cha Hai.

Quem não tiver...

Quase fim do horário da visita dos estrangeiros. Mey, uma outra vez, dispara pela quadra e executa o salto triplo mortal.

Ele limpa o talco das mãos na pequena cueca, de passagem me olha, apenas curioso enquanto se prepara para mais um salto. Me pergunto se os pais de Mey não têm dinheiro nem mesmo para uma sunga.

É justo tanto salto, abdominal, flexão, queda, tantas horas num ginásio aos 6 anos de idade?

Sentimentos ambíguos. Admiração pelo trabalho, tenacidade, talento, disciplina, e recusa a tanto em crianças de seis, oito, dez anos, distantes dos pais...

Como é possível isso?

Mey executa mais um salto, Li sobe nos ombros de Lyn... e aí o sentimento ambíguo cede lugar a imagens que se superpõem.

Nas esquinas, nos sinais fechados. Sem pais, ou com pais a obrigá-los, olhos vidrados pela fome ou cola, saltos e cambalhotas, bolas de tênis ou argolas para os malabares de segundos enquanto o sinal não abre...

Crianças nas ruas do Brasil.

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